Lugares

Pelo vento

'Na praia, ainda vazia de gente e de luminosidade solar, ouvimos o estrondo que lembrava trovoada; Diego ou Gabriel, não recordo agora quem, cogitou se tratar da presença de um caminhão de lixo amassando tonéis metálicos'

06 de Janeiro de 2020, 15:38

Lúcio Verçoza/ Especial para o Alagoas Boreal

Despertamos com os besouros, empurrados pelo vento terral da madrugada. Uma presilha no cabelo da sonolenta cobradora de ônibus anunciava que o dia seria bom. Na época, era essa nossa forma de prever o dia, pelo cabelo da cobradora. Não lembro bem se foi isso, na verdade pode ter sido o relato do Gabriel sobre a condição da Pedra Virada na tarde anterior. Eram essas nossas formas de prever o dia, numa época sem celulares ou Google.

Na praia, ainda vazia de gente e de luminosidade solar, ouvimos o estrondo que lembrava trovoada. Diego ou Gabriel, não recordo agora quem, cogitou se tratar da presença de um caminhão de lixo amassando tonéis metálicos. Não sei de onde foi extraído tal pensamento. A questão é que ainda não conseguíamos ver o mar, mas o barulho anunciava o que viria. Tínhamos sentimentos ambivalentes, olhos arregalados e sorriso estranho. Um misto de medo e entusiasmo extremo. Talvez a imagem do lixo esmagado expressasse o que não queríamos nos sentir.

'Varamos a arrebentação com os primeiros raios de sol'/ Foto/ Lúcio Verçoza

Varamos a arrebentação com os primeiros raios de sol. Nunca havíamos presenciado algo parecido: ondas com tamanho e força de afogar peixes e quebrar ouriços, com colorido que oscilava entre esmeralda e madrepérola, com tubos capazes de abrigar jangada com a vela aberta. Sabíamos que aquele dia seria único. Muito mais único do que qualquer outro dia único de aula de matemática, moral e cívica ou qualquer outra forma de monotonia. Aquela combinação de vento, maré, fundo de areia e swell de ciclone não se repetiria. Poderíamos repetir o ano na escola, mas aquele dia jamais se repetiria.

Na maior da série, a remada com a força do impossível. A crista da onda se armando em forma de lágrimas junto com os besouros desorientados no mar. A prancha com o bico virado para a parte crítica. A crista, formando véu de gotas, desce em câmera lenta. A prancha com bico apontando para baixo. O último impulso com o braço e com todos os fios de cabelo do corpo. A descida junto com a crista. Uma mistura de câmera lenta com alta velocidade. Os sentidos aguçados. Uma libélula beija a gota flutuante modelada pelo terral. É possível sentir o cheiro dela. A cavada suave na base da onda. Uma longa parede de água se forma. Deslizando por ela, o corpo é parte do mar, do ciclone e da libélula. Quando o tubo se forma, não há mais parede, porta, gritos, tempo, pensamento, pedidos de misericórdia. Simplesmente fazemos parte do todo. Não sabemos, simplesmente fazemos.

'Sentimentos ambivalentes, olhos arregalados e sorriso estranho'/ Foto/ Gabriel Silveira

Ainda hoje, quando sopra o terral, nos agitamos. Ficamos agitados como os caranguejos andarilhos ao som da trovoada. Como as tanajuras com asas nas chuvas que antecedem o São João. Enquanto a cidade dorme, nós observamos a direção do vento. Como besouros da restinga costeira, somos levados ao mar pelo vento.