Pedro Salvador lança na semana que vem EP antigoverno e anticapitalista

O pesado e psicodélico 'Traste', novo trabalho do cantor, compositor e multiinstrumentista, busca 'equilíbrio entre agressividade e lirismo'; será lançado na sexta-feira (10) em todas as plataformas de música

02 de Julho de 2020, 17:16

Sebage Jorge/ Editor

 

O cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista Pedro Salvador lança o EP “Traste” na semana que vem, sexta-feira (10). O novo trabalho, de quatro faixas, é mais um lançamento do selo Voragem, criado há pouco mais de dois anos pelo músico, e estará disponível em todas as plataformas – Spotify, Deezer, iTunes. Salvador, porém, pede aos fãs e admiradores que baixem os áudios no Bandcamp. Segundo ele, “é o melhor espaço para acompanhar e ouvir” os sons que está produzindo, especialmente nesse período de isolamento social. “A quarentena está rendendo”, anuncia em seu perfil no Instagram. “Vou lançar várias coisas novas e loucas nos próximos meses. No Bandcamp dá para comprar diretamente de mim e ter para sempre os áudios e artes numa qualidade bem alta.” E mais: nessa sexta-feira (3), para ajudar os artistas nesse difícil período de quarentena, abrindo mão de sua percentagem, a plataforma está disponibilizando toda a receita dos downloads exclusivamente para os artistas.

 

O novo disco de Pedro Salvador – que ele diz ser uma continuação do hard psicodélico “Glitch Witch”, lançado no ano passado – é, naturalmente, inventivo como toda obra do artista, cujo primeiro EP, “Psiconauta”, de seis faixas, é de 2015. Pesadão e urgente, com todos os instrumentos tocados por Salvador, “Traste” apresenta a face politizada e anticapitalista do rapaz. “É uma busca pelo equilíbrio entre agressividade e lirismo através dos caminhos sonoros do que se chamava antigamente ‘hardão setentista’ – um amálgama de blues, funk, jazz e r&b tocado com instrumentos distorcidos em alto volume, a música negra do Norte atravessando a eletricidade. Mas enquanto ‘Glitch Witch’ foca, liricamente, nas fronteiras da percepção e cognição humanas, ‘Traste’ pisa no chão com pés descalços. São canções urgentes, que transpiram raiva e frustração. As três primeiras, de Holanda Jr, Carmen Cunha e Roberto Teodósio, respectivamente, foram compostas há anos, no entanto dialogando perfeitamente com o agora. E até que consigamos deter a marcha destruidora do capital sobre nossas sobrevivências e afetos, essas músicas continuarão poderosas e necessárias."

 

Salvador pede para os fãs baixarem seus álbuns no Bandcamp/ Foto/ Anne Godoneo

O Alagoas Boreal conversou com Pedro Salvador pelo Whatsapp. Acompanhe a entrevista.

 

Como estão os trabalhos musicais na quarentena?

 

Pedro Salvador – Apesar da falta de shows ao vivo, continuo seguindo minha rotina musical de sempre: estudando os instrumentos, lendo, ouvindo referências novas, compondo e gravando.

 

Programando alguma live?

 

Salvador – Fui selecionado para me apresentar pelo edital de lives da Secult. Por ora, aguardo a data dessa live. Fora isso, penso em fazer em algum dia aleatório uma live surpresa, só para brincar de lual.

 

Vai ter lançamento de álbum, single...? Como está essa programação?

 

Salvador – Tenho quatro EPs prontos para sair. Coisas que já vinham sendo preparadas desde antes da pandemia. O primeiro destes será lançado agora no dia 10 de julho, um disco de rock antigoverno.

 

'Sempre fui caseiro e o isolamento social não me afetou taaanto'

O Bandcamp, talvez a plataforma musical mais democrática e completa (por ex., eles publicam as letras, dão espaço para o crédito dos álbuns e faixas), nesta sexta-feira abrirá mão da participação deles nas receitas dos artistas. Há alguns dias, na rede social, você estava justamente pedindo para a galera baixar os seus discos lá.

 

Salvador – Pois é, o Bandcamp é uma plataforma muito justa para o artista e também muito interessante para o ouvinte. Já era isso antes do boom dos streamings, e tenho certeza que sobreviverá e moldará a relação das pessoas com a música ao longo do futuro.

 

Como está sua rotina? Mora com quem? Como faz pra sobreviver a essa pandemia?

 

Salvador – Sempre fui uma pessoa caseira. Então o isolamento social não afetou taaanto minha rotina. Mas claro que sinto falta das relações humanas, das trocas interpessoais, dos afetos ao vivo. Moro com minha família, e isso também colabora para o isolamento não ficar tão pesado. O pior de tudo, com certeza, é não poder trabalhar. O setor cultural foi o primeiro a parar e será o último a voltar à ativa. Sem poder fazer shows e eventos, tenho sobrevivido de minhas parcas reservas e de esporádicas lives remuneradas. O auxílio emergencial nunca que chegou por aqui.

 

Capa do EP 'Traste': arte de Lara Rani

Está difícil, né, ainda mais com um presidente boçal estimulando os fascistas a saírem sem máscaras nas ruas, e empresários gananciosos abrindo seus comércios...

 

Salvador – Totalmente. Reflexo direto do projeto de precarização e extermínio da população afro indígena, da população brasileira, das periferias neocoloniais do capitalismo global. Falo disso nos próximos lançamentos.

 

Como se diz, o Brasil não é para amadores. E parafraseando o historiador musical Dimas Marques, a nossa Alagoas Musical também não é. Aqui é um bom lugar para fazer música? Você já andou se espalhando por aí...

 

Salvador – Alagoas é um lugar musicogeograficamente privilegiado. Estamos situados bem no meio do caminho entre o Nordeste do norte e o Nordeste do sul, entre o Sertão e o mar. Recebemos os fluxos estéticos de todas as direções e hibridizamos tudo, absorvemos tudo. É como se Alagoas fosse o Brasil do Brasil. Falo esses termos, porém, apenas para fins de localização espacial. Não gosto, absolutamente, do ufanismo muito vigente ainda no meio cultural, esse sentimento de orgulho do Estado. O Estado é só uma divisão arbitrária de espaço territorial fundamentalmente baseada nos latifúndios das oligarquias históricas. "Alagoas" é uma invenção e não acredito que seja nossa.