Cultura

Flertando com o Cubismo, o expressionista Pedro Caetano propõe 'alagoanidade' em obra exposta no Rio de Janeiro

Artista diz estar voltando ao tema que havia abordado há dez anos numa bienal em Fortaleza: a cultura alagoana; 'Venho retomando uma temática de pertencimento e identidade na minha pintura', reconhece

03 de Setembro de 2019, 15:45

Jorge Barboza/ Editor

O artista visual Pedro Caetano decidiu voltar a um tema de dez anos atrás no quadro que entregou às arquitetas Cristina Cortes e Cláudia Santana, para a decoração do ambiente que elas criaram e que está em exposição na Casa Cor Rio 2019, inaugurada no dia 20 do mês que passou, no centro da capital fluminense. Há dez anos, Caetano apresentava na Unifor Plástica – bienal de arte contemporânea da Universidade de Fortaleza (CE) – a tela “Garotas do Pontal”, um sugestivo e colorido flagrante da arte artesanal do bairro ribeirinho do Pontal da Barra. Em “Namorados em Pajuçara”, o quadro que foi para a Casa Cor Rio, retoma o tema que o artista reconhece como cultura alagoana.

“Com essa obra busco retratar a alagoanidade através das velas de Pajuçara, no último plano do quadro, tendo como base as vanguardas do Expressionismo e do Cubismo”, ele diz em conversa pelo aplicativo de mensagens instantâneas Whatsapp, há menos de duas semanas, quando ainda estava no Rio acompanhando a abertura da famosa mostra nacional de arquitetura e decoração. “Venho retomando uma temática de pertencimento e identidade na minha pintura.”

'Namorados em Pajuçara' fica exposto até 30 de setembro, no Rio

A nova fase – cheia de cores e movimentos, digamos, mais espontâneos – parece contrastar com os aspectos sombrios de obras recentes apresentadas em mostras coletivas e na exposição que realizou em 2015, “Ranhuras”. Em oposição a certa angústia do claro-escuro que vinha perpetrando, vemos no divertido “Namorados em Pajuçara” uma profusão de cores e movimentos que inauguram afinal um novo propósito de objeto artístico.

Com as arquitetas Cristina Cortes e Cláudia Santana

“Na verdade, essa alegria sempre esteve presente em mim e no ato de pintar. O que talvez possa surpreender é que esse trabalho entra em contraste com minha última exposição, ‘Ranhuras’, na qual tratei da cor de maneira mais contida para que o desenho sobressaísse, já que desenho desde criança. Então, em ‘Ranhuras’ eu estava escavando, buscando por mim, por algo mais essencial que sempre esteve comigo: o desenho.”

O artista de 34 anos explica que “o que vem acontecendo é uma retomada de temas locais”. “Poder pintar para mim já é algo positivo, mesmo que o tema e a paleta ou o chiaroscuro sejam dramáticos. Então, por mais que em alguns trabalhos anteriores essa alegria não transparecesse na obra em si, ela estava presente no gesto de pintar.”

No Salão Unifor Plástica em Fortaleza com 'As Garotas do Pontal'/ Foto/ Arquivo
'Estou me programando para uma nova exposição em novembro'

Quanto ao quadro “Namorados em Pajuçara”, diz que, com ele, quis retomar essa temática de “pertencimento e identidade”. “Assim como amenizar uma espécie de sentimento apátrida”, reconhece. “É uma pintura em que busco retratar certa alagoanidade através das velas de Pajuçara, que aparecem no último plano do quadro. Eu realmente parto do Modernismo, mas não é para lá que minha pintura vai. Tem uma frase de Egon Schiele [pintor austríaco alinhado ao Expressionismo do início do século 20] que gosto bastante: ‘A arte não pode ser moderna porque a arte é eterna’.”

Afirmando buscar essa miscelânea modernista/cubista “já há um tempo”, Pedro Caetano conta estar se programando para uma nova exposição em novembro. “Apesar de partir do Modernismo, não é para onde eu vou. Só Deus sabe para onde eu vou (risos)”, provoca, destacando seus ídolos brasileiros: Iberê Camargo, Portinari e Di Cavalcanti. “O Iberê tem uma pegada expressionista. Já com Portinari e Di Cavalcanti você consegue ver o Cubismo de forma evidente. Eu misturo isso.”