Especial

A arte do diálogo

A artista visual mantém projetos culturais às margens do rio São Francisco enquanto cria obras para uma nova exposição

27 de Julho de 2018, 13:36

 
Possuidora de uma bagagem cultural invejável, a artista visual Maria Amélia Vieira, 58 anos, está atenta à diversidade das expressões culturais populares e permanentemente em busca do algo mais que as múltiplas vertentes da arte contemporânea nos brinda pelos recônditos dos interiores das Alagoas. 
 
Numa troca genuína de experiências e prosas, a artista – que é proprietária em Maceió, junto com o marido, o também artista visual Dalton Costa, da galeria de arte Karandash – promove intercâmbio e fomento cultural, através de diversos projetos de arte e educação.
 
Atualmente, desenvolve dois desses projetos, o “Tecendo a Manhã”, com bordadeiras, patrocinado pela Caixa Econômica Federal e Sebrae-AL, e “O Museu no Balanço das Águas 2013”, que será realizado em setembro no município Belo Monte e nos povoados Ilha do Ferro (Pão de Açúcar) e Entremontes (Piranhas). Com esse trabalho quase franciscano, ela encoraja o diálogo e o desenvolvimento sustentável de comunidades sertanejas, às margens do rio São Francisco, com ações que buscam a inserção social de crianças e jovens, assim como de artistas escultores e artesãs bordadeiras que são pródigos em toda essa região.
 
Maria Amélia redescobre a dinâmica criativa de artistas locais, recuperando nesse processo um passado histórico e etnográfico que julgávamos abandonado. É um estilo de vida, um modo de encarar o mundo, o Brasil e Alagoas, proposto por uma artista de formação erudita, mas absolutamente identificada com as coisas populares.
 
A realização desse trabalho, muitas vezes exige que se abra mão de conceitos e padrões artísticos estabelecidos e até do conforto e acessibilidade dos centros urbanos. Mas é assim, navegando pelas águas do Velho Chico, que ela, como diz, “simplesmente” vive e compartilha. Ensinando e vivenciando arte e criatividade pelo sertão alagoano – e, naturalmente, por tabela, no outro lado do rio, pelo sertão sergipano.
 
Nesta entrevista, concedida na galeria/museu Karandash, na região central de Maceió (av. Moreira e Silva, no 89), capturamos insights, reflexões e opiniões pessoais da artista.  
 
O que levou você a sair de sua zona de conforto como artista e se tornar colecionadora de artefatos da cultura popular? Algo lhe comoveu, desde suas primeiras aquisições e exposições na galeria até criar o museu Coleção Karandash de Arte Popular e Contemporânea?
 
Maria Amélia Vieira – Percebo que como artista sempre saí de minha zona de conforto porque nunca me acomodei. Estou sempre pesquisando, experimentando coisas, associando técnicas, buscando o que ainda não vivi. A coleção surgiu na minha juventude. Descobria “coisas” interessantes e guardava e aquilo foi tomando conta de todos os meus espaços físicos, e daí, junto com o meu companheiro de vida Dalton Costa, também colecionador, fomos entrando cada vez mais nas pesquisas, e 
como verdadeiros caçadores de relíquias, acumulamos objetos artísticos valiosos, vindos da cultura popular. 
Um verdadeiro alimento para os nossos olhos e referências importantes para o nosso trabalho autoral, como artistas. 
A ideia de criar um museu surgiu com a necessidade como seres humanos de construir algo maior do que a nossa própria história. Sair do nosso casulo razoavelmente confortável e experimentar outras moradas. Moradas que falam de encantos adormecidos.
 
Qual o número aproximado de objetos catalogados hoje na Coleção Karandash? 
 
Amélia – Mais de cinco mil obras.
 
Quais os principais artistas expostos? As peças mais antigas datam de que período? São criações anteriores à aquisição e/ou doação?
 
Amélia – Nunca recebemos doação. As peças foram adquiridas apaixonadamente, uma a uma. Algumas vezes trocando por obras de nossa autoria e outras vezes aplicando as nossas economias. O que temos hoje é uma poupança transformada em obras de arte. Nino, Zé do Chalé, Antônio Poteiro, Fernando Rodrigues, G.T.O, Artur Pereira, Manoel Graciano, Rinéia, Resêndio, Vicente Ferreira e muitos outros.
 
De que modo esses mesmos artistas populares se interrelacionam com sua vivência erudita e conceitual de ver e fazer arte?
 
Amélia – Somos companheiros. Discutimos assuntos relacionados com a arte e a vida.
 
Como você vê o dialogo entre a arte erudita e a arte popular no nosso Estado?
 
Amélia – Existe um diálogo permanente entre esses “dois mundos” que para mim é apenas um. Sentir a necessidade da arte. Fazer o que ainda não foi visto. Viver. Simplesmente viver e compartilhar. Esse mundo popular me ensina sempre algo singular, um novo frescor.
 
Como arte passada de pai para filho, o que distingue a arte popular?
 
Amélia – A arte popular surge sempre de saberes adquiridos através das gerações. Práticas de uma cultura de raiz. Até mesmo os artistas, aqueles que criam isoladamente como o escultor e o pintor, têm em sua história de vida o testemunho de aptidões adquiridas com o pai ou o avô. Veja um exemplo: um escultor teve um pai construtor de embarcações ou mestre de carpintaria, coisa desse gênero.
 
Mas o que leva o público a se distanciar de museus e galerias de arte em Maceió? Como atrair as pessoas?
 
Amélia – Arte nas escolas é primordial. Visitar galerias de arte e museus é um caminho que se faz desde a tênue infância. Só gostamos daquilo que experimentamos. Precisamos formar um público fiel e apaixonado. Escolas públicas, escolas particulares, universidades, professores, produtores culturais, secretarias de educação, cultura e turismo, deixo aqui o meu recado: a arte é o alimento da alma, é o elemento básico da construção do ser humano.
 
Como aconteceu sua transição para a argila? Qual o seu maior desafio e satisfação de composições com o uso dessa técnica?
 
Amélia – Não houve uma transição. A argila é outro segmento que abracei. Trabalho com pintura, desenho, escultura, fotografia, e estou desenvolvendo utilitários assinados em cerâmica.
 
O que você procura provocar nas pessoas que apreciam e examinam pelo tato seus trabalhos mais recentes? 
 
Amélia – A arte pode ser tocada. E quando tocada guarda a memória afetiva do outro.
 
Considerando os projetos de arte educativa que você coordena, a gestão e viabilização da galeria e do museu, em que pé fica o ritmo de suas produções artísticas?
 
Amélia – Trabalho quatro horas por dia no meu atelier. Estou finalizando a próxima exposição para 2014.
 
Com a experiência adquirida, seja como artista plástica, curadora, produtora ou agitadora cultural, o que você diria aos artistas que se iniciam nesta era de transformações e revoluções digitais? O que eles podem esperar desse meio revitalizado?
 
Amélia – Mergulhem de cabeça neste mundo contemporâneo. Usem e abusem de todas as mídias. Acredito que a arte é a necessidade de criar aquilo que não existe. Cabe aqui uma pequena reflexão sobre a obra de um artista brasileiro chamado Bispo do Rosário. Bispo criou a sua poética com os resíduos de seu dia a dia em um manicômio do Rio de Janeiro. Aplausos para o gênio Bispo do Rosário.