Cultura

Muito além das minas flutuantes da Marinha

No litoral Norte, o passado é redescoberto em escavações e mergulhos no histórico Manguaba

27 de Julho de 2018, 13:36

Em maio de 2010, quando uma mina flutuante da época da 2ª. Guerra foi encontrada em Maragogi por operários que trabalhavam em uma obra de saneamento na área urbana do município, a cidade inteira acreditou estar diante de um tesouro de um passado muito mais remoto. Os dois trabalhadores que acharam o artefato bélico, mesmo desconfiando tratar-se de algo perigoso, pegaram o martelo e chegaram mesmo a abrir um buraco na bola de ferro de quase um metro de diâmetro, pesando 100 kg, pertencente à Marinha do Brasil.

Felizmente ela não explodiu – o que aconteceu depois, de forma induzida, detonada pelo esquadrão antibomba do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope). Mas até o momento da explosão, uma multidão já havia se reunido em torno do artefato e exigia que a polícia devolvesse à população a sua "botija de ouro". 

O operário Jadson José da Silva disse que, depois de passado o tumulto, sentiu um frio na barriga pensando no tal artefato de guerra explodindo, de repente, em suas mãos. Toda essa confusão tem uma justificativa: há sete anos, em outra obra de saneamento da prefeitura, trabalhadores realmente encontraram uma botija, cheia de moedas de prata e bronze do século 19. Ninguém ficou rico com isso. E parte dessa preciosidade histórica se perdeu, de mãos em mãos, restando algumas moedas hoje sob a guarda da Secretaria de Cultura do município – que não ficou com mais de 15% do que foi achado.

Arqueologia pode resolver antigos enigmas

A mina flutuante e a botija tornaram-se o começo e o fim de um mesmo novelo: o passado histórico do litoral norte de Alagoas, que é polo de colonização do nosso Estado e do próprio país. O arqueólogo Scott Allen, do Núcleo de Ensino e Pesquisa Arqueológica da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), realizou com a uma equipe de estudantes da Ufal diversas escavações numa região que vai de Maragogi até União dos Palmares, passando por Japaratinga, Porto de Pedras e Porto Calvo. Ele receia falar do assunto para não criar sensacionalismo e, digamos, provocar uma corrida do ouro, afinal, arqueólogos trabalham com objetos encontrados em diversas camadas que vão sendo formadas no solo ao longo dos anos. Se começam a mexer e a remexer a terra, a história perde o contexto e a leitura arqueológica torna-se, praticamente, impossível.

"Não há material valioso, nunca encontrei botija nem qualquer coisa de valor monetário. Precisamos proteger esses sítios arqueológicos", disse o professor Allen, que mapeou 19 sítios arqueológicos para traçar a rota dos escravos nos engenhos de cana de açúcar na colonial Porto Calvo (que abrangia, aliás, os territórios dos municípios de Maragogi e Porto de Pedras) rumo à liberdade na Serra da Barriga, em União dos Palmares.

Acharam-se pedaços de faiança da Ironstone China (a antiga porcelana inglesa que imitava a ancestral louçaria chinesa) e troncos de senzala. Além das casas-grandes que resistiram ao apelo industrial das grandes usinas de açúcar. E coisas que a rapaziada que gosta de mergulhar no rio Manguaba, no antigo Porto das Barcaças, em Porto Calvo, costuma encontrar: frascos de perfume parisiense, garrafas de champanhe e garrafas de cerâmica com o timbre de Cambridge (Inglaterra), moedas, correntes, cadeados e uma infinidade de objetos de vidro, de ferro e de bronze, muitos deles destroços de antigos navios portugueses, espanhóis e holandeses.

Como a enferrujada garrucha (espécie de pistola barata, com um tiro por cano, muito usada nos anos de 1730 a 1960) exibida pelo açougueiro Edmilson da Silva, de 27 anos. "Quando baixa a maré, encontramos muita coisa sob a areia no leito do rio. Mas como não tem museu em Porto Calvo, já deixei vários objetos no Museu de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte (CE). Estão todos lá catalogados", contou Silva, lembrando do anel que fez de uma moeda que encontrou no rio e que deu de presente à namorada.

Edmilson da Silva: 'Quando a maré baixa, encontramos muitas coisas no leito do rio'

Um anel de bronze de cerca de 350 anos foi achado no mar de Maragogi, mas seu dono, por motivos óbvios, não quis se indentificar. "Eu e mais dois amigos temos vários objetos, coisas de navios antigos que achamos em nossos mergulhos, mas, por enquanto, está tudo guardado”, afirmou.

O comerciante Adelmo Monteiro é um aficcionado por todas essas quinquilharias e relíquias encontradas no leito do rio e em escavações por toda Porto Calvo. "Eu tinha um restaurante e, vez por outra, um turista me perguntava sobre lugares históricos da cidade. Como não havia e nem há nada em Porto Calvo que registre o apogeu da Colônia, a não ser a igreja de 1610, comecei a correr atrás dessas coisas", contou o dono da lotérica não casualmente chamada Domingos Fernandes Calabar – referência ao “herói” portocalvense, fazendeiro e militar que se enfileirou às tropas invasoras holandesas, tendo sido morto e esquartejado pelos portugueses em 1637.

Monteiro, conhecido na velha província como “Calabar”, tem uma coleção de 23 balas de canhão e mais uma porção de garrafas Ironstone China. Além de pequenos tijolos encontrados em escavações feitas para a construção do anexo do Hospital Municipal, localizado no Alto da Força, onde, segundo pinturas e mapas do período colonial, havia um forte português e onde o anti-herói Calabar foi enforcado. "Infelizmente, não há recursos para a criação de um museu", lamentou o caçador de tesouros. 

Adelmo Monteiro tem uma coleção de 23 balas de canhão e outros artefatos de guerra

Ossadas e artefato indígena são achados em igreja

O arquiteto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Sandro Gama, é o responsável pela última recuperação e restauração da Igreja Matriz de Porto Calvo, realizada em 2009. A conclusão da edificação do templo data de 1610 (o ano que aparece inscrito no frontispício da igreja). Para esse trabalho, Gama diz que de imediato pensou na contratação de arqueólogos.

"O projeto da igreja precisava resolver problemas do edifício e isso implicava em mexer nas suas fundações. A igreja corria o risco de desabamento. Sabíamos que pessoas eram enterradas ali. Nos anos 1980, já havia sido feito um trabalho de recuperação e muitos ossos foram encontrados e colocados em uma única sala. Então, previ a presença do arqueólogo nesse trabalho, acompanhando todo o processo de recuperação do edifício", explicou o arquiteto.

O Iphan contratou os serviços de Scott Allen, que realmente encontrou várias ossadas e uma série de material lítico (feito de pedra antiga). A arqueóloga Karina Miranda, da equipe de Allen, explica que cada camada do solo tem uma cor específica, identificando períodos diferentes da História. "Quando o solo é muito remexido, isso se perde. Mas encontramos ossadas primárias, que não foram mexidas. O cadáver estava ali do jeito que foi enterrado."

Uma dessas ossadas primárias foi encontrada em frente à torre sineira da igreja. De acordo com Karina, a análise não foi confirmada, mas uma identificação prévia remete à ossada ao século 19. "Ela foi encontrada da forma como foi sepultada, sem desarticulação dos ossos." Parte do material lítico tem origem provável entre os indígenas que habitaram Porto Calvo, antes mesmo da Colônia. "É um material muito antigo, o que nos leva a crer que a igreja foi construída sobre um local onde houvera uma tribo indígena", afirma a arqueóloga. Segundo ela, como não havia ferro nessa época, os índios construíam artefatos cortantes com a pedra.