Especial

Destino incorreto dos resíduos sólidos pode levar capital alagoana a uma situação de calamidade

Capital produz mensalmente quase duas mil toneladas de resíduos sólidos; apenas 20 toneladas chegam à cooperativa de reciclagem

27 de Julho de 2018, 13:36

 
Um dos maiores problemas enfrentados atualmente pela sociedade é o destino dado aos quase dois milhões de toneladas de resíduos sólidos produzidos diariamente no planeta. Em apenas um ano, são jogados no meio ambiente – a maior parte de forma incorreta – cerca de 730 milhões de toneladas. Maceió é uma das menores capitais do país. Possui área total de 510 mil 655 km² e tem, segundo dados do IBGE em 2013, 996 mil 736 habitantes. Apesar do tamanho reduzido, produz por mês, em média, um mil 750 toneladas de lixo. Desse total, apenas cerca de 20 toneladas chegam à Cooperativa dos Catadores e Reciclagem de Lixo (Coprel), segundo Maria José Lins, a presidente da cooperativa que existe desde 2001.
 
A condição socioeconômica está diretamente relacionada ao descarte de resíduos. A América do Norte e os países ocidentais da Europa, juntos, produzem mais da metade (56%) do lixo mundial. No Brasil, que gera cerca de 150 mil toneladas diárias, os programas de educação ambiental e coleta seletiva existem, mas não são eficientes. No mínimo, 52,8% dos resíduos descartados são depositados de forma inadequada, já que é destinado a lixões e aterros sanitários. Dos municípios brasileiros, 63,6% deles – ou seja, três mil 502 municípios – destinam os resíduos que produzem a lixões.  
 
Maria José Lins: 'O que mais vejo são garrafas pet e latinhas vazias jogadas na rua'
“O grande problema é que as pessoas não dão o destino correto ao lixo”, diz Maria José. “Eu ando pelas ruas da cidade e o que mais vejo são garrafas pet jogadas na rua e latinhas de aço vazias fora dos lixeiros. Imagine se todo esse material descartado chegasse à cooperativa? A cidade seria mais limpa e o aterro sanitário seria mais eficiente.”
 
Lucro e sustentabilidade 
 
E não somente a Natureza sai ganhando. No Brasil, anualmente, são desperdiçados R$ 4 bilhões 600 milhões por falta de reaproveitamento. O material reciclável está diretamente ligado à renda dos catadores. Das famílias que hoje compõem a cooperativa, 17 são os catadores do antigo lixão de Cruz das Almas, que foi desativado, dando lugar ao atual aterro sanitário. “Em um mês trabalhando no lixão, eu consegui R$ 5. Mesmo com a cooperativa já formada, nos primeiros meses o dinheiro ainda era pouco. Cerca de R$ 15. Hoje ganho, em média, R$ 400, R$ 450.” 
 
À altura do km 88 da BR-104, no município de Rio Largo (a 27 km de Maceió), está instalada a fábrica de beneficiamento Clodax, que é integrante do grupo paulista Clodan, atraído a Alagoas pelos incentivos oferecidos pelo governo do Estado. Apesar de ter um cliente de peso, a Interlândia Ltda, que produz a agua sanitária Dragão, a empresa terá de importar matéria-prima. Os depósitos alagoanos oferecem material apenas para o funcionamento de 40% da capacidade da fábrica. Os outros 60% devem ser comprados de outros Estados, como a Bahia. Criar uma infraestrutura eficiente e funcional é um dos objetivos da empresa, que, trabalhando com o beneficiamento dos resíduos plásticos, torna-se o último elo da cadeia de reciclagem.
 
A realidade dos bairros de Maceió
 
O terreno onde hoje atua a Coprel foi cedido pela prefeitura da capital, juntamente com dois caminhões. É pouco. Somente os bairros da parte baixa da cidade, como Jaraguá, Ponta Verde e Jatiúca, são beneficiados pela coleta seletiva. Alguns da parte alta (Farol, Gruta) também integram a lista. Bairros mais distantes – como Benedito Bentes, que concentra um terço da população de Maceió –, não são atendidos pela cooperativa. 
 
“O que podemos observar é que até o lixo produzido nos bairros da cidade é diferenciado”, afirmou Josileide Gomes, coordenadora de educação ambiental do Instituto Lagoa Viva, que promove ações de conscientização ambiental em 41 municípios alagoano. “Nos chamados ‘bairros nobres’ é mais comum encontrarmos o lixo eletrônico, que são peças de computadores, celulares, baterias... Já nos bairros mais pobres, predomina o lixo orgânico.” 
Riacho do Salgadinho, no bairro do Poço: sujeira sem coleta
 
Em Maceió existe até uma empresa, a Socorro Ambiental, que recolhe o lixo eletrônico em domicílio, mas é, de resto, insuficiente para suprir a demanda. 
 
Faltam investimentos da prefeitura
 
Tanto a coordenadora do Instituto Lagoa Viva, Josileide Gomes, quanto a presidente da Coprel, Maria José Lins, concordam que para a coleta seletiva funcionar é necessário que a população seja educada para as questões ambientais. É preciso também que a prefeitura invista mais. Em 2012 foram destinados à Superintendência de Limpeza Urbana (Slum) R$ 155 milhões 200 mil, mais até do que recebeu a Secretaria de Segurança Comunitária, R$ 3 milhões. Mesmo assim, nossas ruas sofrem tanto com a ineficiência da limpeza urbana quanto com a falta de segurança.