Cultura

Alexandre Holanda: os desafios da cultura alagoana durante e depois da pandemia

Frente às dificuldades geradas pela crise sanitária em todo o país, gerente artístico da Diretoria de Teatros do Estado de Alagoas propõe novas práticas culturais, enquanto busca formas de amparar o segmento em nosso Estado

17 de Junho de 2020, 15:34

Sebage Jorge/ Colaborou João Lemos

Alexandre Holanda, gerente artístico da Diretoria de Teatros do Estado de Alagoas (a Diteal), destaca os “excelentes produtos” e “profissionais competentes e talentosos” que compõem o universo cultural e artístico alagoano para vislumbrar o “longo processo” que imaginamos ser a reestruturação de uma vivência e de uma prática laboral do setor num cenário de pós-pandemia. “Certamente será desafiador lidar com situações diversas e ainda não absolutamente previsíveis, que exigem extrema prudência", pondera. “No momento, estamos exercendo o que se denominou novo palco, que está amparado na tecnologia.” 

Holanda é enfático. “Não abriremos amanhã de manhã. Questões serão observadas, avaliadas, consideradas, tais como o formato de espetáculo, quantos artistas estarão em cena, qual o público alvo e sua faixa etária, as necessidades técnicas." Além disso, é preciso compreender que o comportamento do público, fatalmente, será outro. Será necessário um reaprendizado de nossas relações com o teatro, com a música, o cinema, a dança. "Desde a compra do ingresso até a saída do teatro", observa o gerente da Diteal, que tem experiência de ator e exerce, ainda, atividades de produtor cultural. "Sempre estará em primeiro plano o respeito e segurança das vidas envolvidas, tanto da equipe interna, quanto do público, que é o aspecto externo do processo”, sentencia. 

'O setor de cultura é na verdade exuberante, diverso e de excelência artística inquestionável'

É, não vai ser fácil. Para os artistas, para os gestores e produtores de cultura. Para o público. Nada será como antes. “O setor de cultura, enquanto produtividade artística, é na verdade exuberante, diverso e de excelência artística inquestionável”, atesta Alexandre Holanda, lembrando que “o Estado” se faz presente na cultura através dos editais, “alguns emergenciais voltados para minimizar a crise econômica do momento”. "Entre os editais que já existem, podemos destacar a Lei de Incentivo à Cultura, que certamente exercerá um papel de extrema relevância para o segmento.” 

Há menos de dois meses, a Diteal deu início à produção de uma série de videodocumentários, que, segundo Holanda, funcionam, também, como prestação de contas das ações de uma instituição do governo que, reconheçamos, tornou-se, mais do que qualquer outra, imprescindível para a atuação de profissionais da cultura, novatos e veteranos, em todo o Estado e especialmente na capital. "Os videodocumentários são focados nos projetos que havíamos nos comprometido, mas que foram prejudicados pela pandemia, sempre pautados no fomento artístico local, e também em ações formativas", explica o homem da Diteal.

Grupo Trajes, Comédia e Cia na edição de 2019 do 'Teatro Deodoro é o maior Barato'

"Dessa forma", afirma Holanda, "estamos conseguindo manter os artistas em atividade, com apresentações gravadas com todos os cuidados sanitários e de distanciamento exigidos. Ao exercer o seu ofício com as gravações, disponibilizamos um cachê, permitindo que possamos de alguma maneira contribuir pontualmente para minimizar a crise financeira sem precedentes no setor."

Percussionista Wilson Santos em vídeo lançado na semana passada

Sim, são muitos desafios. Em nosso país, a questão sanitária, o abismo a que fomos lançados pelo governo federal frente à pandemia do coronavírus, nos torna extremamente vulneráveis. E há pessoas nas ruas indiferentes ao perigo da contaminação. Há artistas defendendo o fascismo bolsonarista. São muitas questões complicadas, delicadas e, muitas vezes, odiosas. Porém, a despeito da barbárie, Alexandre Holanda aposta na humanidade e em seu próprio trabalho junto aos seres criativos desse Estado, buscando investimentos e soluções para os problemas.

"Existe uma grande variável de produtos artísticos, de cachês para artistas, de necessidades técnicas e de investimentos em equipamentos de som e luz, transporte, cenografia, montagem, produção. Para estar no palco, o produto tem de se pagar e gerar lucro. Caso contrário, torna-se inviável, a não ser que seja patrocinado, cobrindo o próprio custo e pagamento dos profissionais envolvidos. Então, uma variável iensa de condições precisa ser observada para podermos encontrar uma resposta e entender os caminhos que se mostrarão. Várias questões deverão ser atendidas, por exemplo, qual o distanciamento entre um artista e outro no palco? Muitas respostas virão na caminhada, e esqueçamos o absoluto, a palavra de ordem tende a estar muito diretamente ligada à adaptação, adequação e, lógico, à sobrevivência."