Cultura

HeroCoice continua firme no hard rock, batendo forte na política e na 'fragilidade' das instituições

Guitarrista John Mendonça diz que 'como a sociedade brasileira ficou mais dividida', no segundo álbum da banda, 'Trabalho novo', buscou 'um pensamento mais harmônico'; músicos gravam o terceiro disco este ano

31 de Janeiro de 2019, 18:12

Jorge Barboza/ Editor

Formada há sete anos, com dois álbuns na bagagem, a banda HeroCoice começou a produção do novo disco para ser lançado ainda este ano. No primeiro trabalho do grupo, intitulado “Utilidade pública”, o som pesado idealizado pelo líder da trupe, o guitarrista John Mendonça, desbancava a política nacional em faixas com recorte humorístico e certa contestação punk. No final de 2017, com nova formação, lançaram o segundo álbum, “Trabalho novo”, apresentando um som, digamos, redondo, incursionando por gêneros distintos como o folk e até, para surpresa dos fãs da banda, um forró auto irônico.

A política continua sendo o foco da HeroCoice, porém, a galera está mais hard do que punk – trabalhando melhor os arranjos alinhavados por duas poderosas guitarras (Mendonça e Tiago Godoi) e pelo vocal não menos poderoso de Deraldo Veloso. O time se completa com a bateria de Marcelo Feth e o baixo de Júnior Beatle, o único que sobrou da antiga formação, além de John Mendonça, é claro.

Marcelo Feth, John Mendonça, Deraldo Veloso, Tiago Godoi e Júnior Beatle

Para saber como estão os planos da banda para 2019, o Alagoas Boreal conversou com o guitarrista pelo Whats’app, que, aliás, foi o canal que ele usou para fazer o lançamento de “Trabalho novo”, faixa por faixa, em 2017.

Acompanhe a entrevista.

O segundo álbum da banda foi lançado ainda em 2017, não é? Com o título “Trabalho Novo”, deu continuidade ao álbum de estreia, “Utilidade pública”, mapeando os descalabros da política brasileira.

John Mendonça – A chegada dos novos membros foi sensacional. Todos eles eram muito fãs da banda e vibraram demais com o convite para compor a Herocoice.

“Trabalho novo” segue a mesma pegada hard rock do primeiro trampo, mas parece mais arranjado e mais inventivo, tem até forró encerrando o álbum. Seu trabalho de composição segue forte, com letras políticas e comportamentais... Às vezes, soam machistas...

Mendonça – O novo álbum deu continuidade ao primeiro, mas mudamos muito os alvos porque percebemos que a sociedade brasileira ficou muito dividida (do jeito que os “príncipes” gostam) e sensível a algumas críticas. Sendo assim, focamos mais em críticas em que os pensamentos são mais harmônicos, como, por exemplo, a fragilidade das nossas instituições – Ministério Público, Judiciário, polícia etc. É mais sofisticado em termos de arranjos. Usamos teclados em uma música. Fizemos duas composições em inglês. E fizemos também um folk e até um forró.

Explica melhor.

'Estamos em processo de gravação do nosso terceiro álbum', conta John Mendonça

Mendonça – “Trabalho novo”, música que dá título ao disco, parece ser uma música machista, mas, devido ao sarcasmo, percebe-se que é uma música bem feminista. A ideia foi justamente essa: provocar a discussão. A Playboy é uma revista machista. Ponto. Sendo assim, ao criticá-la com sarcasmo, abordando a frivolidade da exposição das mulheres, o efeito é o inverso. Poucos perceberam. Já “Silver and Soul” é uma música-protesto com influência dylaniana (já na era da guitarra), que aborda a exploração em grande escala pelos colonizadores europeus das minas de prata em Potosí, na Bolívia. Isso resultou no jugo de nativos em 400 anos de história de muito sofrimento para muitos e riqueza para poucos. “Anônimo” é música que trata da questão dos haters e valentões da internet, que se valem do isolamento, da distância e do pseudo anonimato para disseminar bullying, xingamentos, racismo, dentre outros discursos de ódio nas redes sociais. Já “Dear Sorrow” é a mais enigmática do álbum. Tem dois sentidos. Primeiro, trata-se de um rock’n’roll para homenagear o próprio rock’n’roll, com uma letra permeada de citações a grandes clássicos do gênero; segundo, é, também, uma resposta pessoal a uma tentativa fracassada de bullyng contra mim. Em “Balança desregulada” a banda volta seu alvo ao judiciário, retratando, numa história fictícia, a triste realidade das assimetrias do sistema jurídico-penal, cuja política de encarceramento apresenta um público-alvo bem definido. Reflexos da nossa desigualdade social. “She wont let you down” é uma homenagem ao doutor Hemerson Casado, médico alagoano portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA). Detalhe: é a voz do doutor Hemerson que encerra a música, captada em registro de época. “Território estrangeiro” trata do bilionário esquema de corrupção do qual se favoreceram políticos, empreiteiros e empresários, montado para a construção do grande circo das arenas da Copa e dos jogos olímpicos, relegando à população um legado maldito: elefantes brancos, em total abandono. Em “Quadrilha de Juju”, num autêntico forró pé-de-serra, a banda faz uma sátira mordaz às regalias e vantagens do judiciário.

'A sociedade brasileira ficou muito dividida'

Há novas composições no gatilho para o terceiro álbum? O que vai acontecer este ano?

Mendonça – Estamos em processo de gravação do nosso terceiro álbum. Este novo disco terá 14 músicas. Posso adiantar que estamos trabalhando bastante para que seja nosso melhor álbum.

E shows?

Mendonça – Por enquanto estamos mais focados na gravação das novas músicas, mas, assim que marcarmos algum show, a gente informa.

Como vê a cena roqueira de Maceió?

Mendonça – Como certa vez disse o João Gordo, “o rock no Brasil é underground”. Em Maceió, então, nem se fala. O público daqui é bem complexo. Paga R$ 100 para assistir ao show de uma banda paulista, mas reclama quando uma banda local cobra R$ 20 no ingresso.