Cultura

Ana Karina Luna reúne poesia e arte visual em obras místicas e femininas

O erotismo também é um forte da artista, que encerra a exposição 'O Corpo é um Poema fatiado' nesta quarta-feira (12), a partir das 17h, no Café da Linda, no centro de Maceió

12 de Junho de 2019, 14:58

Jorge Barboza/ Editor

Eu pensei que sabia, mas agora 
é que a teoria lambe o fato, pois 
língua do corpo diz muita coisa

(Fragmento de ‘O Corpo’, poema em exposição, junto com desenhos e gravuras, no Café da Linda, no centro da capital)

Ana Karina Luna, que encerra a exposição “O Corpo é um Poema fatiado” nesta quarta-feira (12) no Café da Linda no Teatro Deodoro (rua Barão de Maceió, 375, Centro), aportou em Maceió em 2015, retornando dos Estados Unidos, onde por 16 anos viveu em Seattle, aquela cidade chuvosa e populosa do Estado de Washington. Seattle ficou famosa entre roqueiros, nos anos 1990, por conta de bandas grunge como Nirvana e Pearl Jam e lá, casada, Karina mantinha uma tipografia (a Miss Cline Press) onde imprimia poemas e desenhos. Fez pelo menos oito exposições individuais, que ela considera relevantes, e participou de outras tantas coletivas. “Também fundei em meu bairro uma coisa que era comum na cidade, que o pessoal lá chama de art walk. Essas caminhadas de arte aconteciam todo mês e isso durou um ano. Eu e outros artistas abríamos nossos estúdios para mostrar às pessoas nossa arte, nossos processos etc.”

Aqui nesta Maceyork, Ana Karina Luna, poeta, gravurista e bruxa (sim, ela entende tudo de astrologia e de otras cositas de mistério), parece ter surgido para as artes alagoanas quando lançou na Bienal Internacional do Livro, em 2017, um volume que é uma espécie de pedra angular desta renovada experiência poética já em plagas caetés. “Saindo da Piscina do Éter” é um manual de sentimentos e paixões femininas que, bem, se tem algo que a poeta não faz questão é de “passar alguma mensagem”. Quanto mais implementar algo como um manual feminino de exasperações e soluções sentimentais. Mas é que é mesmo quase isso – lembrou Clarice Lispector? É por aí.

Arriete Vilela convidou Ana Karina e seus 'poemas fatiados' para exporem no Café da Linda

E como Clarice, além de poeta sacerdotisa com seus dons e vaticínios, e romances e poesia exasperada, Ana é agregadora. Militante. Participou com os músicos Sebage e Edi Ribeiro de uma das edições do movimento Antropofágico Miscigenado no saguão do Teatro Deodoro, em 2017, e, semana passada, repetiu a dose novamente com o também poeta Sebage na série “Shows democráticos”, que o movimento estreou na sexta-feira (7), no restaurante Zeppelin. Organizou eventos de tarô e de poesia no Johny’s Bar, junto com outra galera musical, o casal Júnior Bocão e Ana Galganni, e finalmente, no início deste ano, num evento realizado pela poeta Arriete Vilela, foi convidada por esta e pela produtora Weldja Miranda para uma exposição no Café da Linda, mais uma vez no espaço eternamente agitado do Teatro Deodoro.

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E aproveitando essa movimentação de fim de temporada convidamos Karina para um bate-papo no teatro, sobre esse trabalho dela de artista visual, que é tão instigante e que ainda dá tempo de conferir no café, nesta quarta-feira, a partir das 17h. Falamos, também, do passado e futuro, de microfisioterapia, do corpo feminino, de feminismo e dos próximos livros que irá lançar este ano. Acompanhe.

Você encontrou com Arriete Vilela e ela...

Ana Karina Luna – Ela me convidou para o projeto “Arriete convida”, me convidou para eu mostrar o meu livro aqui, e então prometeu para Weldja [Miranda] os desenhos.

Ah, então foi aí que vocês combinaram?

Ana Karina – Sim (risos), e eu disse, “como assim os desenhos?” E Arriete, “você não faz uns desenhos?”

E então você começou a produzir esses desenhos para a exposição?

Ana Karina – Não, por alguma coincidência eu tinha feito esse desenho ["O Corpo"] naquele dia que eu encontrei com ela. Eu disse, “você está com sorte porque eu fiz um desenho”, e um poema já tinha vindo na noite anterior. Aí pronto. Ali eu decidi, já que ela havia prometido, que ia virar uma coleção. Eu tive dez dias. Essa coleção apareceu nesses dez dias e o segundo poema foi vindo todo fatiado. Vendi livros no evento de Arriete, mas nem li nada do livro – li apenas os poemas do corpo. Era como se a exposição tivesse que rolar, ela meio que se fez.

Qual é a sua técnica?

Ana Karina – Eu uso carvão e o pastel a óleo, que eu gosto muito, eu gosto muito de botar força. Muita gente me perguntou, “como é que você consegue fazer isso”, porque fica com cara meio de tinta, meio pesado... Mas é porque eu uso o pastel a óleo meio com força, sabe, ele vai quebrando no papel, eu gosto muito assim.

'O pé leva a gente a lugares e a vulva é lugar de desejos também'

Dá uma textura ao traço.

Ana Karina – É, e esse papel é muito bom que eu trouxe lá dos Estados Unidos. Eu tenho uns cadernos bem grandes e você vê, o carvão dá uma textura bem legal.

E quanto aos poemas.

Ana Karina – O primeiro poema é “O Corpo” e o outro virou “O Poema fatiado”, que foram versos que vieram em pedaços e que eu não sabia bem o que eram aqueles versos. Até que no final eu vi que era um poema inteiro que veio assim.

Meio caleidoscópico, uma coisa de misturar as peças – jogo de dados...

Ana Karina – Isso me lembra... Era o David Bowie? Não... Quem foi? Eu vi uma exposição lá em São Paulo, eu acho, de David Bowie... Que tem uma máquina de fazer letra de música, poemas, não sei como era, misturava as coisas tudo. Mas a ideia não foi essa, as minhas coisas são bem, assim, naturais. E saiu assim. Veio fatiado, eu integrei e depois aqui, com o público, a gente fatiou outra vez, e eles viraram de novo o que o poema quis. Tem uma coisa assim mesmo de o corpo fazer o que quer, o corpo se desfazendo, sendo o que quer ser, virando tudo ao redor.

E esse é o tema da exposição, o corpo fatiado, as diversas partes do corpo: os pés, a vagina, os olhos, a boca.

Ana Karina – A espinha... Tem a pele, a espádua, o pé que é uma vulva. São assim, por exemplo, o que o pé tem a ver com a vulva? O pé leva a gente a lugares e a vulva é lugar de desejos também, de abertura. Eu até escrevi algumas coisa, essas relações entre... No caso do feminino, né, no caso da vulva e o pé, de poder usar os dois. Essa [mostra outra tela] tem um beijo, mas parece outra vulva também. Engraçado porque nesse período, de dois meses, eu criei muita consciência do meu corpo também, de várias coisas. Finalmente, eu terminei achando uma terapia  alternativa, microfisioterapia, e eles fazem isso. Relaciona as partes, toca o ombro... E o que é que tem o ombro com o pé? Tem um canal ali. Eu fiquei fascinada. Era como se os meus desenhos... Eles estavam falando disso já, e eu não entendia. Isso aqui saiu e eu, “tudo bem”, e quando fui fazer essa terapia vi que ela botava a mão em lugares completamente...

Ana diz que a intenção não é ser feminista, mas...

Que terapia é essa?

Ana Karina – Microfisioterapia é uma terapia chamada complementar, mas é... Acho que é meio filha da homeopatia, ela vem aí da osteopatia, um negócio de quinta dimensão assim, entendeu? (risos)

Você é uma pessoa muito ligada à natureza e à astrologia, aos planetas, aos astros.

Ana Karina – Às energias, sim. Ela vem da física quântica, essa microfisioterapia. Tem ligação com a medicina germânica, que é um novo tipo de medicina mais integrativa. Então assim, a gente está descobrindo que a medicina ocidental às vezes apenas medica. E as autocuras estão vindo agora por causa dessas relações que a gente está conseguindo fazer, que a gente não via antes. O que é que tem a ver isso? É outra ordem. A medicina ocidental descobriu uma ordem que era mais óbvia, e essa aí é outra ordem que meio que desafia o nosso pensamento racional, né. Mas que dá certo e eu já tenho resultados da microfisioterapia, já aconteceu coisa no outro dia, são curas instantâneas, sabe. Então essa exposição do corpo parece que era uma sabedoria que estava em mim, que não está só em mim, está em todo mundo, nos corpos, e que precisava sair e eu segui. Por exemplo, tem uma ilustração que é “Bomba de Peitos e Cobras” – o que é que tem a ver peito com cobra, né. Mas a sexualidade feminina tem muito isso de ser diferente da masculina no sentido de que o mesmo peito que alimenta é o peito que dá tesão, a mesma vulva que pare é a vulva que é penetrada. Então tem isso – é como uma dupla jornada, ela bota para fora e bota para dentro, alimenta e sacia.

A sua poesia, a sua arte é feminina e pode-se dizer também que ela é feminista.

Ana Karina – É, acho que sim. Pode dizer os dois. Acho que ela acaba sendo. A intenção não é ser feminista, mas, também, não tenho problema com isso – ela é sim, tenho de admitir. Se eu estou levando essas bandeiras aí, é uma militância.

'Tenho dois livros para este ano, um de contos, outro de poesia'

Afinal, questiona o patriarcado.

Ana Karina – É, tem uma militância sim. Já assumi. É que nem a Georgia O’Keeffe [EUA, 1887-1986], ela tem aquelas flores lindas, enormes, que ela fazia e o pessoal perguntava, “mas e são vulvas?”, “não, são flores”, ela respondia, “nunca pensei nisso”. Acho difícil que ela nunca olhou para aquilo e não falou, “ah, isso é uma vulva”. Vulvas e vulvas e vulvas. Mas ao mesmo tempo eu acho que é correto, acho que ela queria dizer, “vejam o que vocês quiserem”.

Você acha que seu trabalho de arte visual é integrado à poesia – esta é sua primeira exposição individual?

Ana Karina – É a primeira aqui no Brasil, eu fiz duas nos Estados Unidos, em Seattle, uma nas montanhas de Seattle, a outra em Seattle mesmo. Uma delas, a mais importante, já teve essa coisa da poesia. Isso é um ponto que eu estou percebendo que eu não tinha percebido, que parece que sempre vêm junto. Essa outra lá em Seattle eram 19 peças e dez poemas – essa aqui são 15 peças e aí vieram dois poemas. É uma surpresa para mim, não estou muito bem acostumada, ainda não sei o que fazer disso. Mas parece que as linguagens vêm juntas. :A poesia antecede esse trabalho de arte visual? Bem, para você falar que foi surpresa, é que agora parece que você está investindo mais nesse trabalho de artista visual – teve um feedback, gostou de atuar como artista visual, foi isso?

Elas sempre vieram juntas. Eu sempre trabalhei com o design gráfico e com a arquitetura. Quando comecei a escrever poemas em 2008, já fazia gravura.

Exposição 'O Corpo é um Poema fatiado': poesia e traços eróticos 

Você trabalhou na feitura do livro “Saindo da Piscina de Éter”, no designer e na formatação do livro.

Ana Karina – Eu tinha uma tipografia, onde eu imprimia poemas e tinha sempre uma ilustração, só que eu não estava fazendo essa ligação de que elas sempre vinham juntas. Nessa exposição agora é que eu me conscientizei mais de que tem alguma ligação aí que eu não estava percebendo.

E quais os próximos projetos de artes visuais e de poesia.

Ana Karina – Os próximos projetos... Eu sei mais da literatura, dois livros que já estão quase prontos, tenho apenas de refinar e partir para a ação, a publicação mesmo. Um livro é de poema, o outro são contos. Isso aí eu já sei, não sei se vai ter a parte visual neles. A parte visual fica assim pendurada, acho que... Parece que eu me comprometo mais com a literatura, talvez você esteja certo, a literatura...

Ela puxa o carro, não é?

Ana Karina – Ela me possui mais, e aí de repente talvez algo que eu não consiga dizer na literatura sai no desenho, me ajuda. Porque a questão toda é eu me entender, né. O que é que eu estou fazendo ali nesses códigos que são crípticos para mim também às vezes. E isso é o que me fascina.