Lugares, Cultura

As razões de Calabar serão julgadas 383 anos depois da morte do guerreiro portocalvense

Inicialmente lutando no exército português, Domingos Fernandes Calabar passou-se para o lado dos invasores holandeses; foi sentenciado à morte por enforcamento em 22 de julho de 1635

22 de Julho de 2018, 09:37

Jorge Barboza

PORTO CALVO – Neste domingo (22), a partir das 10h, acontece no município distante 100 km ao norte de Maceió o Julgamento Simulado de Calabar. O tribunal será instalado exatos 383 anos depois do enforcamento e esquartejamento do oficial portocalvense (que lutou ao lado dos holandeses no Brasil colonial) no dia 22 de julho de 1635. No lado da acusação, participam o promotor Geraldo de Magela e o advogado e sociólogo Rodrigo Leite. A defesa ficará a cargo dos advogados José Ailton Tavares e Ney Pirauá e o juiz, que proferirá a sentença às 16h, é o atual presidente da Associação Alagoana dos Magistrados, Ney Costa Alcântara de Oliveira. O julgamento ocorrerá no fórum do município, na região central da cidade.

O chamado “Julgamento da História”, que vai virar livro e documentário, será transmitido ao vivo na página da prefeitura do município no Facebook. “O júri pós-morte de Domingos Fernandes Calabar terá o banco dos réus vazio e sem testemunhas”, destaca o informativo enviado à Redação.

“O julgamento mais esperado da história de Alagoas”, continua a comunicação oficial, “poderá ser acompanhado em tempo real por qualquer pessoa no mundo com acesso à internet.”

Nascido na vila de Porto Calvo em 1609, filho bastardo de pai português e mãe indígena, Domingos Fernandes Calabar – educado por jesuítas – lutou contra os holandeses, ao lado de Matias de Albuquerque, no início das invasões em 1630. Em seguida desertando do exército português, juntou-se aos neerlandeses, supostamente por acreditar na Holanda como um país mais justo e progressista do que Portugal. As razões do personagem serão postas em cheque neste domingo, buscando-se um julgamento aparentemente mais equilibrado do que aquele de cartas marcadas empreendido pelos oficiais portugueses em 1635.

No corpo de jurados estarão intelectuais e historiadores, como os historiadores Douglas Apratto e Geraldo de Majella, o professor Zezito Araújo, o sociólogo Luiz Sávio de Almeida e o jornalista e secretário de Estado, Ênio Lins. A juíza Fátima Pirauá, também integrando o júri, considera que Domingos Fernandes Calabar “fez uma escolha convicto de que estava fazendo a opção certa, tendo em vista que os holandeses tratavam melhor os escravos e os índios, e os respeitavam”. “Com isso, ele já buscava o que hoje ainda continuamos buscando, dignidade, respeito e liberdade, já que no lado português ele era discriminado, por conta de sua origem, e não tinha liberdade, inclusive religiosa.”

Ênio Lins diz ver o personagem como “figura positiva”. “Não o considero traidor”, afirma.

A secretária de Cultura do município, Terezinha de Oliveira, destaca os “grandes nomes” envolvidos nesse já histórico julgamento. “Sem dúvida eles estão inseridos no contexto histórico-cultural do nosso Estado. O corpo de jurados tem representantes de vários segmentos culturais. O juiz com total imparcialidade dará o veredicto de acordo com o voto proferido pelo júri. 22 de julho de 2018 será sem dúvida uma data inesquecível para o povo portocalvense.”

Para a prefeitura, “a expectativa em Porto Calvo é de que o município receba várias caravanas.”