Especial

O circo místico do Mopho e o filme de Carla Rosset

Com “Eu Quero Tudo”, diretora faz uma justa homenagem a essa banda icônica e ao mesmo tempo contribui para a memória do rock psicodélico nacional

08 de Novembro de 2019, 15:43

Lúcio Verçoza/ Colaborador

Foi na virada do século – em algum final de semana do início deste século 21 – que escutei Mopho pela primeira vez. Descobri por acaso: me deparei com a banda enquanto mudava de canal. O som me lembrou coisas que eu já havia escutado – meus pais tinham vinis dos Beatles e minha prima mais velha ouvia lá em casa discos dos Mutantes. Aquele som me soou familiar, mas ao mesmo tempo era único. Fiquei vidrado. Queria saber qual banda era aquela, que me transportava para fora da sala de jantar, que me fazia querer balançar os cabelos e dançar de olhos fechados no meio das pessoas. Era como se tivesse descoberto um tesouro. Um som que faz transmutar lugares e sentidos. Quando acabou a música, Gastão Moreira, apresentador do programa “Musikaos” (TV Cultura, São Paulo, 2000-2003), anunciou que a banda era de Alagoas. E eu, ainda com os olhos fixos na tela de um moderno televisor de tubo, perguntava-me como nunca tinha ouvido falar daquele quarteto de conterrâneos.

O show legendário da Mopho no bairro do Jaraguá

Daí fui parar até na Baixa da Égua – bar que ficava na Rua Sá e Albuquerque, no bairro central do Jaraguá – só para ouvir Mopho tocar. Era a época da minha adolescência imberbe. Jaraguá fervilhava de gente, bares e ruas que integravam diferentes tempos históricos. Foi no Marquês D’Latravéia, que ficava num antigo armazém próximo ao porto de Maceió, que testemunhei uma apresentação épica da banda. O espetáculo se chamava “O Circo Místico do Mopho”. A guitarra de João Paulo reluzia. Solos que alucinavam o público. Havia uma troca intuitiva entre os membros da banda que tornava o som cada vez mais orgânico e criativo.

Em determinado momento do show, Júnior Bocão bateu o braço do baixo contra o prato da bateria de Hélio Pisca. O som que emanou do braço tocando o prato era o que faltava para voz, instrumentos, olhos e sorrisos se fundirem de vez. Banda e plateia entraram em uma espécie de transe coletivo. Dizem que naquela madrugada até a maré subiu mais cedo para ouvir a música que saía do velho armazém e que balançava os navios do porto. 

Documentário aborda, sobretudo, a relação entre os membros da banda

Revivi essas lembranças, e tantas outras mais, sentado na cadeira do cine Arte Pajuçara – durante a sessão do filme “Eu Quero Tudo”, dirigido por Carla Rosset. Certamente Carla era uma das pessoas que assistiram à mágica apresentação de “O Circo Místico do Mopho”. Arrisco dizer que ela era uma das meninas da primeira fila, que gritava durante o início do show, pedindo para eles tocarem “A Geladeira”. Lembro de seu rosto em muitas das apresentações da banda no Orákulo, em frente à Praça Rayol, também no histórico Jaraguá.

O documentário aborda, sobretudo, a relação entre os membros do Mopho: vai da sintonia afetiva às microfonias ruidosas da convivência dentro e fora do palco. Nele, estão registrados detalhes da origem da banda, a chegada do som luminoso e elegante do teclado do Leonardo, bastidores da gravação do primeiro disco lendário pela Baratos Afins, a aventura de pegar a estrada para tocar em lugares distantes, quebras de sintonia, diferentes formações, reencontros, reconciliações e camadas pouco conhecidas de um som que ultrapassa os ouvidos. Tudo narrado por depoimentos de quem é parte dessa história.

Integrantes da banda e equipe de produção do filme na estreia no cine Arte Pajuçara
O bandleader: compositor, vocalista e guitarrista da banda João Paulo

Com “Eu Quero Tudo”, Carla Rosset faz uma justa homenagem a essa banda icônica e ao mesmo tempo contribui para a memória do rock psicodélico nacional. O filme é, também, um belo presente aos fãs do Mopho, que aguardam ansiosamente pelo próximo disco. Quando eles tocam, amigos se abraçam, jovens sonham em tocar guitarra, o casal apaixonado se beija no meio do salão, as pessoas dançam num lugar onde não há pecado e nem perdão.