Especial

Zeppelin, um caso de sucesso gastronômico e cultural

Restaurante e bar no centro de Maceió, criado há sete anos, tem a melhor costela de boi da cidade e as noites de sexta-feira mais artísticas e alagoanas

31 de Maio de 2019, 14:56

Jorge Barboza/ Editor

O restaurante e bar Zeppelin, localizado na região central de Maceió, além de servir um ótimo cardápio a preços acessíveis, tornou-se um importante espaço cultural da cidade. Mês passado completou sete anos, funcionando de segunda a sexta-feira, no horário do almoço, na rua Desembargador Artur Jucá, 40, ao lado das Lojas Americanas na praia da Avenida. As noites de sextas-feiras são reservadas para os saraus e apresentações musicais, que, diga-se, não se comparam ao tatibitate “ao vivo” de outros bares e restaurantes da capital. Aqui se toca som original ou, como se diz por aí, “música autoral”.

“A ideia inicial era um churrasquinho”, conta o gaúcho Clândio Schettert, cozinheiro que, ao lado da mulher Rita Oliveira, dirige o negócio em família. Mais ou menos assim: um cuida da cozinha, o outro do salão. Ambos, como pessoas sensíveis que são, com excelente gosto musical e vasta bagagem cultural, atuando como gourmets e produtores, acolhem a arte alagoana (poesia, música e até dança) nas noites de sextas-feiras e, em dias alternados e mais modestamente, também na hora do almoço.

“O churrasquinho”, continua Schettert, “funcionou apenas um dia. Logo passou para o almoço, mas sempre levando em conta essa coisa cultural, um público x, uma música x – essa é a parte que nunca abrimos mão: o estilo. O restaurante podia ser em qualquer lugar, mas o estilo era um só.”

Rita Oliveira e Clândio Schettert: restaurateurs e produtores culturais

E tome rock’n’roll na caixa de som. “As sextas-feiras era para nós mesmos, para a gente curtir. Não tinha som ao vivo. Sempre tivemos um bom som e a galera vinha igual para escutar o som que a gente colocava, que era bem alternativo. Muito rock, muito Led Zeppelin, AC/DC, muito jazz, blues”, explica a simpaticíssima Rita Oliveira. “No almoço a galera ouvindo AC/DC era uma loucura. Atraímos vários clientes que ficaram amigos da casa e estão conosco até hoje. Daí foram chegando os músicos aos pouquinhos e fizemos as parcerias.”

Rita diz que no Zeppelin não se faz “música ao vivo”. “É outra coisa, o pessoal vem aqui e dá um show.” Ela está certa. A casa não se repete e o ponto forte mesmo da rodada cultural às sextas-feiras é a originalidade e criatividade do artista alagoano.

Músico frequente da casa, nesta sexta, dia 31, por exemplo, o guitarrista virtuose Edi Ribeiro canta suas canções de forró-jazz e clássicos do coco e do baião assinados por gênios da música como o alagoano Jacinto Silva e o pernambucano Luiz Gonzaga. Na semana que vem, 7 de junho, é a estreia do novo programa do movimento Antropofágico Miscigenado, “Shows Democráticos”, com o violonista e compositor Zeca Bêga e sua parceira de muitos festivais de música, a cantora, escritora e apresentadora do programa de rádio “Vida de Artista”, Gal Monteiro. No comando da série “Shows Democráticos”, o músico e poeta Sebage e o próprio Zeca Bêga, com a ajudinha do amigo Edi Ribeiro, que havia criado o movimento em 2017, junto com Sebage.

“Nosso foco sempre foi o trabalho mais autoral”, explica Rita. “Damos muita importância a isso, principalmente aos músicos alagoanos. Não que a gente não faça aqui alguns tributos. Recentemente fizemos homenagens a Belchior, Chico Sciense, Chico Buarque, Janis Joplin.”

A costela cozida no bafo é pioneira e carro chefe do restaurante

O artista interessado em apresentar um projeto basta chegar junto. “A gente nunca fecha nada por telefone”, explica a proprietária e responsável direta pela agenda de shows do restaurante. “Eu gosto de conhecer as pessoas – olho no olho, sabe assim? Gostamos que eles venham até nós, conheçam realmente a casa e se identifiquem. E aí então as portas ficam abertas para aquele artista, aquele músico, aquele poeta.”

O Zeppelin (o nome é referência tanto à banda inglesa quanto à música de Chico Buarque, “Geni e o Zepelim”, você escolhe) dispõe de um som básico para os shows de sexta-feira (alugado do baterista Jailson Rego, outro cúmplice das sextas-feiras zeppelinianas), uma iluminação idem e, o resto, se o artista tiver uma produção mais arrojada, é por conta dele. O couvert geralmente custa R$ 10.  

Edi Ribeiro (com o percussionista Renault Guimarães): atração desta sexta-feira (31)

“Começamos com os saraus de poesia”, lembra Rita. “Os almoços deram certo e partimos para os shows de rock’n’roll à noite. No início foi muito cover e poesia, depois é que investimos em música autoral, música alagoana, cultura nordestina.”

O casal se conheceu por acaso em 1996. Clândio Schettert havia largado o trabalho como bancário e Rita Oliveira fazia artesanato. “Conheci-o vendendo umas bicicletinhas de arame”, diverte-se a esposa. Schettert, por sua vez, tendo largado o banco, era sócio, cozinheiro e gerente de um restaurante na rua Pedro Monteiro chamado Barriga Verde. Havia alugado uma casa na antiga Rua da Praia, do ator Homero Cavalcante que, afinal, vendeu ao casal a propriedade que tinha nos fundo (hoje o Zeppellin).

Gal Monteiro e Zeca Bêga numa tarde de ensaio no Zeppelin

Uma história de sucesso. Começaram com o churrasquinho e logo estavam assando uma enorme costela (“um abano, que é a costela inteira”, explica o cozinheiro) no terraço da casa. Os clientes adoraram. Mas era muita fumaça logo na entrada do restaurante. Hoje a deliciosa costela é carro-chefe. Se o leitor não experimentou ainda, vai lá e aproveite que o feijão também é muito especial.

“Eu precisava fazer uma comida que não diferenciasse muito do estilo alagoano, mas que tivesse um toque diferente”, ensina o nosso gourmet gaúcho. “Então trocamos alguns temperos, introduzimos uns temperos do Uruguai, ervas finas. Não é uma comida nordestina, mas lembra, remete à culinária da região. Trouxe uma costela para cá que não é igual à costela gaúcha, mas é muito diferente de como se faz o assado nordestino. O pessoal gosta muito do tempero do feijão.”

 

Restaurante Zeppelin – Rua Desembargador Artur Jucá, 40, Centro. Funciona de segunda a sexta-feira, das às 11h às 15h. Às sextas-feiras, fica aberto até meia-noite. Tel. (82) 98715 8009. Estacionamento no local. Aceitam-se cartões de débito.