Especial

Escritoras e professoras lançam livro sobre o meio ambiente do ponto de vista das artes e das letras

'Literatura e Ecologia: trilhando Novos Caminhos críticos', de Izabel Brandão e Laureny Lourenço, reúne estudos sobre o tema desenvolvidos no grupo Mare&sal; volume pode ser encontrado no Campus Universitário da Ufal

25 de Novembro de 2019, 16:30

Da Redação

Izabel Brandão e Laureny Lourenço há mais de duas décadas realizam com o grupo Mare&sal uma série de projetos que incluem ecologia em seus estudos. Alguns desses trabalhos, coordenados por Izabel Brandão, com financiamento do Centro Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (o CNPq), têm sido desenvolvidos, segundo a escritora, “com formação de iniciação científica, de mestrado e também de doutorado”. Esses projetos realizados na área de estudos literários, junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), recebendo bolsa de produtividade em pesquisa, acabaram virando livro. O volume “Literatura e Ecologia: trilhando Novos Caminhos críticos” (Edufal), organizado por Izabel e Laureny Lourenço, foi lançado este mês durante a Bienal Internacional do Livro de Alagoas e pode ser adquirido na sede da editora da Ufal, no campus da Cidade Universitária.

“O livro em si, submetido ao edital da Edufal para a Bienal 2019, não levou muito tempo para ser organizado, mas o trabalho de pesquisa que encaminhou tudo tem uma história mais longa”, explica Izabel Brandão, poeta e doutora em literatura inglesa. “O projeto que gerou o livro desta bienal, “Diálogos e intersecções da (eco)crítica feminista em obras de autoras contemporâneas”, ele foi aprovado para financiamento pelo CNPq em 2018, tendo já gerado vários artigos, alguns publicados no exterior, e vários estudos junto ao grupo de pesquisa e em disciplinas do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Ufal.”

Segundo a autora, todo esse trabalho que começou nas reuniões do grupo Mare&sal “promove não apenas o aprofundamento dos estudos sobre a relação ecologia e literatura, mas principalmente nos ensina que a pesquisa na universidade é relevante para entendermos a conexão do conhecimento científico com a cadeia de significados que o mundo tem, seja nas chamadas hard sciences seja nas soft sciences”. Entre ciência pesada e ciência suave, Izabel afirma que ambas não podem prescindir "de que todos somos natureza e que tudo está nela interconectado”. “Não poderia ser diferente com a literatura, desde o uso do papel para impressão do livro material, que tende a desaparecer, até o sujeito que pesquisa determinado assunto ali presente.”

Izabel Brandão: 'Momento de difícil contorno para a humanidade'

Ex Ufal, Laureny Lourenço atualmente compõe o quadro de professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Entrevistamos Izabel Brandão, com três livros de poesia no currículo e ainda um pós-doutorado em letras e artes na UFMG. Acompanhe

De que fala objetivamente o livro? E afinal vocês são organizadoras e escritoras? Ou sendo apenas organizadoras, de quem são os textos?

Izabel Brandão –Estamos muito felizes com o livro, porque, ele traduz nosso pensamento de pesquisa e, respeitando escolhas individuais de cada colaboradora (ou colaborador), fizemos um livro que apresenta uma riqueza crítica capaz de mostrar o alcance do contexto ecológico em autoras brasileiras e estrangeiras – desde a poeta alagoana Arriete Vilela a outras brasileiras, como Adélia Prado, Helena Parente Cunha, Hilda Hilst –, e estrangeiras como a romancista nicaraguense Gioconda Belli e as poetas Grace Nichols, Sónia Sultuane, a primeira caribenha e a segunda moçambicana, além da instapoeta indiano-canadense rupi kaur (minúsculas mesmo). Dois autores, um brasileiro, o dramaturgo pernambucano Luís Jardim e um estrangeiro, o romancista estadunidense Cormac McCarthy também são contemplados.

Como esse trabalho foi desenvolvido?

Izabel – Nossas coautoras e coautores fizeram um trabalho exemplar de análise sobre a temática ecológica a partir de estudos ecocríticos e feministas que leem o texto literário a partir do que ele oferece em suas interconexões com a natureza. Os capítulos foram escritos por colaboradores da Ufal, Ifal, UFRPE, UFMG e da University of Bath-Spa, no Reino Unido – nós, organizadoras, Izabel Brandão e Laureny Lourenço, e Edilane Ferreira da Silva, Elaine Rapôso, Alice Veras Costa, Letícia Romariz, Magna Falcão, Bruna Wanderley Pereira, Sávio Roberto Fonseca de Freitas, Terry Gifford (em tradução de Raquel D’Elboux Couto Nunes) e Duvennie Rubia Souza Pessôa. E aqui podemos dizer que a novidade da abordagem não é um modismo, como se poderia pensar.

Bem, as preocupações ecológicas estão na ordem do dia.

Izabel – Sim, claro, nem é preciso ir muito longe para ver que estamos vivendo um momento de difícil contorno para a humanidade, não apenas pelo desrespeito à natureza com tudo que existe nela, nós incluídos, e o contexto de estudos literários também se insere aí, não pode ficar de fora como se as Letras fossem um Olimpo onde os deuses se refugiam sem misturar-se com os mortais. A natureza se mostra em cada autora/autor a partir daquilo que oferece em sua narrativa – nos desertos reais da paisagem física ou nos desertos interiores, nos corpos que sofrem violências físicas, psíquicas, incluindo as sócio-culturais, na visão espiritual que inclui (ou exclui) uma relação com o divino e nas derivações que transformam mitos antigos em situações contemporâneas de exploração no contexto de gênero, nas questões políticas que mostram como o ser (humano, não-humano e mais-que-humano) ainda precisa crescer muito. A natureza somos nós, mas nós nem sempre acatamos isso, porque a olhamos como se fôssemos superiores a ela, para dominá-la e, como estamos vendo no cotidiano brasileiro de agora, destruí-la como se isso não nos dissesse respeito. O livro trata disso numa perspectiva responsável, feminista e respeitosa com a ecologia. Traz estudos atuais sobre essa perspectiva renovadora da crítica literária.

Afinal, uma empreitada bem sucedida, já que o livro foi premiado pela Edufal.

Izabel – Participar do edital que selecionou os 25 livros para esta bienal 2019 foi um belo desafio. A árvore que plantamos no “Bosque Moçambique”, participando da Bienal Sustentável, na Ufal, foi um momento muito significativo para nós. A semente de “algodão de praia” plantada pelo nosso livro, quando floresce revela uma linda flor amarela e sua folha tem o formato de coração. Esperamos que o nosso livro floresça também nas ideias sustentáveis e produtivas para a crítica literária e para o público leitor de outras áreas que gostam de literatura.