Cultura

Clube do Jazz toca o álbum de Miles Davis que inaugura o jazz modal

O contrabaixista Félix Baigon e o publicitário Leo Villanova, responsáveis pela produção do programa 'Jazz Panorama ao Vivo', falam de 'Kind of Blue', o disco de 1959 do músico americano, e do show que acontece nessa quinta-feira (11) no Teatro de Arena

10 de Abril de 2019, 17:44

Jorge Barboza/ Editor

O disco “Kind of Blue”, do saxofonista Miles Davis (EUA, 1926-1991), considerado pela crítica o mais bem sucedido álbum do músico que mudou a forma de tocar o jazz, e que vendeu somente nos Estados Unidos quatro milhões de cópias, será homenageado pelo nosso já consagrado Clube do Jazz, que realiza nessa quinta-feira (11), às 20h, no Teatro de Arena Sérgio Cardoso (anexo ao Teatro Deodoro), a oitava edição do programa “Jazz Panorama ao Vivo”. Os ingressos custam entre R$ 20 e R$ 40 e podem ser adquiridos antecipadamente no site da série musical ou no dia do evento a partir das 14h na bilheteria do Deodoro à rua Barão de Maceió, 375, centro da capital.

A Wikipédia destaca o álbum de Miles Davis, lançado nos EUA em 17 de agosto de 1959, pela Columbia Records, tanto em mono como em estéreo, como “a obra de jazz mais vendida da história”. “As sessões de gravação para o disco”, informa a enciclopédia livre da internet, “foram realizadas no 30th Street Studio, na cidade de Nova York, em 2 de março e 22 de abril daquele ano. Os encontros contaram com o conjunto sexteto de Davis, constituído pelo pianista Bill Evans, o baterista Jimmy Cobb, o baixista Paul Chambers e os saxofonistas John Coltrane e Julian ‘Cannonball’ Adderley. Após o ingresso de Bill Evans no grupo, Miles deu continuidade às experimentações modais de ‘Milestones’, baseando o LP inteiramente em modalidade e colocando-o em contraste com seus trabalhos anteriores, de estilo hard bop.”

Baigon, Everaldo Borges e Antônio do Carmo no começo do Clube do Jazz/ Foto/ J. Barboza

A reportagem do Alagoas Boreal conversou com duas peças-chave desse projeto de música instrumental, que vem formando uma plateia eclética e atenta, o contrabaixista Félix Baigon e o publicitário e artista visual Leo Villanova.

O Clube do Jazz, atualmente um quarteto liderado por Félix Baigon, começou a atuar na capital há três anos, inicialmente em restaurantes, bares e hotéis, com toda a dificuldade de um projeto independente e criativo numa capital resistente à cultura como a nossa. Em 2018, porém, fincando os pés no Teatro de Arena, numa oportuna parceria com a Diretoria de Teatros do Estado de Alagoas (a Diteal) e já contando com o apresentador e pesquisador de jazz Juan Maurer (que mantém na rádio Educativa FM, de segunda a sexta-feira, no horário das 12h às 13h, o programa “Jazz Panorama”), a empreitada de Baigon alçou voos mais altos, trazendo músicos de fora do Estado (Antônio Adolfo, Amaro Freitas, Derico Sciotti, o que já vinha acontecendo mesmo na via crucis de bares e restaurantes) e conquistando definitivamente o público.

O álbum de Miles Davis; ouça aqui

Leo Villanova, genro de Juan Maurer, apaixonado pelo jazz desde criança, entrou na dança fazendo o meio de campo do programa com a imprensa, além de realizar toda a parte de design das oito edições do “Jazz Panorama ao Vivo” no Arena.

Ouvindo “Kind of Blue” na internet, na plataforma Deezer, a reportagem se deparou com um álbum duplo (!). Questionando a dupla Baigon-Villanova sobre esse volume de gravações (excepcional para os dois dias no estúdio), Léo veio com a resposta. “Oficialmente o álbum era simples, mas depois saíram outras versões com takes que foram gravados e descartados. Os discos de jazz desse período eram gravados em sessões ao vivo, com a galera tocando junta. Por isso, as músicas tinham vários takes.”

Clube do Jazz com Carlos Bala, Borges e Ricardo Lopes/ Foto/ Jorge Barboza

Villanova explica que, “já na época dos CDs, que têm mais capacidade [de armazenamento] do que os LPs, as gravadoras colocaram vários takes de bônus nos relançamentos”.

Nesta quinta-feira, não há convidados de outros Estados, mas o núcleo do Clube do Jazz (Félix Baigon; Jiuliano Gomes, piano; Allysson Paz, bateria, e Jailson Britto, sax tenor) receberá outras estrelas da música instrumental local: o jovem trompetista Beto Ferreira e o veterano maestro Almir Medeiros assumindo o sax alto.

'Saelfie', de Leo Villanova

“Esse projeto ‘Kind of Blue’, o Baigon já vem acalentando há tempos”, diz Leo Villanova. “Nesse álbum”, intervém Baigon, “rolaram muitas edições. Na verdade, cortes da fita. Tem música que a forma da música foi pro cacete. Os caras se prenderam na beleza dos solos.”

O contrabaixista de 63 anos afirma ter pego, ainda, “um pouco dessa fase” das jazz bands gravando ao vivo em estúdio. “Sou véio, gravei dois álbuns com a [Orquestra] Tabajara assim.”

A Orquestra Tabajara, inicialmente chamada Jazz Tabajara, foi fundada em João Pessoa em 1934, mantendo-se até os dias de hoje na capital fluminense. Baigon atuou com esses formidáveis músicos cariocas e nordestinos, no Rio, entre os anos de 1986 e 1990.

No início do Clube do Jazz em Maceió (nossa reportagem acompanhou várias dessas apresentações lideradas por esse entusiasta do jazz, Félix Baigon), o músico afirma que “a ideia” era tocar ao vivo “todas a músicas de álbuns importantes” – o que aconteceu em algumas edições no Arena do “Jazz Panorama”, com Juan Maurer trazendo informações das faixas que estavam sendo executadas ao vivo.

Para esse especial “Kind of Blue”, Baigon explica que a trupe do Clube do Jazz realizou dois ensaios. “Está tudo escrito, até os solos originais. Os meninos vão tirar umas casquinhas e o público poderá se identificar com essa coisa da música modal que está muito presente no disco.”

Ana Galganni e Jailson Britto/ Foto/ Leo Villanova

Mais uma vez, recorrendo à Wikipédia: “‘Kind of Blue’ é baseado inteiramente em modalidade, em contraste aos trabalhos anteriores de Davis, caracterizados ao estilo hard bop de jazz e com complexa progressão harmônica e improvisação. Todo o álbum foi composto como uma série de esboços modais, a partir da qual cada integrante recebeu um conjunto de escalas que definiram os parâmetros de sua improvisação e estilo. Esse procedimento se opunha às medidas mais típicas de composição, como a provisão de partituras aos músicos ou, como era mais comum no jazz improvisado, o fornecimento de progressões harmônicas ou séries de harmonia”.

O público, pois, prepare-se para o deleite dessa que promete ser uma das noites mais quentes da, digamos, segunda temporada do “Jazz Panorama ao Vivo”. Leo Villanova pede “um parênteses”.

“Voltando no tempo”, rememora, “essa conversa de fazer o ‘Jazz Panorama’ ao vivo rola desde 2017, num papo de Twitter entre eu e o Baigon. Ele estava já com o projeto do Clube do Jazz fazendo várias apresentações. Daí ele me falou dessa intenção de fazer shows com os clássicos do jazz. Eu sugeri fazer isso no formato do programa de rádio com o Juan apresentando. Depois de armado o contato entre os dois, o negocio fluiu.”

Com Almir Medeiros/ Foto/ J. Barboza

E como. As dificuldades iniciais foram substituídas por outras, claro, pois quem trabalha com música – com arte de modo geral – sabe bem que elas são muitas e dificilmente superadas. Bem, no caso do Clube do Jazz, aquela primeira dificuldade que é a de trazer o público para si já não é uma dor de cabeça para esses belos artistas da música instrumental alagoana.

“O Clube do Jazz conta com mais de 30 membros”, contabiliza Félix Baigon. “Tem o pessoal que acompanha os ensaios abertos, alguns tocam, ensaiam com o grupo – até já se apresentaram na primeira e segunda edição do Dia internacional do Jazz no ano passado.”

Voltando ao modalismo de Miles Davis, o contrabaixista (geralmente trabalhando com um baixo acústico) dá mais uma explicação. “Enquanto a música tonal tem várias cadencias – tipo dois, cinco, um ou um seis, cinco –, no modalismo os caras ficam em ré menor uma eternidade e pintam e bordam nos solos.”

Para Villanova, de 53 anos, “Juan [Maurer] é tudo nesse projeto”. “Ele tem conhecimento à beça do tema, é viajado, viu quase todos os grandes do jazz tocando nos Estados Unidos quando morou por lá.”

Aliança perfeita. No ensaio de “Kind of Blue”, como aliás em todos os ensaios, Baigon fez a “minutagem”. “A parte do ‘Kind of Blue’”, diz ele, “somando as músicas e as falas do Juan, deu quase uma hora, algo em torno de 58 minutos. Daí vamos fazer quatro temas extras que ficaram conhecidos na interpretação do Miles Davis. Será um complemento de luxo.”

O contrabaixista conta que os colegas foram se aproximando do projeto do Clube do Jazz “aos poucos”. “O pessoal ainda tem certo medo de arriscar, de improvisar – acho que esse é o maior medo. O improviso afasta muitas pessoas. Ficam retraídas, com vergonha de errar. Besteira. Música é uma diversão estudada. Os americanos falam que improvisar é como aprender uma nova língua. Você tem de formar um bom vocabulário. Há bem pouco tempo eu era incapaz de improvisar qualquer trecho musical. Eu não tinha medo, mas nunca tinha me dedicado a isso. Passei minha vida inteira na cozinha da banda, acompanhando artistas. Hoje já consigo improvisar com certa eficiência. Não sou um Patitucci [o contrabaixista nova-iorquino John Patitucci, de 59 anos], mas chego lá.

Bem, para nós está perfeito. Falta apenas gravar o álbum do “Panorama Jazz”.

“Temos composições próprias”, afirma o lider da banda. “Tocamos músicas minhas e do saxofonista Jailson Britto em edições passadas. De composições minhas, já tocamos ‘Trilha do Mar’, ‘Trilha do Jazz’ e ‘Galope’. Essas composições estarão no meu primeiro disco a ser lançado em breve.”

Registraram isso? Pois então, aguardem. E enquanto não vem a gravação, aproveitem o jazz do clube do Baigon.