Cultura

Nelson Faria se apresenta no 'Panorama Jazz ao Vivo' no Teatro de Arena

Guitarrista, produtor, arranjador e compositor é a atração desta terça-feira (4), às 20h, no programa comandado pelo contrabaixista Félix Baigon

04 de Junho de 2019, 12:25

Jorge Barboza/ Editor

 

Hoje é dia de jazz brasileiro. O poderoso programa do contrabaixista Félix Baigon e aliados, o “Panorama Jazz ao Vivo”, em décima edição, traz para o palco do Teatro de Arena, nesta terça-feira (4), o craque Nelson Farias, que apresentará repertório autoral e clássicos do jazz internacional. Com 56 anos e 15 álbuns gravados a partir de 1993 (e três DVDs entre 1990 e 2016), professor de música com oito livros publicados no Brasil e exterior desde 1991 – para aprendizado de guitarra e violão e estudos de improvisação –, o guitarrista mineiro, parceiro de outros tantos ases da música brasileira (Milton, Chico, João Bosco e artistas menos conhecidos, como o violoncelista Gustavo Tavares e o percussionista Rodolfo Cardoso), realiza um trabalho musical, em concertos, discos e canal no YouTube, que é uma lufada de música inteligente nesse país assolado pela barbárie política e a babaquice musical que infestou as rádios e emissoras de TV há pelo menos  três décadas. O concerto desta noite está marcado para as 20h, com ingressos a R$ 20 e R$ 40.

 

Conduzido pelo pesquisador musical Juan Maurer – que inicialmente apresentou o programa na rádio FM Educativa –, o especial “Jazz Panorama ao Vivo” conta com o impagável Clube do Jazz alagoano, formado por Félix Baigon (também o produtor musical do projeto, que conta, ainda, com a produção executiva da produtora Divina Home e da agência de publicidade Six) e por essas feras do jazz alagoano: Jiuliano Gomes (teclado), Allysson Paz (bateria), Rony Ferreira (trombone), Beto Ferreira (trompete) e Jailson Britto (saxofone). 


Nessa segunda-feira (3), o Alagoas Boreal conversou com Nelson Farias, antes de ele pegar o voo para Maceió para o “ensaio geral” do show que fará logo mais com a galera desses trópicos de cá. Diz que não lembra quando nem onde conheceu o nosso herói Félix Baigon. “Não faço a mínima ideia. A gente já se conhece há muitos anos e não consigo me lembrar onde foi o nosso primeiro encontro, talvez num festival desses, não sei, mas o Baigon tem uma memória melhor do que a minha, pode ser que ele se lembre.”

 

Sim, Baigon lembra. “Conheci o Nelson no Cigam [Centro Ian Guest de Aperfeiçoamento Musical], a escola de música do [pianista] Ian Guest no Rio lá pelos anos de 1992. Anos depois, já morando de novo em Maceió, convidei-o para tocar no Festival de Música do Sesc, com a cantora Carol Saboya. Nossa amizade vem dessa época.”

 

Acompanhe a entrevista.

'O Jazz Panorama está usando a fórmula certa, a fórmula da assiduidade e da persistência'

O jazz, a música instrumental no Brasil, tem se tornado uma realidade cada vez mais palpável, concreta... Um exemplo disso são os músicos jovens que você entrevista no seu programa “Um Café lá em Casa”, como o guitarrista Marcelo Ferreira, e o próprio sucesso que o canal faz no YouTube e também na TV por assinatura.

Nelson Farias – O panorama do jazz, da música instrumental e mesmo aquilo que a gente classifica como música instrumental, mas que, às vezes, tem canção também envolvida... Por exemplo, você pega a música do Guinga ou a música do Toninho Horta – essas músicas, elas estão dentro do pacote da música instrumental apesar de não serem 100% instrumental. Mas quando a gente fala jazz talvez seja mais apropriado, ou até o jazz brasileiro pode ser mais bem descrito do que música instrumental. Acho que essa música está cada vez crescendo mais por causa da internet, por causa da possiblidade de você chegar às pessoas sem ser através do mainstream das rádios que há muito tempo já abandonaram, infelizmente, a música de qualidade. Tem até uma música do Ivan Lins, com letra do Victor Martins, que se chama “Cantor na Noite”, que ele fala assim: “Era apenas uma noite a mais sem sono/ Daquelas que a gente sai sem dono/ Procurando um samba-canção no vento/ Porque o rádio já não me deixa ouvir faz tempo”. Acho muito emblemática essa música do Ivan Lins, descrevendo, infelizmente, para onde foram as rádios, que sucumbiram a um comércio raso mesmo sendo uma concessão pública. Acho que a internet está sendo muito responsável por resgatar e colocar essas pessoas unidas, e isso faz com que o público se agigante.

O nosso programa aqui em Maceió, o “Jazz Panorama ao Vivo” – depois de árdua batalha de Félix Baigon circulando pela cidade e agora se fixando no Teatro de Arena –, conseguiu estabelecer uma, digamos, cumplicidade com o público, que se torna cada vez maior e mais íntimo da proposta de música instrumental, de jazz brasileiro...

Nelson Farias – Quero parabenizar o “Jazz Panorama ao Vivo”, que está usando a fórmula certa, a fórmula da assiduidade e da persistência. Você tem de fazer uma coisa de forma consistente durante um bom tempo para que isso possa te trazer resultado. Quero parabenizar ao Baigon e a todos por esse projeto. Que bom que vocês estão encontrando essas pessoas e essas pessoas somente vão estar de fato unidas se você tiver consistência – isso vai fazer com que o público realmente aumente bastante.

Levando em consideração que as rádios e a TV aberta atualmente tocam quase que exclusivamente o funk e o sertanejo, de uma qualidade bastante questionável, bem diferente do que ouvíamos majoritariamente nesses veículos nos anos 1960, 70, 80, isso é bem surpreendente. Claro que tem muita coisa boa na música popular de hoje, mas é difícil o garimpo... Qual a sua visão disso?

Com João Bosco: 'A internet está sendo muito responsável por colocar essas pessoas unidas'

Nelson Farias – Esse garimpo que precisa ser feito, de certa forma eu acredito que o meu programa, “Um Café lá em Casa”, ele tem uma função importante nisso. Eu ali estou apresentando várias artistas, e várias pessoas que por mais que sejam notoriamente pessoas de uma importância para a cultura brasileira, para a música brasileira, muitas vezes não são conhecidas, inclusive dos jovens. Se você pega uma Fátima Guedes, se você pega mesmo o João Bosco, o Ivan, o Guinga, as pessoas conhecem pouco, por incrível que pareça. Eu vejo pelos comentários no site. As pessoas às vezes falam, “nossa, que cantora incrível, eu nunca tinha ouvido falar dela”, e está falando da, sei lá, Leila Pinheiro – é incrível (risos). Ou está falando da Fatima Guedes, alguém assim – realmente é de se espantar. Então eu acho que quando faço esse trabalho, de uma certa forma eu estou orientando as pessoas. Porque elas me falam isso, “po, conheci essa pessoa aqui no canal e saí procurando ela, a discografia, saí procurando no Spotify, no iTunes e tal". Então isso aí é muito importante.

Como vai ser o show em Maceió? Você tocará um repertório original seu, não é? Como você ensaiou isso com a galera daqui?

 

Nelson Faria – O show na verdade o Baigon organizou tudo. Organizou a banda, organizou o trio de metais – ele organizou tudo. Eu mandei as partituras, eles ensaiaram entre si e eu chego aí hoje [ontem, segunda-feira] em Maceió para dar uma passada com eles, mas já está tudo escrito, as partituras. São músicos competentes, acho q não vai ter problema nenhum. Estou muito feliz de poder participar desse projeto.