Especial

A juventude quer acabar com a corrupção no país, mas os aposentados também querem

A manifestação começou às 16h, na Praça do Centenário, reunindo jovens e trabalhadores numa grande festa democrática

27 de Julho de 2018, 13:36

 
Protesto histórico, de milhares, ocorreu nesta quinta-feira (20), em Maceió. Pouco antes das 18h, a manifestação já reunia “mais de 12 mil pessoas”, de acordo com a estimativa da Polícia Militar naquele momento, quando a multidão chegava à Praça dos Martírios (Centro), sendo recebida por um trio elétrico e uma inesperada chuvinha. Às 16h, quando o movimento começou a empunhar as bandeiras e cartazes, na Praça do Centenário (Farol), era tarde de sol aberto. As pessoas chegavam à praça, convocadas por outro trio elétrico, que, em certo momento, tocou furtivamente a música de Geraldo Vandré, “Para não Dizer que não Falei de Flores” (1968). Que logo deu lugar aos muitos discursos que ocorreram durante essa concentração na praça de menos de uma hora. Depois disso, as pessoas seguiram em passeata em direção ao Centro. Muitos protestos foram feitos diretamente contra a presidente Dilma Rousseff, contra o governador do Estado Teotônio Vilela Filho e contra o deputado federal, presidente da Comissão de Direitos Humanos, Marcos Feliciano, com palavras de ordem, refrãos e inúmeros cartazes.
 
A adesão de manifestantes mais velhos é um dado evidente do protesto desta quinta-feira, que novamente se posicionou contra o aumento das tarifas de ônibus, mas, sempre, como estamos vendo em todo o país, manifestando-se contra a corrupção e por mais saúde e educação para os brasileiros.
 
O funcionário aposentado do Banco do Brasil, Niceas Gusmão, 64 anos, participando da manifestação pela primeira vez, revelou o motivo de estar ali: “A corrupção é tão grande que já subverteu todos os valores. Um homem condenado pela Justiça é presidente do Senado em Brasília, o povo é abandonado pelo governo, a população não é ouvida, o povo brasileiro é assediado por vereadores e deputados”. A filha de Gusmão, Andréa, 40, médica, contou que a filha dela também estava no protesto. “São três gerações que vieram lutar contra a corrupção, a falta de saúde pública... Faltam medicamentos nos hospitais enquanto são construídos ginásios milionários. Eu tenho condições de pagar o transporte público. Estou lutando pela maioria, o meu partido é o povo. Estamos brigando por melhores salários, pela saúde, por tudo.”
 
“Somos a favor das 30 horas e contra o Ato Médico, que torna o médico o único profissional da saúde que prescreve receitas. Somos enfermeiros, fisioterapeutas”, explicou a enfermeira Alessandra Buarque, de 28 anos.
 
Eram várias causas. A praça, durante essa hora de concentração, era só alegria. E entusiasmo. A proposta que vem da Câmara dos Deputados – apelidada “Cura Gay” – é rechaçada continuamente nos discursos e cartazes. Muitos cartazes (veja a Galeria de Foto). Promoveram o enterro do governador Teotonio Vilela Filho, num caixão que foi sendo carregado por toda a passeata. Soltaram fogos de artifício de fumaça azul, depois verde... As meninas subiam nos ombros dos meninos, levantavam os cartazes. 
 
Homero Cavalcante, diretor de teatro, 64, comentou no Facebook deste repórter que a concentração e a descida da Ladeira dos Martírios foram “gloriosos”. “Devia ter um gran finale na Praça dos Martírios e todos a cantar o Hino Nacional”, escreveu, à portuguesa. Reclamou das vozes “roucas e desesperadas” propagadas pelos alto-falantes. “Faltam umas vozes fortes e inteligentes para comandar daquele carro de som!”
 
Eis a questão. Precisam-se de lideranças? Bem, os jovens que organizam este movimento, neste momento histórico, não quer saber de política. Ao menos por enquanto. “A PEC é um absurdo. Quem votar nisso é um sem juízo, um sem noção. Ninguém pode determinar sobre a opção sexual de outra pessoa. Criaram essa PEC para desviar nossa atenção, nos Estados, nossa luta por um país melhor”, disse a estudante Juliana Santos, 20.
 
“É sintomático, o jovem não confia na política. Eles estão querendo criar outra forma política. A vez é deles, eles estão no comando”, avisava a psicóloga Sissi Lessa, 55, que foi ao protesto acompanhada do colega Edilson Souza, 53. “Achei linda a manifestação. Estou encantado com o que estou vendo, na mídia, na rede social. Está lindo, está perfeito”, empolgou-se Souza.
 
Educação e saúde padrão Fifa
O cantor Igbonan Rocha, 53, também curtia a aglomeração democrática de jovens, trabalhadores, profissionais liberais, aposentados. Disse que, na segunda-feira (17), quando a segunda manifestação havia reunido mais de cinco mil jovens, ele não compareceu porque estava ocupado com a música. “Mas fui impelido a essa onda que tomou o Brasil inteiro. Ficou difícil ficar em casa. Quero um país igual para todos. A frase ‘educação e saúde padrão Fifa’ é muito boa. Não que eu seja contra futebol, mas quero uma sociedade padrão Fifa.”
 
"Esta passeata me trouxe muitas lembranças de movimentos de que participei”, contou a jornalista e corista Gal Monteiro, 53. “Espero que toda esta energia seja canalizada por toda a Nação – e que não seja cooptada pela direita.”
 
Protesto, festa, como disse Homero Cavalcante, concentração gloriosa, descida aos Martírios gloriosa. O advogado Thiago Bomfim, presidente da OAB-AL, 35 anos, refletiu sobre o papel da Ordem dos Advogados do Brasil. “Nosso objetivo é garantir a liberdade de expressão e a livre manifestação do pensamento.” Para Bomfim, a manifestação dos jovens e da população “é o despertar do brasileiro de uma letargia histórica”.
 
“O povo despertou para cobrar seus direitos e melhorias no serviço público”, concluiu o presidente da OAB-AL.