Cláudio Manoel Duarte interrompeu a produção de vídeos, mas continua pesquisando e fazendo arte

Radicado em Salvador há 20 anos, o artista e professor maceioense reflete sobre o desestimulante mercado de artes na nossa capital, fala de pandemia e barbárie brasileira e dos novos trabalhos que fará em Alagoas

28 de Junho de 2020, 10:13

Sebage Jorge/ Editor

 

Cláudio Manoel Duarte é jornalista, mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea, pesquisador de arte e culturas digitais e é, também, especialmente, um artista sensível de mídias audiovisuais e musicais eletrônicas. Estudou na Ufal e trabalhou em jornais de Maceió, na televisão, indo em seguida estudar na UFBA, em Salvador. Acabou ficando por lá, onde mora desde o ano 2000. “Aos poucos fui me envolvendo com a cidade, na área de produção cultural, música eletrônica principalmente, e estudos e pesquisa sobre arte e culturas digitais”, rememora Duarte, em entrevista pelo Whatsapp. Antes de aportar na capital soteropolitana, já havia criado em Maceió, numa cena inicial de música eletrônica (anos 1990) aqui e no resto do país, o grupo Pragatecno, que bombou em Salvador, espalhando-se por outras capitais do Nordeste. Os discos de Cláudio Manoel (aka DJ Angelis Sanctus) e de toda essa moçada do Praga (ao todo, são sete coletâneas) estão espalhados nas plataformas virtuais.

 

Jornalista formado na Ufal, Manoel Duarte finaliza doutorado na Bahia

“Atuei como jornalista no jornal A Tarde, escrevendo semanalmente sobre música e cultura do DJ”, observa o artista e acadêmico, afirmando que, afinal, a pesquisa e o ensino em universidades foram lhe “puxando” para viver em Salvador. “Aqui formei uma rede de amigos, principalmente de jornalistas e artistas e fui muito bem recebido. Creio que a Bahia é um Estado e, mais especialmente Salvador, um momento bem particular na geografia e cultura brasileiras. Efetivamente aqui temos uma mistura cultural muito presente que envolve campos bem abrangentes que vão desde a culinária com várias influências à música muito interessante e estimulante.”

 

Siga a entrevista.

 

Bem, você não se desligou da cultura alagoana. Gravou documentários sobre o poeta acadêmico Carlos Moliterno e o artista visual Roberto Ataíde, e vários outros curtas, um deles sobre o trabalho de arte-educativa do casal e artistas visuais Dalton Costa e Maria Amélia Vieira, flagrando artistas populares do povoado Ilha do Ferro, em Pão de Açúcar, no belo "Boca do Vento”. O que mais?

 

'Carlos Moliterno' é o primeiro de uma série de vídeos alagoanos

Cláudio Manoel Duarte – É minha terra. Volto sempre. Minha família vive em Maceió. É onde tenho vários amigos de longas datas e onde estão minhas referências de formação. Foi aí que me consolidei como pessoa, onde fui afetado pelo mundo. Sim, estranhamente sempre que volto a Maceió fico enumerando temas que podem ser registrados em audiovisual. Há tantos temas aí, notadamente no campo das artes e do que chamam de arte/cultura popular. Essa separação entre arte e arte popular, entre cultura e cultura popular, está estruturada num discurso das elites intelectuais, que sempre vê aquilo que não vem dela como inferior. Tudo é arte, se arte. E a cultura, principalmente, é a cultura, pois o que não for a cultura é a natureza.

 

A atriz Aline Marta Maia no curta 'Passos, Espaços, Corpo & Linguagens'

E a cultura alagoana...

 

Duarte – Há muitos artistas fantásticos em Alagoas que, infelizmente, nunca teve uma política pública fortalecida nem um mercado empresarial consolidado para dar mais visibilidade e condições de sobrevivência aos trabalhadores do mercado de produção cultural e artístico. Acompanhei isso por anos e anos em minha vida. Isso sempre foi um carma? Sei que artistas e promoters aí sempre batalham muito para criar uma cena cultural no Estado, que diga-se, é recheado de muitas manifestações culturais. Mas a tríade produção-circula-consumo teria que estar estruturada nessas três etapas para que uma cena cultural de maior impacto pudesse acontecer e permanecer. Não é fácil ser artista no Brasil. Não é fácil ser artista em Maceió. Sobre meus vídeos, do ponto de vista narrativo, eles estão num meio campo do discurso jornalístico, do cinema documentário e até da videoarte – eles têm uma base no conceito do DiY [o slogan punk: do it yourself, faça você mesmo] e do lo-fi [de low fidelity, baixa fidelidade]. São produções de baixo custo através das empresas O Imaginário é TV e Nosso Bolso Produções Artísticas, que criamos, eu e meu amigo Pedro Nunes Filho, e usamos para marcar nossos projetos de audiovisual com esse foco de cultura livre, independente e sem foco comercial (no sentido midiático massivo). Estão no meu canal do Youtube, disponibilizo para uso livre e não comercial cerca de 40 vídeos. Música, artes visuais, temas de identidade queer, poesia, escultura, performance… Posso fazer uma cronologia dos que são centrados em Alagoas, já que você citou alguns. Tem o “Carlos Moliterno – Poeta alagoano”, que fiz com a jornalista Arla Coqueiro e se tornou um dos poucos documentos em vídeo sobre esse nosso poeta. Tem o “Entremeiolouco”, sobre dança e loucura, com a Cia Cínica Dança e os artistas Cláudio Antônio e Nilson Patrício; o “Mais que Traços e Cores – Em Memória de Roberto Ataíde”.

O artista visual Roberto Ataíde no curta in memoriam 'Mais que Traços e Cores'

Esse documentário também creio que seja o único sobre esse artista visual e fiz com um forte apoio de Carmen Lúcia Dantas, aí em Maceió, e de outros amigos que terminaram se envolvendo com o projeto, aos quais sou grato sempre. Ainda em 1989, eu e o cineasta Pedro Nunes Filho produzimos em VHS o “Passos, Espaços, Corpo & Linguagens” – é um vídeo experimental, centrado em dança afro de Edu Passos. Nele temos a participação especial de Aline Marta Maia, atriz alagoana. Desse período, quando produzíamos o que chamávamos de videopoesa, consegui resgatar “Bomba de Vidro”, com textos de vários poetas alagoanos, o “Ideias Vazias” e “O Nada”, sobre as artes visuais e performance de Fernando Pontes; “Penedo Mon Amour” e “Fazer Poesia – Exercício milenar”, com poemas e participações de Aline Marta e Rosália Brandão – esses dois foram dirigidos por Jeder Janotti e eu fiz câmera –, e o curtíssimo “Woman found dead”, com roteiro de Sávio de Almeida, com os atores Rosa Nazira e João Américo. Sim, há os mais recentes, tem dois registros do poeta Sebage recitando, em “Pré-História” e “Jorge Cooper”. Numa linha mais documental de coisas legais de Alagoas, destaco o “Karandash”, com os artistas e fundadores da galeria Dalton Costa e Maria Amélia Vieira, que também me convidaram para fazer o “Boca do Vento”, registrando a produção atual de mestres da escultura em madeira no povoado Ilha do Ferro, da cidade de Pão de Açúcar, no sertão alagoano. A maioria dos vídeos recentes produzi em diferentes locações, na Bahia ou fora dela, como em São Paulo, Alagoas e inclusive no exterior – na Alemanha, Inglaterra, Moçambique. Mas edito em Salvador, com Gleydson Públio, montador/cineasta formado no Curso de Cinema da UFRB, onde dou aulas. Públio virou um parceiro dessas empreitadas.

 

'O que tem salvado as pessoas é o afeto dos amigos e familiares'

Há outros projetos para realizar em Alagoas, depois da pandemia, claro...?

 

Duarte – Sim. E estou ansioso para produzir. Será um curta-metragem nas periferias e área rural de Porto Calvo e já abusivamente te convido (risos) para se envolver com esse projeto, já que você conhece bem a região. Também conheço um pouco, pois vivi por uns anos em Matriz de Camaragibe, onde meu pai era mecânico do DER, e talvez eu esteja aí buscando algo de meu passado lá, algo que me afetou em minha formação naquela região. Será um netvideo, um curta produzido para circular livremente nas redes digitais com licença do Creative Commons, para uso não comercial. E abordará o tema da música. O que tenho é apenas uma ideia inicial e guião, além da motivação. Como minhas produções são rápidas, de baixo custo e de grande mobilidade, a grande produção será o meu deslocamento da Bahia (com pouco equipamento) e alguma articulação prévia local. O resto é improvisação, que sempre deu certo.

 

O curta 'Boca do Vento' faz o perfil dos escultores em madeira do povoado Ilha do Ferro

Okay, quanto a pandemia, você está isolado em casa, não é? Como ficou sua rotina? Continua trabalhando?

 

Duarte Sou professor na universidade, que teve aulas suspensas, mas continuo com muitas rotinas on line, como grupos de pesquisa e estudos e reuniões remotas. Então isso me trouxe uma certa rotina de encontros a distância. Como saí de um doutorado (sobre música em situação de live streaming em redes telemáticas), eu já vinha com uma rotina muito caseira de quatro anos, sentando na frente do computador. Nesse sentido, mudei pouco o que fazia: ler, escrever, ver filmes, cozinhar, cuidar de minha gata Tui (uma siamesa de quase 19 anos, nossos quase 90 anos). É claro que a pandemia, mesmo não alterando tanto minha rotina, me atingiu violentamente em vários aspectos, como o de consumir a cidade e fazer meus caminhos de forma livre nas ruas. Isso é angustiante. Não poder circular, procurar e encontrar coisas; não poder ver amigos… Ver filmes, ouvir músicas por preenchimento diário também cansa. Além das angústias (e amarras) de estar vivenciando um estado de estupidez no cenário político do país, com esse bando de malucos que colocaram no poder, capazes de pisotear, sem culpa e com veemência o nosso país e nosso povo. É uma dupla angústia: a da pandemia e dos pandemônios. Imaginar que entramos num cinema para assistir a esse filme de terror sem saber que o filme era a vida é ainda impossível. Tenho certeza que o que tem salvador as pessoas, em seu isolamento, é o afeto dos amigos e familiares. É duro demais e não há rotina que dê conta. Mesmo a minha que mudou pouco.

 

Músico e poeta Sebage em 'Pré-História', declamando poesia do livro 'Álbum de Família'

Diz que tudo na vida tem o seu lado bom, existe um lado bom na pandemia? As descobertas talvez, de repente a pessoa se descobre um cozinheiro, um artesão, ou uma pessoa melhor (risos)... E você, o que descobriu?

 

Duarte – Sinceramente, nada demais. E não vejo lado bom nenhum. A pandemia expôs que o vírus é o ser humano, destruidor de tudo, e até do planeta que habita. Não há lindeza aí. Talvez a única lindeza tenha sido (ou esteja sendo) o fato de que a Natureza pôde se recuperar um pouco. Vemos baleias, golfinhos, aves, elefantes… Circulando por seus antigos lugares tomados pelo ser humano. Até os rios e os oceanos se purificaram nesses meros 150 dias. Talvez esteja aí o lado bom, mas, você sabe, o ser humano nem vê isso. É um bicho muito ignorante, incapaz de respirar esse ar levemente menos poluído, agora, e perceber isso. Um mal-agradecido. Veja que esse ser humano quer abrir as estradas, retomar os voos, abrir lojas, shoppings, fazer festas, consumir… Mesmo com a morte crescente dos seus e os pedidos para ficar em casa, se puder. Um horror – onde achar beleza aí. Repito, só se for longe de nós (na Natureza). Nem quero agora saber de crescimento interior, olhar mais para si próprio, olhar para o outro… Pois o grotesco ainda impera. Claro, melhorei minha técnica de cozinhar, lavo melhor e em menos tempo as panelas, roupas e pratos. Limpo a casa com uma certa metodologia. Mas isso é tão pouco e já deveria estar presente em nossas vidas, não? Não sei porque lembrei de um psicólogo desgraçado, o Martin Seligman, que falava que os “visionários, os planejadores, os desenvolvedores, todos eles precisam sonhar com coisas que ainda não existem, explorar fronteiras”. Parece bonito, mas ele acreditava que “se todas as pessoas forem otimistas, será um desastre”, porque, para ele, o ser, diante da quase impossibilidade, encontra saídas (e não sai). Foi ele que promoveu sofrimento excessivo testando em animais (com choques elétricos em cães); levando o animal a uma impotência tal pela dor que, incapaz, não age para escapar desse cerco, dessa dor, mesmo quando uma porta se abre para ele escapar. A pandemia é essa dor, essa cerca. Não quero explorar as fronteiras que ela me impõe, quero escapar. Queremos. Sei que temos uma chance de encontrar belezas interiores e fazer descobertas… Mas você acredita nesse ser humano que mata negros, índios, destrói matas, vende riquezas naturais ao mesmo tempo as destruindo? Ele ainda nem viu o vírus, nem viu a si próprio e a morte (geral e dele próprio) que promove. Eu, que não me sinto um homem triste e ainda tenho um certo humor, vejo a pandemia e os pandemônios apertando a cerca. Quero sair dessa, e nem preciso achar belezas nisso agora.

 

Em casa trabalhando, com a ajudinha da gata Tuí, de 19 anos

Você faz planos nesse momento que não sabemos o que vai ser de nós? Talvez eu devesse perguntar: quais eram os seus planos antes de sermos lançados ao abismo brasileiro do coronavírus?

 

Duarte – Eu estava achando minha vida agitada, antes. Agora a vida ficou achatada. Completamente. É difícil planejar. Não há luz. Meus planos anteriores eram bem modestos: finalizar minhas atuais pesquisas (caminhando lerdamente agora) e concluir um outro vídeo que estava em processo de produção sobre jovens músicos que formam o Coletivo Novos Cachoeiranos, dirigido pelo maestro e professor Sólon de Albuquerque Mendes, que transforma esse coletivo e que produzem sonoridades baseadas no universo musical do Recôncavo da Bahia com novas articulações da música experimental. Está na agulha, como se diz, quase para ser concluído com edição. Mesmo em meio a esse abismo paralisante, conseguimos produzir um outro vídeo o “Sonora_01”, sobre a arte sonora de may hd + junix 11, dois artistas experimentais aqui de Salvador. Essa foi nossa atividade artística da pandemia. Sim, o “abismo brasileiro do coronavírus” é mais do que um abismo do coronavírus, porque é brasileiro, com desmonte de nosso país. Uma dupla tristeza, onde os culpados são visíveis e continuam atuando. Mas quero também não esquecer que essa situação brasileira é fruto de ódio e das mentiras que, inclusive, foram semeadas não somente por classes sociais acima da média-média (que nem da elite são) e por gente dominada pela cegueira. Gente moderninha, inclusive. Alternativos de direita, se colocando acima, subindo o muro e, fazendo o discurso do imparcial – eles ajudaram sim a cavar essa cova. Você aí em Maceió deve lembrar de nomes e pessoas que nos surpreenderam com posições equivocadas, odiando inimigos criados pela fake news e fortalecendo a maldade. A maldade que fazia discurso mentiroso, elitista, racista, preconceituoso de todas as ordens. Hoje, uma boa parte dessas pessoas – falo dos moderninhos de direita que se colocaram como classe alta oligárquica e desinformada – está em silêncio e até estão arrependidas, mas eu lembro o que elas fizeram há dois verões passados. E o resultado é esse abismo duplo, a cova, cavada por eles, afundou mais ainda e eu espero que sejam os primeiros a cair nesse buraco. Senão, teremos de achar que a maldade humana é também amiga e pode morar ao lado

 

Maldades à parte, o que dá para fazer com tudo isso?

 

Duarte – Estou procurando desde março alguma coisa melhor. Por enquanto, talvez, é vermos formas de ser solidário com quem precisa. Não é necessário ir longe não. Se olharmos do lado tem gente em situação bem difícil e precisando de algum apoio. É só ir ao supermercado e ver pessoas na rua pedindo comida. Isso é avassalador, mesmo invisível. É difícil olhar isso, mas se olharmos mesmo a gente vê.