Especial

'Xangô rezado Alto' chega à terceira edição, relembrando o 'quebra de 2012', que fechou terreiros de candomblé

Cortejo e apresentações artísticas de grupos culturais e religiosos afrodescendentes ocorreram no centro de Maceió, nesta sexta-feira (31)

27 de Julho de 2018, 13:36

Depois de uma concentração que se iniciou às 14h desta sexta-feira (31), na praça Dom Pedro 2o, o cortejo do evento “Xangô rezado Alto” cumpriu um percurso pela rua João Pessoa até a praça dos Martírios, no centro de Maceió, onde o mestre de cerimônia, o cantor Igbonan Rocha, fez as apresentações, afirmando num breve discurso que a violência cometida contra o “povo de santo” em 1912 teve repercussão, deixando a comunidade negra na “invisibilidade”. Informando que em Alagoas existem dois mil terreiros de candomblé, Rocha chamou em seguida às autoridades ao palco – Vinicius Palmeira, presidente da Fundação Municipal de Ação Cultural, que organiza o evento a partir desta terceira edição; a mestra religiosa yalorixá iabinan Mirian Araújo; o reitor Jairo Campos, da Universidade Estadual de Alagoas, que criou o evento há dois anos –, dando início a uma série de apresentações culturais.

Antes das atrações, mãe Mirian fez lembrar de Tia Marcelina, mãe de santo chamada de “feiticeira” naqueles anos 1900 e 1910, quando então o governador e oligarca Euclides Malta foi taxado de “macumbeiro”, numa série de prenúncios, invencionices (notas do extinto Jornal de Alagoas) e acontecimentos que culminaram no fatídico 1o de fevereiro de 1912, com a Liga dos Republicanos Combatentes invadindo as casas de Xangô, destruindo as imagens e objetos sagrados e batendo em sacerdotes, incluído Tia Marcelina, emblemática personagem desse conflito, supostamente morta “a golpes de sabre” – ou “a chutes”, por um policial. 

Vinícius Palmeira, Jairo Campos e Mirian Araújo fizeram discursos

Vinicius Palmeira saldou o público e as crianças do grupo Batuquerê, “em nome do prefeito Rui Palmeira”, dizendo que há quatro anos, 8 de dezembro, "dia de Iemanjá”, um grupo bem maior do que aquele que estava ali à praça (cerca de 300 pessoas no início das celebrações) "fora escorraçado das praias". Em seguida, reportou-se ao fato histórico do “quebra de 1912”.

“Essa perseguição também ocorreu na Bahia, no Rio de Janeiro e em Pernambuco, mas aqui teve características diferentes: a nossa foi a única que derrubou um governador, Euclides Malta, que era adepto dos cultos”, afirmou Palmeira, dizendo que "hoje a coisa mudou”.

Mônica Carvalho: 'Nós é que devemos nos apropriar do Xangô Rezado Alto'

O reitor Jairo Campos afirmou que “a História foi construída em cima do lombo do povo negro e do povo indígena” e fez mais homenagens: “É preciso reverenciar aquele que foi secretário de cultura do município, Marcial Lima [1944-2011], que bem antes do professor Edson Bezerra nos apresentar o projeto do 'Xangô rezado Alto', em 2012, ele já havia se envolvido com a causa dos pequenos”.

Foi um início de celebrações em tarde ensolarada com o batuque inspirado dos meninos e meninas do Batuquerê, seguidos pela vibração do coletivo AfroCaeté. Antes da apresentação do AfroCaeté, a yalorixá Mônica Carvalho, da casa Ilê Axé Legionirê de Xoroquê, atriz e filha do escritor, antropólogo e historiador Luiz Sávio de Almeida, encerrou os discursos dizendo que a prefeitura "começou a enxergar" os movimentos de cultura e religião afrodescendentes. “Timidamente, mas começou”, posicionou-se Mônica, afirmando que o governo federal “não entendeu que as comunidades negras devem ser o alvo de projetos como o Juventude Viva”. 

“O negro continua sendo desrespeitado pela TV aberta”, continuou a yalorixá. “Eu peço licença ao reitor Jairo Campos, que disse ter passado o bastão da organização do ‘Xangô rezado Alto’ à Fmac, para dizer que nós é que devemos nos apropriar do evento e apresentar à prefeitura o projeto das nossas ações.”