Cultura

A poesia rapper e feminista de Arielly Oliveira, Jany Li, Nick Ellen e Mamiwata

No lançamento do single 'Dissparadas', artistas realizam slam e performances musicais a partir das 14h deste sábado (9)

09 de Março de 2019, 10:28

Jorge Barboza/ Editor

O evento “Dissparadas”, que acontece em Maceió neste sábado (9), a partir das 14h, é uma grata surpresa para a cultura e para a música contemporânea desta cidade, quiçá, do Brasil inteiro. Reunindo quatro garotas, ou melhor, quatro artistas poderosas do hip hop da capital, é uma iniciativa do coletivo criado por elas, Covil. Arielly Oliveira, Jany Li, Nick Ellen e Mamiwata são poetas, compositoras, cantoras, musicistas e guerreiras da cultura. Nesse pós-8 de Março Dia Internacional da Mulher, num país democrático ameaçado pela intolerância e pela violência cultuada e institucionalizada pelo governo federal, é uma lufada de ar quente e promissor essa tarde de arte e resistência. A festa musical e poética – que terá um “slam”, ou seja, uma competição de poemas – ocorrerá no espaço Quintal Cultural à rua Sol Nascente, 81-181, bairro central do Bom Parto. O ingresso custa R$ 5 mais um quilo de alimento não perecível.

'O evento fala de como os homens enxergam as mulheres', destaca o coletivo Covil

De acordo com a comunicação enviada à Redação, “a criação do som ‘Dissparadas’ foi pensada com o intuito de protesto sobre o espaço feminino dentro do movimento hip-hop alagoano”. Pelo visto, é mais do que política nacional. É preciso superar o machismo no dia a dia e na convivência com os nossos próprios parceiros.

“O evento", explica o informativo do Covil, "fala sobre o tratamento de alguns homens com o material feminino, da objetificação deles com os corpos femininos, como enxergam as mulheres diante do cenário e como o trampo feminino é descartado facilmente.”

"Dissparadas" na verdade é um single – cujo lançamento oficial será neste sábado. A produção é de Mamiwata, com a realização de videoclipe produzido pelo talentoso PH, do estúdio QG dos Manos.

A reportagem do Alagoas Boreal conversou, pelo whatsapp, com a incrível Arielly Oliveira, que lançou no final do ano passado o álbum imprescindível “Sem Papas na Língua”. Com vários clipes lançados na rede, "Ela", de novembro de 2017, é um marco na carreira da artista.

'A consciência do quanto o cenário é machista já era percebida pelo público', diz Arielly

O evento “Dissparadas” marca uma tomada de consciência de vozes femininas dentro do movimento hip hop alagoano, avaliado por vocês como… Machista – é isso mesmo?

Arielly Oliveira – A consciência do quanto o cenário é machista já era percebida pelo público feminino antes do coletivo. O que fizemos foi juntar algumas mulheres que veem isso, para que possamos não somente nos fortalecer, mas, também, apoiar outras mulheres que não são do coletivo e que estão igualmente no corre dentro do movimento.

Vocês falam de “não se sentirem” confortáveis em momentos coletivos junto com artistas do sexo masculino… Até que ponto isso inibia a poesia de vocês?

Arielly – Como o cenário é machista, geralmente a mulher é retratada como um pedaço de carne ou decoração. Então, quando vários grupos masculinos sobem no palco com letras que só exaltam a sexualidade e que tratam nós mulheres como produto, não nos sentimos representadas e confortáveis com isso. Acaba que as mulheres ficam em segundo plano, sem oportunidades e muitas vezes servindo apenas como backing vocal.

Com Joaquín: 'Muitos homens consideram nossa reivindicação legítima'

Como está reagindo o outro lado, diante dessa postura feminista de vocês – por exemplo, realizar um evento, o “Dissparadas”, exclusivamente de mulheres…?

Arielly – Muitos consideram legítima nossa reivindicação porque eles também enxergam o que acontece com as mulheres, não apenas dentro do movimento, mas, também, na sociedade. Nossa intenção é fortalecer as vozes para que consigam enxergar tanto machismo velado e que para que haja o entendimento de que não queremos dividir e sim unir. Dividido o movimento já é – muitos que não perceberam. Nossas vozes precisam ser ouvidas e entendidas para que de fato haja unidade.

Defina esse nome, Dissparadas.

Arielly – Disparada é algo rápido. Pensamos em gatilho, rajada de rima, algo que seja certeiro e veloz. Inserimos dissparada ao invés de disparadas, pois “diss”, além de atacar, também tem a intenção de resposta. E essa é a resposta do Covil ao que acontece conosco dentro da sociedade em geral.

Vocês são todas amigas de longa data? Quem começou a coisa toda? Quem chegou por último? Como aconteceu essa reunião de mulheres lindas musicistas, poetas e feministas?

Arielly – Algumas se conhecem há um tempo e outras não tinham tanta proximidade. A ideia do coletivo surgiu após uma conversa sobre a gravação da cypher [galera apresentando novas rimas, no caso, as da letra de “Dissparadas”], já que até então a ideia era apenas criar o som e lançar junto com o clipe. Depois de conversas, decidimos criar o coletivo para fortalecer a presença feminina nos espaços. Atualmente com sete integrantes diretas, que inclui poetisas, beatmaker, musicista, designer e várias outras parcerias femininas que somam junto da gente.