Especial

'Pepitas populares' apresenta obras de arte e de marcenaria 'autoral' da coleção do cineasta Celso Brandão

Exposição que será inaugurada nesta quinta-feira (19), às 19h, no Museu Théo Brandão, na região central de Maceió, faz um recorte do trabalho realizado por artistas do interior de Alagoas e Sergipe

19 de Dezembro de 2019, 16:31

Sebage/ Editor

Integrando o evento “Natal na Avenida da Paz”, estreia nesta quinta-feira (19) em Maceió a exposição “Pepitas populares – Coleção Celso Brandão”. Composta de esculturas, pinturas e mobília feitas por artistas e marceneiros do interior de Alagoas, a coleção reunida pelo fotógrafo, cineasta e professor aposentado da Ufal faz um recorte da arte popular alagoana (que não raro se estende até Sergipe). A irrecusável mostra – cuja curadoria foi delegada à museóloga e amiga do expositor Carmen Lúcia Dantas – apresenta o trabalho prodigioso de famosos artistas do passado, como os escultores e marceneiros autorais Manoel da Marinheira (Boca da Mata, 1917-2012) e Fernando Rodrigues (Pão de Açúcar, 1928-2009), e do presente, como Nem, igualmente marceneiro e escultor, que construiu uma árvore para o projeto “Natal na Avenida da Paz”, que está à frente do Museu Théo Brandão (Avenida da Paz, 1.490), que por sua vez abriga a exposição de Celso Brandão até 29 de fevereiro. O vernissage começa às 19h.

Peças da coleção e fotos feitas por Brandão compõem a exposição

Além das legendárias obras de Marinheira e Rodrigues e das surpreendentes cadeiras de Nem, povoam os espaços da pinacoteca – e até o auditório do museu – trabalhos de grandes artistas de ontem e de hoje, nascidos no Sertão e em cidades do Baixo São Francisco. São eles: Aberaldo, Antônio de Dedé, Clemilton, Maurício, Veio, Vicente Ferreira e Zé do Chalé.

“Como é muito difícil, curar o que é seu, quando o museu me convidou, imediatamente pensei na Carmen”, explica Celso Brandão. “Condicionei a exposição à participação dela. Ela conhece bastante minha coleção. De certa forma participou da construção dela. Nas viagens que fiz pelo museu, para o interior, nos anos 1970 [Carmen Lúcia Dantas dirigiu o Museu Théo Brandão em duas ocasiões, entre 1978 e 1989 e entre 1998 e 2002], fomos encontrando esses artistas em meio a um campo muito vasto – eles eram desconhecidos, desvalorizados. O nome que pensamos inicialmente, ‘Agulha no Palheiro’, refere-se a isso.”

Fernando Rodrigues: referência de arte popular  Foto/ C. Brandão

Brandão considera essa garimpagem por cidades sertanejas e ribeirinhas “um trabalho de introspecção”. “Procuramos fazer um recorte, privilegiando os artistas que foram descobertos nessas viagens, ou que foram impulsionados por mim, como Manoel da Marinheira. Conheci o trabalho dele na casa do [artista visual e músico] Fernando Lopes [São Miguel dos Campos, 1936-2011]. Ele também era colecionador. Tomei um susto com uma onça sob a mesa, em posição de bote, na casa dele em São Miguel. Daí surgiu uma amizade com o Manoel, fiz um filme super-8, em 1978 ou 79, ‘Na Boca da Mata’, deve ter sido exibido no Festival de Penedo. Outro artista que faz parte dessa trajetória é o Zé do Chalé [Neópolis, SE, 1903-2008]. Numa aldeia xocó encontrei uma peça dele jogada no chão, destruída – as crianças brincando com ela. Ele era sogro do pajé e morava em Aracaju, já tinha 99 anos. Isso foi no início dos anos 2000. Zé do Chalé morreu com 105 anos, trabalhando – ele não parava, era um fenômeno. Bonequeiro, filho de uma índia xocó e um alagoano que tinha um bananal em Penedo.”

Carmen Lúcia e Celso Brandão: parceiros de garimpagem no Sertão e Baixo São Francisco
Mirna Porto em cadeira de Nem: criadora do 'Natal na Avenida da Paz'

São muitas histórias e a excelência de uma arte que, a partir desta noite, dará um significado extra ao formidável monumento cultural que é o Museu Théo Brandão. “Fiz um documentário sobre o Zé do Chalé, cuja versão menor deve ser exibida na exposição – eu tenho três versões, longa, média, curta. Fernando Rodrigues foi outro que encontrei por acaso, na Ilha do Ferro [povoado às margens do São Francisco, no município de Pão de Açúcar], em 1992. Também uma viagem que fiz pelo museu, com a Carmen. Fomos ver o bordado boa noite, e então o conheci em seu Bar Redondo, cuja mobília fora toda criada por ele. Era sensacional, foi meu grande impacto com a Ilha do Ferro. Depois vieram os outros artistas, que frequentava o bar, que era contíguo ao ateliê de Fernando, tornando-se ponto de encontro de todos que trabalhavam com madeira no povoado.”

Carmen Lúcia Dantas conta que “o tempo que Celso passou trabalhando no museu viajava muito para fazer fotografia”. “E nesse período que se estendeu até 40 anos, ele trazia muitos presentes. Via alguma coisa interessante para o acervo, comprava e trazia. Daí sua ligação com o museu, uma ligação ativa. Depois começou a fazer a coleção particular dele. Saiu do museu, foi ensinar na universidade, deixou a universidade e continuou com a sua coleção pessoal.”

A exposição pode ser visitada, gratuitamente, de terça a sexta-feira, das 9h às 17h, e aos sábados das 12h às 17h. Para mais informações, ligue (82) 3214 1716.