Especial

De poeta para poeta: anotações de uma leitura despretensiosa para ‘Maluquete quer dançar’

Em Maceió, Ana Karina Luna lança segundo volume de poesia, ao lado de outra poeta, a veterana Arriete Vilela, que lança as histórias infantis de ‘Olívia’; nesse domingo (3), na Associação Comercial à rua Sá e Albuquerque, 467, às 16h

02 de Novembro de 2019, 12:17

Izabel Brandão/ Poeta, professora e pesquisadora

Li o “Maluquete quer dançar”, segundo livro de poemas de Ana Karina Luna, e aqui falo do meu feeling de leitora. O livro tem muita coisa que poderia ser dita de vários poemas, mas o que eu mais gostei é o poema da página 31. É um que fala sobre o grito:

Guardar o grito para outra coisa.

Guardar o grito nas folhas?

Em tecido de algodão esticado?

Guardar em todos os cílios, o grito

lacrimoso não sairá.

Apenas o grito servirá para —

e mais e mais e mais,

o grito que é olho que é dedo que é língua,

o grito que é ouvido, também,

mas não se ouve, pois se se se —, ele se grita —

não,

já disse: grito não se se se — grita nem chora.

 

Guardar o grito embaixo da pele da barriga,

que cresce, que cresce, que cresce:

o grito que, se, que, — chama a alguém, ou

o grito que, se alguém chama, ele olha:

 

“Cuidado com a onda, Maluquete.”

'O que quer, afinal, Ana Karina Luna da sua Maluquete?'

O que eu percebi é que essa questão do grito tem muito a ver com a artista, com a arquiteta, com a poeta, com coisas existenciais que querem vir à tona e nem sempre isso é possível, ou se é possível, qual é a melhor forma de isso acontecer? Esse foi o poema que mais me chamou a atenção e que eu mais gostei. Naturalmente, o conjunto dos poemas é bem interessante e o que pensei em relação aos poemas como um todo foi o seguinte:

A construção dos poemas é uma negociação encaminhada pelo eu lírico (persona poética) em crise existencial, que precisa se encontrar consigo mesma, mas uma outra identidade interfere. Essa outra identidade é nomeada de “Maluquete”, um ser que pode ser visto como aquela figura que não é exatamente um trickster, mas talvez não seja um trickster porque esse ser é da mesma linha de Exus e a sua Maluquete tem laivos de ingenuidade que nenhum Exu teria. O Erê, a quem Karina dedica o livro, pode até ser trazido pela ingenuidade, pelas brincadeiras, pela necessidade de saber instintivamente do que acontece em todos os espaços, como uma criança curiosa e peralta.

E a geometria, essa questão do espaço que o livro traz, vem, me parece, de Adélia Prado. Isso aparece na epígrafe que antecede o epílogo. São versos de um poema sobre o fazer poético, um metapoema. Aqui Adélia mostra que o poema é vida e se coloca na roda dentada da existência. É um poema do qual eu gosto muito, inclusive. Karina, nesse sentido, parece também estar falando disso, dessa magia da escrita (magia compreendendo o trabalho desse fazer poético, muito mais do que apenas inspiração).

'A geometria de AKL é mais existencial do que qualquer outra coisa'

E a geometria de Ana Karina Luna é mais existencial do que qualquer outra coisa. Eu não percebi exatamente uma preocupação com a construção poética e sim com o existir de uma identidade outra no ser da poeta, que escreve e que cria esse eu lírico a sua semelhança, podendo ser confundido com ele, mas isso importa muito pouco. Importa que a Maluquete tem existência própria e vive ao longo dos poemas que têm uma tessitura de história contada, com seus conflitos, crises, suas resoluções, até o encontro final quando ela passa a integrar o universo do sonho, deixando de existir fora do eu lírico da poeta. É como se ela fosse objeto de uma introjeção, ou uma intração, algo muito maior, muito mais forte, uma assimilação, passando a existir como criatura do universo inconsciente.

Aliás, o mar é a imagem par excelence do inconsciente e, no livro, a sua existência se mostra plena nas marés altas e baixas, nas conchinhas, nas areias rendadas, nas pessoas; na verdade, nos homens que aparecem aqui e ali, que passam; nos mergulhos, banhos e criaturas, e coisas, bichos, siris, escorpiões, estrelas, espelhos, enfim. E a persona poética em companhia de seu duplo, a Maluquete, caminha, nada, anda, conversa.

O encontro entre essas duas criaturas mostra que a crise do ser pode ocorrer para a salvação da pele desse ser que não se conhece, quer se conhecer, quer se desnudar e poder ser aquilo que é possível. E nem sempre o que é possível é aceito na sua integralidade, muitas vezes precisa ser podado para buscar um enquadramento difícil, mas necessário do ser: não dá pra ser de verdade o tempo inteiro na sociedade.

O que quer, afinal, a Maluquete de Ana Karina Luna?

O que quer, afinal, Ana Karina Luna da sua Maluquete?

A tônica final dos versos presentes no epílogo do livro utiliza o ardor, o amargor e o sabor do gengibre para temperar a existência: se for comido sozinho, arde; se fora da comida, amarga. Mas se misturado na justa medida, a harmonia chega. É essa harmonia que a poeta busca em seu novo livro com a sua Maluquete.

Tem um outro poema, também, que gostei muito. É um que fala do mar como espelho do céu (p.27); fala ainda nos escorpiões e na tatuagem de um escorpião. Na verdade, isso seriam as feridas do ser que mais não são do que tatuagens marcadas para sempre na pele, na pele do ser, na alma. Há coisas muito interessantes na existência dessa Maluquete!

Entramos no mar.

Maluquete se dá conta de que o mar está de pé.

Como é fundo.

Eu acho... não!: eu vejo... escorpiões

nadando ao nosso redor.

Escorpiões ou estrelas?

Ah = estrelas no espelho do céu!

Maluquete vem e se agarra,

pendura-se, e diz que não dá pé —

mas é tarde, uma estrela caiu

e há no meu braço, já, um escorpião

tatuado.

 

Afinal, na nossa direção,

uma água turvo-índigo, vinda do crepúsculo,

rajada de partes ainda puras,

como os azuis claros na henna indiana,

como saias duplas

de pedrarias turquesa —

imensa e tortuosa, ali a meio-mar,

cresce, a nossa imaginação.

Minha leitura aqui é despretensiosa e ninguém precisa concordar com ela. A poeta escreveu o livro, publicou-o. Nesse caso os poemas deixam de ser dela e passam a ser de quem lê a história contada nos versos.

Espero que nessas anotações eu tenha arranhado alguma coisa que faça sentido. Esse foi o feeling que me chegou ao ler o livro de Ana Karina Luna devagar, como a leitura de poesia deve ser, saboreando o sal e o açúcar dessa maravilhosa alquimia das palavras.