Especial

Morre o maior de nossos historiadores

Dirceu Lindoso deixou uma extensa lista de livros sobre história e antropologia alagoanas, e também romances; a morte ocorreu nesta terça-feira (15), de madrugada

15 de Outubro de 2019, 20:49

Jorge Barboza/ Colaborou Cláudio Manoel Duarte

O historiador, cientista social e romancista Dirceu Lindoso morreu na madrugada desta terça-feira (15), no Hospital Geral do Estado (HGE), em Maceió. Aos 87 anos, estava internado desde a quarta-feira (9), segundo o HGE “com rebaixamento do nível de consciência e histórico de microangiopatia cerebral”.

De acordo com a agência de notícias do governo, Lindoso recebeu atendimento da equipe multidisciplinar do HGE, “composta por médicos, enfermeiros, psicólogo, assistente social, fisioterapeuta e técnicos de enfermagem”. “Após a realização de exames, incluindo tomografia computadorizada no crânio e encéfalo, foi identificado o aneurisma [dilatação anormal e localizada de um vaso sanguíneo ou artéria].”  

O velório acontece na Casa Jorge de Lima, sede da Academia Alagoana de Letras, na Praça Sinimbu, região central de Maceió. O sepultamento será nesta quarta-feira (16), às 10h, no Cemitério da Piedade, bairro do Prado, também no centro da capital.

O governador Renan Filho disse que “Dirceu descreveu Alagoas, as nossas origens, o nosso povo, como poucos”. “Foi e continuará sendo, através de suas obras, uma das maiores referências nos campos da historiografia, da antropologia e da sociologia."

Dirceu nas cataratas do Iguaçu no Paraná

A obra de Dirceu Lindoso “Formação de Alagoas Boreal” (ed. Catavento, 2000) inspirou o nome deste modesto empreendimento jornalístico-cultural. Antes do site, em 2006, havia colaborado conosco em antológica e saborosa (e longa) entrevista à revista Urupema, inaugurando uma série de reportagens sobre identidades, história e artes. Recentemente, o jornalista e produtor dos carnavais do Jaraguá, Edberto Ticianeli, a reproduziu no site História de Alagoas

Seja relembrando a Segunda Guerra para o extinto diário O Jornal, ele menino no litoral de Maragogi onde aliados americanos largaram bombas – uma delas afinal encontrada e detonada pela Marinha em 2010; seja brindando-nos em conversas e debates aleatórios com estudos e impressões sobre esses rincões do Norte, que antes eram um só – Porto Calvo, juntando Maragogi, Japaratinga, Porto de Pedras, Matriz e São Luiz, Lindoso jamais deixou de apoiar este nosso projeto, pessoalmente ou por telefone. Um historiador e um interlocutor como poucos.

Formado pela Faculdade de Direito de Alagoas

Dirceu Lindoso foi embora muito cedo. Ensinou a todos nós. O colega antropólogo, dramaturgo e professor Sávio de Almeida ensina muito, também, e há bastante professores, pesquisadores e escritores generosos nessa dramática sangrenta Alagoas. Alagoas foi História e continuará sendo história do Brasil. Uma pena que é um atraso. A elite alagoana ficou mais gananciosa do que a de Pernambuco, provavelmente.

Afiado como o poeta Jorge Cooper (Maceió, 1911-1991), em 2016, a propósito do lançamento – pela editora do governo, a Graciliano Ramos – do romance “Os Filhos de Ana Rosário”, sobre a sociedade dessa histórica região Norte no séc. 19, o romancista soltou: “Alagoas é o que a gente ama e doi”.

Com a mulher Ismélia Tavares e o colega Douglas Apratto

Um homem do seu tempo. Aliado dos trabalhadores, comunista. Intelectual imprescindível, doutor honoris causa pela Ufal e pela Uneal, universidades alagoanas federal e estadual. Não perguntamos a ele sobre o fortim holandês encontrado pelo Iphan há quatro anos em Porto Calvo. Ele dizia ser “uma lorota” a história de um administrador no Porto das Barcaças, no rio Manguaba, que haveria de emprestar o nome, por ser calvo, ao riquíssimo polo de colonização do Norte. Como se não existissem montanhas e platôs calvos. “Tem uma vila em Portugal que se chama Porto Calvo”, contou certa vez, ainda para a Urupema. Homem viajado – mestre amado. Morreu no Dia do Professor, esse profissional que vive a injúria do fascismo do atual governo federal, que os persegue nas escolas e nas redes sociais.

Selfie de Nuno Balducci, com Ismélia e Dirceu no Réveillon 2019

Morreu cedo, Dirceu, ainda podíamos aprender mais com a sua sagacidade e sabedoria. O mundo é mesmo ingrato. Vai em paz, professor, a passagem sombria pelo submundo de Hades é cultura e civilização, chegue logo junto de N.S. Jesus Cristo.

Títulos de livros publicados: “O Circulo arcaico: E Outros Estudos etnológicos (2013); “O Grande Sertão, os Currais de Boi e os Indios de Corso” (2011); O Poder Quilombola: a Comunidade mocambeira e a Organização social Quilombola” (2007); “Tapui-Retama, Viagem ao Brasil profundo: Minas Gerais e Grande Sertão” (2016); Póvoa-Mundo (1981); “Uma Cultura em Questão: a Alagoana (1981)”; “Grande História Universal Vol. 1”/ Com Leopoldo Collor Jobim (1973); “Mínimas Coisas” (1981); “A Diferença selvagem” (1983); “Liberdade e Socialismo” (1983); “A Book of Days for the Brazilian Literary Year” (1993); “Mar das Lajes” (1999); “A Utopia Armada: Rebeliões de Pobres nas Matas do Tombo Real” (1983, reeditado em 2005); “Formação de Alagoas Boreal” (2000); “Interpretação da Província: Estudo da Cultura alagoana” (2005); “As Invenções da Escrita” (2006); “Marená: Um Jardim na Selva” (2006); “Lições de Etnologia Geral: Introdução ao Estudo dos seus Princípios” (2009); “Os Filhos de Ana Rosário” (2016).

Ismélia Tavares, também professora, produtora cultural, mulher de Dirceu, e Nuno Balducci, jovem e premiado cineasta, filho do casal, a eles a nossa solidariedade. E também a esta unidade federativa cultural social arquetípica alagoana, que perde um bocado de si mesma nesta desoladora terça-feira de outubro.