Especial

Paradas desde 2009, obras de urbanização do Vale do Reginaldo são retomadas pela prefeitura

Projeto prevê vias de acesso para a parte alta da cidade, construção de creches, escolas e novos apartamentos

27 de Julho de 2018, 13:36

O Reginaldo está em obras. No final do mês passado, o prefeito Rui Palmeira assinou a ordem de serviço que dá continuidade ao processo de urbanização do vale, que havia sido interrompido em 2009. Desde a autorização do prefeito, as máquinas ainda levaram uma semana para chegar ao logradouro que faz vizinhança com os bairros do Poço, Farol e Jacintinho. Mas, finalmente, para uma alegria desconfiada da comunidade, o trabalho inicial de limpeza dos locais onde se construirão as obras começou. O projeto da prefeitura inclui construção de pontes e passagens de nível, saneamento e drenagem. As áreas habitacionais, entretanto, são de responsabilidade do governo estadual e estas ainda se encontram em processo de “relicitação”, segundo informou o assessor de comunicação da Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinfra), Jadson Santos. 

Orçado em R$ 120 milhões, o Projeto Integrado de Urbanização do Vale do Reginaldo foi criado em 2008, através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e interrompido em novembro de 2010, segundo a Seinfra, para que a Caixa Econômica aprovasse ajustes técnicos no projeto inicial. Das obras de saneamento, então realizadas pela prefeitura, restaram apenas canos de cimento que o mato já tomou conta. O acúmulo de materiais transformou o lugar em um lixão ao céu aberto. Já os prédios abandonados, cujo projeto, de responsabilidade do governo estadual, entregou apenas 180 dos 1.512 apartamentos prometidos, foram tomados pela bandidagem, por drogados e sem-teto. Da creche que estava quase pronta para ser entregue à população, sobrou apenas a estrutura de concreto e tijolos quebrados. Com o abandono das obras, portas, janelas, telhas e fios elétricos, tudo foi roubado. 

Prédios roubados e abandonados servem à criminalidade

A ocupação do vale começou com a seca de 1950 que atingiu fortemente o sertão alagoano, aumentado o fluxo migratório e a ocupação informal da capital. Áreas ambientalmente frágeis, como vales e encostas, atraíram famílias de baixa renda que saíam do interior fugindo da estiagem. O Vale do Reginaldo é um dos vários casos de ocupação caracterizada pela total ausência de infraestrutura. Uma das primeiras comunidades a surgir no local foi o conjunto Fraternidade, com terreno foi doado pela arquidiocese de Maceió. Na época, Dom Miguel Fenelon Câmara Filho, arcebispo emérito da capital, incentivou os moradores a erguerem as primeiras casas – 44 no total. Com o projeto de urbanização em andamento, algumas das casas foram demolidas para dar lugar às obras.  Os moradores que não tiveram a sorte de receber um dos 180 apartamentos que afinal ficaram prontos, acabaram ficando sem casa, recebendo o que a Seinfra chama de “aluguel social”. Este aluguel, segundo os moradores, é um problema, pois não é depositado regularmente nas contas bancárias, sendo necessário o deslocamento até a secretaria para receber o dinheiro. 

“Nos primeiros meses, a Seinfra depositava o dinheiro certinho. Agora temos de ir até a sede, que fica no centro da cidade, para cobrar o que é nosso por direito”, desabafa Maria Aparecida da Silva, de 59 anos. A artesão, que se divide entre o trabalho na oficina e os cuidados com a neta, é um dos muitos moradores a reclamar do “descaso” a que foi submetida a comunidade do vale. 

A espera

A primeira possibilidade de intervenção no Vale do Reginaldo surgiu com a implementação do Plano Diretor de Transporte Urbano de Maceió, em 1982. A proposta consistia na criação de um eixo viário na região com o intuito de melhorar as vias de acesso da parte baixa da cidade – como os bairros do Poço e Jaraguá –, conectando-a a parte alta da cidade, o que beneficiaria os bairros do Farol, Barro Duro e Tabuleiro do Martins. Nos planos originais da década de 1980, o objetivo final era tão somente a construção do eixo viário, com rodovias e passagens de níveis. Em 2008, entretanto, vieram os projetos de urbanização prevendo a construção de conjuntos habitacionais, mas estes foram interrompidos em 2009, gerando descontentamento na comunidade que se viu privada do sonho da casa própria. De resto, a criminalidade aumentou na proporção do abandono das obras por parte das autoridades.

A aposentada Maria Arlete da Silva, 65, é uma das moradoras que deveria receber a chave do apartamento prometido pelo governo estadual. Ao invés disso, ela paga aluguel de R$ 300 ao proprietário de um desses 180 apartamentos que já não mora no Reginaldo. “Fui uma das contempladas pela obra, mas até agora não vi nada além de construções abandonadas”, desabafa. Pela janela da sala, ela vê, ao fundo do vale, a estrutura aparente das vigas de ferro e do concreto gasto pelo tempo no prédio que deveria estar morando.

Apartamentos que ficaram prontos têm infiltrações e outros problemas estruturais

Mesmo quem já recebeu o apartamento reclama das obras. Um dos integrantes da Associação dos Moradores do Vale do Reginaldo, Marco Antônio Alves, de 37 anos, mostra os apartamentos com vazamentos, rachaduras e infiltrações. Alves destaca também que faltam extintores de incêndio nos condomínios. “Que deus me livre de acontecer um incêndio. Como é que a gente vai apagar?” Faz duas semanas que a comunidade tenta contato com a prefeitura para consertar o vazamento dos esgotos, que deixa um cheiro nauseabundo em toda localidade. 

A situação hoje

Na ocasião em que o prefeito Rui Palmeira assinou a ordem de serviço, o líder comunitário Antônio de Lima, conhecido como Fuscão, esteve presente à cerimônia. Observou a ausência de representantes do governo estadual e da Caixa Econômica. “Algumas casas foram desapropriadas por causa das obras”, diz Fuscão. “Mais de 80 famílias hoje recebem o seguro social.” 

De acordo com o assessor de comunicação da Seinfra, Jadson Santos, a falta de comunicação entre o governo do Estado e a prefeitura foi um dos grandes empecilhos para a conclusão das obras, à época. “Devido à complexidade do projeto, era necessário que os dois órgãos trabalhassem juntos. Quando eram feitas alterações em um dos projetos, os outros eram afetados.” 

Segundo o assessor, a Caixa Econômica não liberou os recursos porque os projetos não estavam dentro dos padrões exigidos. Assim que terminar o processo licitatório, a estimativa é de que as obras sejam iniciadas para conclusão, enfim, num prazo de 12 meses.

Enquanto aguardam a retomada das obras, o clima é de incerteza no bom e velho Reginaldo. “Foram tantas as promessas e projetos, que hoje quando olhamos para este lugar abandonado nos sentimos esquecidos”, desabafa a cozinheira Roseane Vieira, de 32 anos.