Especial

Wilma Araújo continua trabalhando fora de casa, enquanto aprende a tocar violão com o marido sambista

Marcus Vinícius é parceiro da cantora, também, nos vídeos que estão gravando para o Facebook; 'eu vou apanhar um pouquinho mas vou fazer uma live', diz a artista

05 de Maio de 2020, 09:11

Sebage/ Editor

Nesses dias de quarentena – que se alongarão sabe deus até quando –, precisa-se ser criativo para seguir vivendo e realizando as coisas. A cantora e compositora Wilma Araújo tem dois trabalhos: o de artista e outro na função de caixa numa agência da Caixa Econômica na capital.

Então, infelizmente, ela não está, durante todo o dia – são seis horas lá fora labutando e enfrentando o vírus –, em casa, cumprindo as regras de distanciamento social. Voltando do trabalho, curte fazer umas fotos (de dentro do carro mesmo) na orla da Ponta Verde. E publica tudo no Facebook. Apesar de todo esse aperreio de novos hábitos por conta da pandemia do coronavírus – nem vamos falar de medo e inseguranças –, Wilma é uma mulher de alto astral, casada com o músico Marcus Vinicius, que, este sim, está em casa.

Aprendendo a tocar violão e gravando vídeos para o Facebook

“Moramos só nós dois, eu e Marcão. Nesses dias da quarentena a rotina foi diferente, porque a gente sempre recebe aqui meus enteados, que são os filhos de Marcão, mas que nesse momento estão com a mãe”, conta Wilma em áudios do Whatsapp.

Com essa reportagem, estamos dando início a uma série, “Entrevistas de Quarentena”, que mostrará como o pessoal que faz cultura no Estado, que apoia a cultura ou simplesmente é apaixonado por música, teatro, artes visuais etc., está se virando no dia a dia, vivendo novas emoções.

“Porque é cada um na sua casa mesmo, né, assim, a parte maior que eles [os filhos de Marcus Vinícius] ficam é com a mãe”, Wilma vai falando do seu cotidiano, antes e depois do isolamento. “Também [estou] sem uma menina que me ajuda semanalmente. Eu tenho algumas dificuldades com os braços, tenho dores em ombros, cotovelo, por conta de muitos anos de digitação. No começo foi bem sofrido, agora já estou adaptada à rotina da faxina, de passar ferro, de lavar... Enfim, as coisas de casa.”

'Encontrei essa foto... Passando ferro, rs'

Quanto a atender clientes num caixa de banco, diz que esse “é outro trabalho”. “Porque cantar é prazeroso e maravilhoso, é para mim um trabalho que eu amo demais. Nesse meu outro trabalho – eu sempre quis trabalhar no caixa, porque é uma função que no dia seguinte não tem nada do trabalho que ficou, do dia anterior – é sempre um novo dia, né. Apesar de ser serviço, a princípio, rotineiro, desde que cheguei, foi essa função que sempre quis. Trabalho lá seis horas, passo parte da manhã e a maior parte da tarde.”

A voz de Wilma Araújo tem um timbre delicado (doce), ao mesmo tempo firme e seguro. É muito afinada, é uma das grandes cantoras de Alagoas e do Brasil. Como bancária, participa desde 1996 de um festival de música, o "Banco de Talentos", realizado em São Paulo, capital, com artistas das agências da Caixa Econômica de vários Estados do país. Wilma é convidada todos os anos, as apresentações acontecem em grandes casas de shows paulistanas, como a Tom Brasil, a Citibank. Semana passada, deu uma canja, junto com Marcus Vinícius, numa das lindas e frequentes lives da sambista fluminense Teresa Cristina. Wilma se diz “tímida” para isso – para fazer lives. “Não tenho essa habilidade de ficar cantando e olhando no celular.”

Marcus Vinícius e Wilma apresentam canções de MPB nos vídeos #quaseumalive

Mas está fazendo um voz e violão, com Vinícius, numa série de vídeos postados no Facebook. As canções são as do repertório de MBP de Wilma e outras composições de colegas alagoanos. “As gravações das músicas com Marcão, num primeiro momento me ocorreu a vontade de fazer isso porque quando a gente começou a nossa vida, eu e ele, era violão e voz. Muitas vezes a gente ainda toca hoje, leva um baterista pra fazer como a gente fez na abertura do show do Milton Nascimento. Levo uma sanfona às vezes, então fica violão, sanfona e voz. Leva um instrumento de sopro também. Ou só mesmo violão e voz. E como a gente está em casa, fomos tocando canções que eu, depois as pessoas começaram a pedir, eu fui adicionando, mas na maioria são canções que eu amo ouvir, e fazem parte do meu repertório de MPB que foi o meu começo de vida.”

Wilma Araújo tem muita história, Seu terceiro álbum, “Feliz de Quem se dá por inteiro”, foi lançado em 2014. Ótima produção, composições suas, outras de amigos a começar pela canção-título, assinada por Júnior Almeida. E o videoclipe da faixa “Ó do Bobó”, com mais de 15 mil visualizações, é um dos trunfos da cantora, que, bem, ela não é tão tímida assim.

“A gente resolveu gravar esses vídeos ainda no começo das minhas férias”, explica a artista, pelos áudios do zap. “Mas as minhas férias coincidiram com a quarentena. Estávamos em Pipa [litoral do Rio Grande do Norte], a ideia era gravar lá muitas vezes – só que acabou que a gente aproveitou pra descansar, pra curtir, eu vinha de uma correria... Quando voltamos já foi na quarentena total, e aí resolvemos ir fazendo os vídeos com a intenção de ser quase uma live. Por isso que botávamos a #quaseumalive (risos). Eu sou muito tímida, pode não parecer, mas não tenho muito essa habilidade de ficar cantando, olhando pro celular, computador... Eu vou apanhar um pouquinho mas vou fazer uma live. Agora que estou com seguidores numa quantidade solicitada pelo YouTube, né, aí eu vou fazer minha live, viu.”

O videoclipe de 'Ó do Bobó', da Panan Filmes, tem mais de 15 mil visualizações no YouTube

Antes e depois da pandemia. “Meus planos antes era ir a Pipa – eu e Marcos ficamos lá cinco dias – e na volta passava uma semana aqui, porque eu tinha dois shows marcados, e depois dos shows iria pra Portugal passar dez dias lá com uma amiga. Tínhamos intenção de bater perna nós duas, talvez ir à França, rapidinho, essas coisas assim, duas mulheres juntas, muita coisa pra conversar, né, assim. Mas aí não deu certo e então me adequei ao que tinha de fazer. Os afazeres domésticos tomam muito tempo. Queria aprender uma língua, eu estava me devendo isso, então baixei um aplicativo e estou aprendendo francês. Outra coisa era aprender violão. É isso, estou na luta.”

Nesse período de quarentena, foi convidada por uma amiga para fazer meditação. “Era uma coisa que eu tinha vontade. Mas é um lance mais informal, a gente fica mais à vontade. Tem me feito muito bem, também.”