Especial

Milton Nascimento traz as emoções da turnê 'Clube da Esquina'

Músico se apresenta em Maceió nessa sexta-feira (22) com as músicas dos álbuns que lançou em 1972 e 1978; leia entrevista exclusiva

21 de Novembro de 2019, 09:24

Sebage/ É músico e jornalista

Em janeiro de 2015, Milton Nascimento vinha a Maceió para um show na praça Multieventos, na orla da Pajuçara, como parte da programação de festival de verão organizado pelo município. Cancelou por motivos de saúde. Milton é uma rocha e está tudo bem com ele. Estrela maior da música brasileira, sem ele e Elis Regina a MPB nem existia – quer dizer, existia sim, com o Chico, Gil, Caetano. Mas provavelmente não teria essa sigla, MPB, inventada por Elis, ainda nos anos 1960, referindo-se aquela música feita por ela e Milton, Chico, Gil, o MPB-4. Nessa sexta-feira (22), às 21h, afinal, Milton se apresenta na capital, no Space Shopping, espaço no estacionamento do shopping Maceió. Vem trazendo aquilo que sabemos ser da natureza dele (simplesmente): beleza, poesia e muito som. A voz metálica sagrada de Milton Nascimento, minha mãe dizia que era o melhor cantor do país. Eu não conheço outro mais incrível, as letras repletas de imagens de amor ao próximo, ao povo, ao amigo, à mata, ao rio, aos peixes, ao mar, a Leila Diniz, a Dina Sfat, ao Brasil, às Minas Geraes, à África, ao jazz, ao Rio, a São Paulo, ao futebol, ao cinema, à Virgem, ao Cristo Redentor, ao teatro, a Elis Regina. O falsete irregular ao mesmo tempo cheio e firme, em canções emocionadas. “San Vicente”, “Cais”, “Dos Cruzes”, “O Que foi feito devera (De Vera), “Clube da Esquina 2”, “Canção da América” “Nos Bailes da Vida”. Existe artista maior? Na música brasileira? Fica aberta a discussão. Já vou dizendo, tem artistas como Paulinho da Viola, sim, e o Chico e o Gil. E o Raul Seixas. E Rita Lee.

'Muita saudade de Elis Regina', diz Milton

O showzaço da turnê “Clube da Esquina” por aqui será em grande estilo, com ingressos a R$ 80 e R$ 160, mesa para quatro (bebidas e comidinhas incluídas) a R$ 1.400 e camarote a R$ 200. Qualquer investimento está valendo. Há duas semanas enviei, via produtoras locais, Sue Chamusca e Silvana Valença, o que chamei de “perguntinhas singelas” e Milton respondeu no final de semana, como era de se esperar, carinhosamente. Mas falou pouco. Referi-me à crítica que fez, recentemente, ao establishment musical, à atual parada de sucessos da música brasileira, digamos assim, mas ele juntou meu comentário à pergunta seguinte e... Não respondeu. (Risos).

Comecei falando de Elis: ela e Milton sempre me pareceram indissolúveis – e continuam sendo para mim. Milton sempre lembrará Elis – e vice-versa. No final dos anos 1980, perguntei a ele numa coletiva em São Paulo (para a extinta Folha da Tarde), “saudade de Elis?”, ele me respondeu com tanta franqueza – e emocionado, claro –, disse que ela era tudo para ele, que sempre lhe mostrava as músicas novas, que só ficavam prontas depois que ela ouvia. Os deuses da música brasileira.

O 'clube da esquina' em algum lugar do passado

O álbum “Clube da Esquina”, que Milton gravou com Lô Borges em 1972 (e com Wagner Tiso, a banda Som Imaginário, a cantora Alaíde Costa), foi eleito pela revista Rolling Stone um dos 100 melhores discos de todos os tempos da música brasileira. Sem dúvida. No ano passado, “Clube da Esquina 2”, de 1978, com participação de Elis, inclusive, completou 40 anos. No repertório do show estão lá: “O Trem Azul”, “Cais”, “Cravo e Canela”, “Maria, Maria”, “Nada será como antes”, “Para Lennon e McCartney”.

Segue a entrevista.

Lembrando o disco de Elis Regina, saudade do Brasil?

Milton Nascimento – Saudades de Elis Regina, muita saudade.

A sensação é de que nós brasileiros progressistas e solidários às causas populares, estamos perdendo tudo o que conquistamos. Você, nesse momento, cantando “Clube da Esquina” é tão... Comovente. É como uma bênção.

Milton  Obrigado.

E depois da paulada na música do mainstream Brasil (risos), ouvi-lo cantar essas canções se torna mais significativo ainda. Nos últimos dez anos, você realizou trabalhos com Dudu Lima Trio, Jobim Trio e com os franceses Belmondo – com estes você falou que gravou o álbum “que mais teve choro”, inclusive o seu. Esses discos feitos com esses parceiros trazem lindas releituras de alguns clássicos seus e de outros compositores brasileiros. Por favor, fale um pouco dessas parcerias ao longo dessa década.

Milton  Eu tenho um sentimento de carinho e muita gratidão com todos os meus parceiros. Desde meus tempos de baile ainda em Três Pontas, no sul de Minas, onde fui criado, até os dias hoje. Cada parceiro que eu tive ao longo desses anos tem parte importante na minha vida, e esse laço de amizade para mim é o que mais importa.

Lionel e Stéphane Belmondo, saxofonista e trompetista 

E nessa turnê “Clube da Esquina”, teve muito choro? Vai ter o álbum ao vivo?

Milton  Tem sido uma das turnês mais importantes da minha carreira. Por onde a gente passa é só carinho de todo lado. E por enquanto ainda estamos aproveitando esse momento. Depois a gente pensa no futuro.

Algumas canções do “Clube da Esquina 1” trazem uma marca muito forte de outros artistas que participam delas, como Lô Borges (“Paisagem da Janela”), Alaíde Costa (“Me Deixe em Paz”). ‘Clube da esquina’ afinal é uma reunião de músicos e amigos. A presença de outros artistas continua na turnê 2019? Ou: A ausência deles traz outro formato para essas canções?

Milton  A gente pretende encerrar essa turnê com uma série de shows e vários convidados. Teremos desde meus parceiros mais antigos como Lô Borges e Wagner Tiso, passando por Samuel Rosa até Criolo. Promete ser emocionante.

Para mais informações sobre o show em Maceió, ligue (82) 3235 5301 ou envie mensagem para o whatsapp (82) 99928 8675. Acesse os produtores nas redes sociais, Facebook e no Instagram.