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Fortim em Porto Calvo é o mais 'íntegro e original' construído pelos holandeses no Brasil

Edificação do século 17 foi descoberta por arqueólogos contratados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 2013; nessa quarta-feira (15), instituição faz 'entrega oficial' da edificação ao município

14 de Maio de 2019, 17:00

Jorge Barboza/ Editor

Nessa quarta-feira (15), no município histórico de Porto Calvo, o Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (o Iphan) entrega oficialmente à prefeitura da cidade o chamado “Fortim Bass”, descoberto pela instituição em 2013 e recuperado a partir de 2017. Na ocasião do ato solene marcado para as 15h, o Iphan anunciará uma segunda intervenção na área onde se localiza o forte e onde será criada estrutura para visitação pública da edificação militar – como, por exemplo, a construção de uma ponte sobre o rio Manguaba para a passagem de pedestres.

A cerimônia na Ilha do Guedes, onde se encontra o Fortim Bass (na altura do Porto das Barcaças, na região do bairro ancestral do Varadouro), contará com a presença da presidente nacional do Iphan, a historiadora Kátia Bogéa, e do superintendente alagoano do instituto, o arquiteto Mário Aloísio Barreto, além do ministro da Cidadania, o médico e ex-deputado Osmar Terra, e do prefeito de Porto Calvo, David Pedrosa.

Escavações foram feitas para retirar areia e substrato que soterraram o fortim

De acordo com o diretor da divisão técnica do Iphan-AL, o arquiteto e urbanista Sandro Gama, o fortim foi descoberto no ano de 2013, quando o arqueólogo pernambucano Marcos Albuquerque foi contratado para atualizar referências geográficas e históricas, a partir de observações de mapas do período das Invasões Holandesas no século 17, realizando uma série de caminhadas na região.

“Entregaremos o forte restaurado, cuja gestão de conservação passará agora à prefeitura do município”, explica Sandro Gama. “A prefeitura já desapropriou o parque da ilha, possibilitando dessa forma a realização de uma segunda etapa de trabalho no entorno do forte, como a construção de uma ponte para pedestres e banheiros para os visitantes.”

Gama (à dir. do prefeito David Pedrosa): 'Patrimônio mundial'

Gama afirma que o Iphan não tinha conhecimento sobre qualquer ruína arqueológica na pequena ilha fluvial até Marcos Albuquerque e equipe iniciarem o mapeamento da bacia do rio Manguaba, que abrange o município de Porto Calvo, distante 96 km da capital, e a cidade vizinha Porto de Pedras. “Nossa pesquisa era exatamente sobre a questão do rio Manguaba como palco das batalhas de holandeses contra ibéricos no século 17.”

O arqueólogo Marcos Albuquerque, à frente do Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco e da empresa Arqueolog Pesquisas – responsáveis pela operação batizada de “Projeto Manguaba” –, em entrevista ao Alagoas Boreal em 2015 revelou que, embora tivesse trabalhado “com muita cartografia holandesa”, não tinha nenhum mapa que apontasse para o fortim na Ilha do Guedes. “Foi utilizada uma estratégia arqueológica de pesquisa que incluiu geoarqueologia, georeferenciamento e, sobretudo, muita caminhada”, explicou na ocasião.

Cobrindo uma área de 473 m2, o forte holandês encontrava-se completamente soterrado por areia e vegetação. “Quando da localização do fortim na Ilha do Guedes, não tínhamos nenhuma informação sobre a sua existência. Apenas houve muito caminhamento e intuição baseada na minha experiência de 50 anos como arqueólogo”, relatou Albuquerque. “Nós trabalhamos com a nossa equipe dividida em unidades operacionais.”

Marcos Albuquerque em Porto Calvo: 'Não tínhamos informação sobre a existência do forte'

Sandro Gama conta que foram feitas “diversas caminhadas” pela bacia do rio Manguaba até que os técnicos “perceberam um relevo”. “Quando eles foram no Google Maps confirmaram na iconografia holandesa uma imagem muito parecida. Daí fizemos licitação de R$ 500 mil, que foi ganha pela empresa de Marcos Albuquerque, que então iniciou o trabalho de escavação. Foi se retirando toda a terra e substrato até surgir a forma da construção. Parte da areia que cobria o fosso havia caído da mureta do forte – por isso não era possível determinar a altura exata dele. A restauração foi feita a partir da parte mais alta da mureta que havia sido conservada.”

É o único forte holandês 'íntegro e original', segundo Sandro Gama

O diretor do Iphan destaca o interesse da presidente internacional do comitê Icofort (International Scientific Committee on Fortifications and Military Heritage), Milagro Flores, pelo fortim portocalvense. “O Icofort é um órgão consultivo da Unesco e não foi à toa que a presidente veio de Nova York [Estados Unidos] para conhecer o forte. Ela defende que esse fortim tem condições de se tornar patrimônio histórico mundial. É o mais íntegro e o mais original construído por holandeses no Brasil. O Forte Orange em Recife [PE] foi alterado pelos portuguees, que o reaproveitaram para outras funções. Esse fortim em Porto Calvo está exatamente como os holandeses o construíram.”

Além da ponte para pedestres, com passeio público para usufruto da comunidade, o Iphan criará, ainda, nessa estrutura em torno do Fortim Bass, segundo Sandro Gama, um “pequeno museu”. “Será um espaço com informações sobre o forte e sobre o período das Invasões Holandesas. Já temos um projeto para isso.”

Quanto à verba para a construção da estrutura em torno do forte, ela virá do governo federal. Diante dos anunciados cortes de orçamento para educação e para a cultura no país, Gama afirma, entretanto, que tal investimento público “está garantido”.