Cultura

Dando uma pausa nos agitos culturais de Arapiraca, Igor Machado fala de vida e arte na quarentena

O artista responsável por um amplo trabalho de produção cultural no município do Agreste faz planos para depois do confinamento

04 de Junho de 2020, 17:48

Sebage/ Editor

 

O cantor, compositor, poeta e documentarista (e produtor cultural) Igor Machado, pouco antes dessa trágica pandemia do coronavírus chegar com tudo ao Brasil, lá no início de março, ele realizava num daqueles points culturais efervescentes de Arapiraca, o Vinil Coffee Bar, um evento multifacetado envolvendo música, poesia e artes visuais, contando, ainda, com palestras sobre direitos autorais e outros temas e uma simpática “feirinha criativa”. O Festival do Sr. Carranca – que eu tive o prazer de participar convidado por uma das atrações da festa, o soulman Rodrigo San – lotou a casa, demonstrando de resto a força, o carisma, a alegria e a pluralidade dessa profícua segunda-cidade-do-Estado-de-Alagoas.

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Logo depois do festival, Machado lançou um videoclipe gravado ao vivo no evento, o forró “Eu Quero ser um Picasso”, e agora em maio um segundo clipe (também com gravações do festival) de outra canção assinada por ele, “Jurema Soul (Ou Oração do Trabalhador nordestino)”. Na biografia desse sócio fundador da produtora Arteiros S/A, constam, além do álbum lançado em 2013, "Coco Pop Xote Novo" (que será relançando na quinta-feira, 11), a produção musical da obra poética e musical “Amores Ébrios” – que ele apresentou em Maceió, no Rex Jazz Bar, junto com outros poetas da capital, Bruno Ribeiro, Milton Rosendo e Nilton Rezende – e a trilha do filme “O Juremeiro de Xangô”.

 

Confira a entrevista com Igor Machado.

 

Machado e a diversidade cultural de Arapiraca: cafés, festival, cinema, parcerias

Você se divide entre produção cultural e a produção de sua própria obra musical e poética. Como vão as duas coisas durante esse período de distanciamento social?

 

Igor Machado – As incertezas e a falta de horizonte têm sido a tônica do momento. Vinha numa construção de parcerias e realizações de projetos que ficaram em suspenso, e sem nenhuma previsão de retorno. Para a gente que já vive nesse ofício com dificuldades, o distanciamento veio para nos deixar atados e refletindo sobre o que será que será. Para não deixar a energia em baixa, fazendo alguns aperfeiçoamentos através de cursos on-line, estudando mais a questão da comunicação digital, enfim, seguindo como dá.

 

O artista tem resistido um pouco mais. Vinha em processo de pré-produção de um EP, que está indo devagar, mas está indo. Algumas bases já vinham sendo gravadas e estamos trabalhando de modo gradativo. Tinham duas músicas que gravamos ao vivo no Festival do Sr. Carranca. Fiz o lançamento dos clipes durante a quarentena e teve uma repercussão bacana. Artisticamente, tenho ainda minha carreira de documentarista e estamos trabalhando o “Nas Quebradas do Boi”, que abrimos para a comunidade durante o período da quarentena e teve uma repercussão super relevante.

 

Em casa sempre fazendo um som e cuidando do filho Martin/ Foto/ Aline Oliveira

Você tem uma produtora, a Arteiros S/A. Em 2013 havia um café, onde começou o Festival do Sr. Carranca em Arapiraca. Em março deste ano, não mais à frente do café, você realizou uma nova e bela edição no espaço do Vinil Coffee Bar. Fale um pouco sobre a produtora e o festival. Quais os seus planos neste momento?

 

Machado – A Arteiros S/A surgiu na gravação do meu primeiro álbum, o “Coco Pop Xote Novo”, de 2013. Como vinha acompanhado da turma que trabalhou no CD e com amigos que se somaram no projeto durante as tocadas, foi uma forma de fazer menção à turma que estava comigo. Igor e os Arteiros S/A. O projeto musical com o pessoal foi encerrado, mas a marca Arteiros S/A continuou como produtora. Desde então, a produtora tem assinado produções musicais e audiovisuais, além de produções de eventos e atividades que venho desenvolvendo. Mantenho relação com parte da galera do período do “Coco Pop Xote Novo”, como Cazamba, Sandro Siri, Cosme Rogério, Alex Walker, Léo Bulhões. As parcerias arteiras roda e vira voltam a se encontrar de outras formas.

 

Em relação ao Sr. Carranca Café, minha companheira Aline e eu montamos a cafeteria próximo a Uneal em Arapiraca, já pensada naquela estética de cafeteria teatro que rola bastante em São Paulo. Outra referência querida foi o Livro Lido Café, que aconteceu nos anos de 2008 e 2009 em Maceió, e participei bastante como espectador, produtor e artista. Enfim, o Sr. Carranca fomentou bacanamente o convívio criativo em Arapiraca, instigando importantes movimentações nas mais diversas linguagens artísticas. O negócio deu tão certo que fomos expulsos pelos vizinhos, hehehe. O Sr. Carranca passou um tempo ainda na Casa da Cultura de Arapiraca, período que emprestamos a marca ao amigo Wagno, na expectativa de manter viva aquela chama multicultural do Sr. Carranca. Com o fechamento completo da cafeteria, e com o projeto de realizar um festival criativo, junto com o Sebrae e a parceria da produtora Insight e da Banda Filhos da Marta, entendi que o festival seria uma boa maneira de manter a chama do Sr. Carranca acesa, e assim está sendo. Nossa proposta em relação ao festival é que seja anual. Embora, paramos as discussões por motivos da quarentena. Mas passando isso, voltaremos às discussões.

 

Em 2013, no São João de Maceió/ Foto/ Alex Walker

O que faz para se proteger? Trabalhando em casa? Compondo, vendo filmes na TV, lendo...?

 

Machado – Meu filho de dois anos tem sido minha maior proteção. Lembro sempre que devo conservar uma boa energia para puder transmitir uma boa energia. E meio que fizemos um pacto, eu e Aline, de manter o melhor astral possível, por nós, mas principalmente por ele.

 

Tenho trabalhado em casa. Tenho ouvido bastante Spotify, me alimentando de música e me familiarizando com a plataforma. Em relação a filmes, baixei alguns que estou assistindo na maciota, assim como tenho visto alguns curtas alagoanos que estão disponíveis no [portal] Alagoar. Vendo algumas séries não muito cabeçudas na Netflix. A vida de pai me levou a consumir produtos culturais com menos voracidade que o ritmo de antes.

 

Selfie de aniversário (21 de maio) com o filho Martin e a mulher Aline

O que mais vem por aí?

 

Machado – Estou subindo o “Coco Pop Xote Novo” para as plataformas musicais agora em junho. No segundo semestre pretendo lançar um EP que busca refletir um pouco desse momento que estamos passando. Venho pensando a musicalidade dele desde o ano passado, mas esse período tem aprofundado algumas erspercepções. 

 

Na parte de audiovisual estamos com um projeto aprovado em Arapiraca, o curta “Pau D’Arco – A Árvore que se renova”, que vou codirigir junto à antropóloga Anna Araújo, com a assistência do professor Clébio Araújo. No audiovisual ainda trabalharemos um curso de capacitação em audiovisual com a turma do Bumba Meu Boi de Maceió.

 

Vão rolar umas lives suas? Do festival?

 

Machado – Então, estou nesses planejamentos, trabalhando para em junho realizar uma primeira live. Tenho conversado inclusive com o Rodrigo San de fazermos algo juntos. Tenho pensado ainda na possibilidade de realizar uma live com amigos de Arapiraca. Enfim, em breve passarei algo mais sólido. E quanto ao festival on-line, está aí uma boa ideia.