Cultura

O universo do Sertão e a busca do homem humilde por amor e felicidade é tema da nova obra de Maria Emília Clark

A companhia da bailarina e coreógrafa alagoana se inspirou na obra de Graciliano Ramos

27 de Julho de 2018, 13:36

 
A resistência, a fé, a dor e a angústia do homem sertanejo… Bem, poderíamos estar falando de romances, e na verdade estamos. Graciliano Ramos, o escritor atemporal das Alagoas, sabia a fundo da peleja que é coexistir num ambiente tão hostil como o das caatingas no Nordeste do Brasil. Mas trazer e sintetizar todo esse complexo espectro dramático para o palco, fazendo-o reluzir com graça e leveza, é outra história completamente diferente. É o que faz a Companhia de Dança Maria Emília Clark, com o espetáculo “Caatinga”, inspirado na obra de Graciliano (1892-1953), que comemora os 60 anos da morte do grande escritor e intelectual alagoano e que será apresentado nesta quarta-feira (19), às 19h, no Teatro Deodoro (centro de Maceió), a preços populares (R$ 10 e R$ 5).
 
Na estreia do balé, na última sexta-feira (14), no Centro de Convenções, o público só precisava desse oportuno momento de assistir à peça e então deleitar-se e quedar-se envolvido e imerso até o pescoço nos românticos e dramáticos elementos da obra do Mestre Graça, o que por certo tornou a empatia pela narrativa inevitável. O público aplaudiu de pé – e várias vezes aplaudiu em cena aberta.
 
Colocar-se na pele ressequida desses nossos destemidos e tão sofridos conterrâneos sertanejos, mesmo que através da sensualidade esguia de atores e bailarinos que abraçam apaixonadamente os papéis que representaram, em saltos e giros precisos e delicados, resultou em perfeito equilíbrio com os cenários – de uma rusticidade primitiva e eficaz – e com uma iluminação trêmula e por vezes total, como um sol causticante. 
 
A música e a sonoplastia, em operísticas manobras – como as de um maestro astuto e controlador –, integram-se ao contexto de isolamento das almas ambulantes e da desertificação dos diversos personagens sem rumo ou esperança, tão gritantemente humanos. A moderna música erudita de Philip Glass, flertando dentro de insólito e fragmentado universo, reedita a atmosfera do filme “Koyaanisqatsi” (EUA, 1982). Vida fora de balanço: a relação opressora e caótica homem x natureza interliga-se agora a Johann Sebastian Bach (Alemanha, 1685-1750) em magnífica exaltação à fé que espelha os ritos, as crenças e a inabalável devoção do sertanejo mesmo diante da tragédia de um insalubre cotidiano. A eletroacústica contemporânea do nova-iorquino John Cage (1912-1992) alinhava-se ao clamor dos contratempos tribais de percussão na busca de redenção do outro, dando o ritmo, a cadência e o ar de fatalidade que este balé da seca reclama. A cuidadosa seleção musical e a sonoplastia se fazem, portanto, como um espetáculo dentro do espetáculo. Mas construindo sim, ainda, uma unidade irretocável de narrativa.
 
O gestual e a graça dos bailarinos comovem. É notável a desenvoltura e a confiança em como os atos vão sendo finalizados. Certamente, a contextualização da resistência do homem nordestino, da luta e da persistência permanente dele, para driblar o fantasma da fome e a sombra da morte, e ainda encontrar tempo para amar, rir e ser feliz dentro das parcas possibilidades que os deuses lhes reservaram, isto tudo é uma bênção. Evoé.
 
Definitivamente um espetáculo para se apreciar de pé, segurando o fôlego a cada passagem, aguardando a explosão final: ovações sincopadas de longos minutos mais do que justas e merecidas.
 
Acompanhe a entrevista com a bailarina e coreógrafa Maria Emília Clark.
 
Como foi o processo de concepção e criação do espetáculo?
 
Maria Emília Clark – Passamos por um processo de pesquisa em parceria com o meu companheiro Fernando Gomes, cirurgião plástico, professor da Ufal, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Iniciamos há três anos uma descoberta intensa do bioma exclusivamente brasileiro; a caatinga, e entramos claro que diretamente na vida e obra do nosso grande Graciliano Ramos. Passamos por tudo relacionado às artes de uma forma geral, conceitos, abstrações. Temos uma forte tendência à visualidade, além de uma pesquisa de movimento vasta. Resultado de uma vida profissional com diversos profissionais de âmbito nacional e internacional, a exemplo do Ballet Stagium, companhia de dança de São Paulo da qual participei por uma década. Pesquisa que passa por livros, cinema, pintura e diversas formas de entendimento desta realidade. Temos uma forte desenvoltura na questão coreográfica, uma certa facilidade de compor após muitas informações colhidas e selecionadas. A trilha sonora foi construida a partir de músicas específicas, que são selecionadas há muito tempo. Temos uma capacidade de selecionar detalhes e trechos musicais que, no momento exato, são encaixados, algo que tenho o maior prazer de construir,  junto com o nosso grande amigo [sonoplasta] Dinho Oliveira. Tivemos como um referencial a grande obra: "Vidas Secas". E após tantos achados, passamos a ver coreografia em tudo que nos rodeia e que possua identificação.
 
Por que Graciliano Ramos continua sendo relevante 60 anos depois?
 
Maria Emília – Temos um foco memorialista, que foi iniciado em 2000 e permanece até os dias atuais. Não fazemos uma homenagem, fazemos uma contextualização do homem, da história dele, da obra de Graciliano. Fazemos essa homenagem através do tema, que é uma composição da essência da obra e da vida do autor, para falarmos do ontem, do hoje, do agora... Graciliano Ramos por ser contemporâneo, pelo fato de os problemas sociais e políticos continuarem, pois continuamos a possuir vários Fabianos, Sinhás Vitórias, Baleias. Os mesmos problemas continuam: a violência, a questão da educação – podemos ver uma grande massa reivindicando o poder sobre todas as coisas.
 
Fale-nos um pouco sobre os estilos que a sua companhia adotou ao longo desses quase 15 anos de existência?
 
Maria Emília – A companhia possui a base acadêmica do balé clássico, base das grandes companhias brasileiras. É um instrumento para trabalharmos o corpo, prepará-lo, posicioná-lo bem, construir eixo para giros, adágios, pas de deux – é o nosso caminho, aliado a um trabalho de pesquisa de movimento, que envolve a minha vivência e formação de bailarina aliada por sua vez a este caminho coreográfico e teatral, que é base da dramaticidade do trabalho que fazemos no palco. Um estilo particular de pensar o movimento, ter uma atitude realista para o movimento, naturalista como Graciliano Ramos, desenhado na própria obra dele. A nossa contemporaneidade vem de um estilo particular de pesquisa e ação dentro e fora da obra.
 
Como descrever o momento pelo qual sua companhia atravessa hoje?
 
Maria Emília – A companhia é mantida por nossa escola, que em todos os anos tem como formação a construção da questão técnica e acadêmica, apresentando sempre um repertório clássico, como no ano passado, o grand pas de deux do terceiro ato de “O Lago dos Cisnes”, (“Cisne Negro”), que pressupõe alto nível e qualidade de movimento, é um evento que acontece sempre no final do ano. É este mesmo bailarino que se envolve para mostrar, a partir da formação dele, uma atitude contemporânea – momento que coloca a companhia com uma história bem definida no nosso Estado, com repertórios próprios, na ótica memorialista, e com atitude de cidadania. Esses bailarinos são resultados de um superprojeto voluntário, que absorve bailarinos da escola privada entre os bailarinos abraçados pela nossa escola, e que evoluem em igualdade de direitos e deveres para um status profissional – no sentido da formação técnica e artística.  Somos amadores, por amarmos o que fazemos. A companhia hoje possui como característica, uma continuidade de 13 anos sem interrupção, com reconhecimento na sociedade e uma atitude justa diante das mazelas do nosso povo.
 
Que conselhos você daria a jovens bailarinos e dançarinos que buscam se profissionalizar?
 
Maria Emília – Que todos os bailarinos que iniciam, com tanta humildade, possam carregar ao longo da carreira deles esta grandeza: primeiro trabalhar, trabalhar mais um pouco, continuar trabalhando e mais um pouco. Para mim só existe um caminho, o da continuidade – mesmo que todos digam não, você terá de dizer sim. Procurar as escolas que possibilitam a formação técnica necessária para evolução, mas que todos tragam dentro de si a força de vontade capaz de superar os inúmeros problemas da nossa arte. Como em tudo na vida, nós mesmos somos ou seremos o próprio diferencial. Acho muito importante que todos acompanhem o que está sendo feito no momento, em todas as artes e, principalmente, buscar o conhecimento de tudo que já foi feito, para ampliarmos qualquer atitude inovadora e atualizada.
 
Planos para levar 'Caatinga' a outras plateias do Brasil?
 
Maria Emília – A nossa companhia está pronta já há bastante tempo. Recebemos vários convites, porém, sempre há dificuldades financeiras, pois o que fazemos, fazemos com qualidade para todo o Brasil e para o exterior, com tudo bem elaborado, com o status profissional necessário. Mas eu e Fernando Gomes, que concebeu e escreveu o roteiro junto comigo, só fazemos o que podemos. Para levar para todos os cantos precisaríamos de um suporte financeiro justo, e isso ainda não aconteceu. Mas nós fizemos acontecer trabalhos valiosos no decorrer desses anos: “Pierre Chalita”, “Ledo Ivo: Confissões de um Poeta”, "Tanzs“, para Delson Uchôa, "Opará”, sobre uma lenda do rio São Francisco, “Mãos”, sobre o nosso artesanato, “Djavan-Místico”, “Evergreen – Sempre Vivos”, sobre os nossos mangues, e tantos outros espetáculos por aí afora.