Cultura

Cris Braun e Dinho Zampier deixam a criação e a sinceridade correrem soltas em 'Filme'

Baseado no repertório do álbum lançado em 2017, show que estreia na quinta-feira (13) em Maceió traz, ainda, canções de Ângela Rô Rô e Tom Waits

11 de Dezembro de 2018, 16:41

Jorge Barboza/ Editor

O CD “Filme” (Tratore, 2017), assinado pela cantora e compositora Cris Braun e pelo tecladista e compositor Dinho Zampier, parece realmente buscar a linguagem do cinema envolvendo o ouvinte em texturas distintas e surpresas que o levem a ambientações e climas (e clímax!) ora alegres e solares ora soturnos e contemplativos... Entre o jazz, o pop, o clássico e o regional, o quarto álbum solo dessa artista singular, nascida no Rio Grande do Sul, com os seus 56 anos vividos, também, entre Alagoas e Rio de Janeiro, é – para chegarmos a uma imagem aproximada do objeto –, uma joia esculpida em água, terra, fogo e ar (dessa forma mesmo um tanto simples e direta e um bocado hermética ou metafísica). Um trunfo na carreira da irrequieta, resistente e sensível Cris Braun, que inclusive liderou uma banda de rock, no Rio nos anos 1990, a adorável Sex Beatles.

Depois de estrear o show "Filme" no Rio de Janeiro, mês passado, com direção conjunta dela e do baterista Fernando Coelho, Cris traz para Maceió esses novos agitos musicais que, diga-se, a julgar pelo disco, são imperdíveis. Quinta-feira (13), às 21h, no Centro Cultural Arte Pajuçara à avenida Doutor Gomes de Barros, 1.113, orla da Pajuçara. No repertório, as canções (e experimentações) do álbum e – informa a produção – pérolas de artistas como João Donato, Nick Drake e Ângela Rô Rô. 

Ouça aqui o álbum completo

O teclado solto e imaginativo de Zampier compondo uma moldura confortável à voz doce (suave) e cristalina da intérprete, em canções originais evocando emoções barrocas como na narrativa "Doña Rita de Quevedo" (dela e de Dinho Zampier em parceria com o poeta Fernando Fiúza) e estalos futuristas como na cerebral (concretista) “Cheio”, de Marcos Saboya e Billy Brandão, uma das raras composições do álbum não assinada por Cris solo ou em parceria com Zampier ou Fiúza. "Cheio", a despeito da pegada acústica, lembra as aventuras eletrônicas da dupla mineiro-paulista, hoje sediada em Londres, Tetine. Mais do que uma joia, apresentando-se como pedra lapidada no brilho e nos reflexos da beleza escaldante (e esvoaçante) do Sertão, "Filme" é um manifesto de pura criatividade. O que importa é a arte. A arte nos salva do capitalismo selvagem e da truculência dos dias brasileiros atuais. Quem sabe nos redime até de nós mesmos.

“Em sua versão show, ‘Filme’ tem dois momentos”, destaca o informativo enviado à Redação. “Na primeira parte, há a exibição de clipes e peças audiovisuais que enredam um filme imaginário. Poemas visuais delicados e delirantes assinados por Henrique Oliveira. O jovem diretor capturou movimentos e paisagens inspirado pela trilha sonora de essência contemplativa e contornos reluzentes. Sutilmente minimalista. Certamente sofisticada.”

Em entrevista ao Alagoas Boreal, Cris Braun conta que a parceria com Dinho Zampier começou ainda em 2016 no disco “Fábula”. “Ele compôs a banda Os Fabulosos e o chamei para produzir comigo e compor e fazer os arranjos [deste novo trabalho]. Para ser um projeto nosso mesmo”, explica. “A ideia de seguir a narrativa de trilhas sonoras veio por dois motivos: um é porque eu adoro trilhas e queria fazer uma, mas nunca ninguém me chamou para fazer uma.”

Com Dinho Zampier: novos projetos para 2019

A segunda razão, de acordo com a artista, tem a ver com essa multiplicidade de gêneros encontrada no álbum. “Era de fato um repertório tão variado em estilos que parecia mesmo uma trilha. Assim, criamos a narrativa que conta uma historinha musical, muito mais do que textual. Você pode imaginar a história que quiser.”

Os videoclipes dirigidos, filmados e editados por Henrique Oliveira ela diz que são “diferenciados e belíssimos”. “Insólitos, feitos no Sertão, lugar mágico.” O show "segue com a mesma intenção”. Entre as canções de Rô Rô e Tom Waits que complementam o repertório do espetáculo, duas inéditas, uma de Cris Braun novamente com Fiúza, parceiro em três das 11 faixas de “Filme”, e a segunda composta a quatro mãos com o compositor e intérprete Junior Almeida.

“Eu e Dinho temos outros projetos e tenho também a banda Cris Braun e os Fabulosos. 2019 voltamos”, anuncia intrépida, ela cujo “Filme” constou numa primeira seleção do prestigiado prêmio americano de música, o Grammy. “Entrou para a primeira seleção. Os indicados são na etapa seguinte. Entramos no primeiro crivo – o que já é um feito.”

No Rio em novembro, casa lotada para ver o show. “Foi amoroso, cheio de amigos e parceiros, outros artistas, um monte de gente lindona. Como espero que seja aqui.” Para 2019, apresentação confirmada em São Paulo.

Em Maceió, anuncia um espetáculo “diferente” daquele que vimos em “Ensaio aberto”, realizado no final de 2017, no Teatro de Arena, "com a banda reproduzindo os arranjos”. “Agora seremos eu, o Dinho e o guitarrista e produtor Billy Brandão. Billy é meu parceiro em músicas e produção desde o álbum ‘Cuidado com Pessoas como Eu’. É um mestre nos efeitos. Como sempre, eu inquieta inovando em mim mesma (risos).”