Cultura

Recuperando-se da covid-19, Pedro Cabral prepara-se para a exposição coletiva 'Velas Artes'

Além disso, o arquiteto e artista visual promete escrever novas aventuras do herói burlesco Doquinha; ele e a mulher, a jornalista Goretti Lima, embora isolados, contraíram o coronavírus: 'A gente se cuidou direitinho, mas aconteceu o que nem sempre é possível controlar'

06 de Julho de 2020, 12:03

Sebage Jorge/ Editor

O arquiteto e artista visual Pedro Cabral diz que se cuidou “direitinho”, iniciando – ele e sua mulher, a jornalista Goretti Lima – no dia 22 de março o isolamento social necessário à prevenção de contágio do coronavírus. Mas aconteceu o que, como ele diz, "nem sempre é possível controlar": os dois pegaram a covid-19. “Até a nossa secretária doméstica nós a dispensamos, claro, mantendo seus salários”, conta Cabral, que está se recuperando bem – tanto ele quanto Goretti. “Ela ainda sente algumas dores nas costas e eu ainda tusso um pouco”, afirma, queixando-se de “um leve cansaço”. “Estamos há 100 dias em isolamento. Mas fica difícil enfrentar um inimigo invisível e ele tem suas manhas.”

Bem, “afora as mazelas da doença”, o artista – que realizou em outubro do ano passado, no Complexo Cultural Teatro Deodoro (centro da capital), sua segunda exposição individual (que ele batizou de “Teia dos Sentidos”, buscando, por assim dizer, contatos humanos mais estreitos diante da fugacidade dos relacionamentos modernos) – garante que está conseguindo “viver bem o isolamento”. “Só não pintei. Mas li, escrevi e projetei no computador. A fadiga não me permitiu pintar. Houve dias que eu lembrava um nascimento de uma girafa: quando eu tentava me levantar, era uma perna no nordeste, outra no sudoeste (risos)”.

O artista realizou a impactante exposição 'Teia dos Sentidos' em outubro do ano passado
Com a musa (e esposa) Goretti Lima em leilão de artes no Cine Arte Pajuçara/ Foto/ Sebage

Diz que pretende o mais breve possível “voltar a pintar”. “Muitas vezes acordo com lembranças de cores que eu poderei usar. A mistura de azul cobalto com um cinza claro se espalhando sobre outros tons vivos.” Quem conhece a obra de Pedro Cabral sabe do que ele está falando. Seguindo a trilha dos pintores fauvistas (França, início do século 20), apresenta na sua obra uma efusão de cores que parece irromper das entranhas de seus personagens – estejam eles em postura contemplativa, como os retratos da amada Goretti, ou dançando num baile junino ao som de sanfonas e zabumbas.

Em 2015 em seu ateliê finalizando obra da exposição 'As Razões do Coração'/ Foto/ Sebage
'Estações de uma mesma pandemia: Outono...'

A alegria dos encontros e a força do amor parecem mover os pinceis de Cabral, que, por fim, não economiza nos encarnados, nos verdes e amarelos e azuis, afinal contrabalançando-os com os fundos negros que compõem invariavelmente as nossas narrativas de entregas e felicidades (alternando incidentes de opressões e escolhas trágicas).

Professor de Arquitetura aposentado há cinco anos, o artista considera ainda trazer consigo “o ranço da rotina do trabalho”.

“Preciso acabar com essa culpa da rotina. Mas aos poucos começo a dominar o tempo. Não quero ser escravo do tempo. A aposentadoria me possibilitou evitar esses compromissos rotineiros e me ajuda a fazer outras coisas tão boas quanto o ensino. Como pintar, escrever e projetar. Às vezes, me vem uma saudade das salas de aulas. Mas estou feliz, continuo feliz.”

'...E Inverno', brinca Cabral fazendo poses de quarentena

Durante esses cem dias de isolamento, reconhece não ter produzido um número razoável de telas “para poder gerar uma nova exposição”. “Talvez eu participe de exposições coletivas. Estarei na [exposição marítima] ‘Velas Artes’. “Tenho feito individuais a cada quatro anos. Mas, talvez, os novos fluidos mundiais pós-pandemia, que espero mais humanizados, possam me incentivar a expor mais cedo. Também, a idade não me permite ser Copa do Mundo, ou seja, de quatro em quatro anos (risos).”

A novidade é que esse irrequieto artista, que também se aventura pelas letras (em 2018 lançou, pela editora portuguesa Chiado Books, “As Picarescas Aventuras de um célebre Vigarista internacional”), começou a escrever um novo livro. “Trata-se da epopeia de Doquinha com o Santo Graal aqui em Alagoas.” Doquinha, haja visto, é esse célebre vigarista internacional metido em flertes e encrencas no grand monde – seja o fulgurante universo das estrelas de Hollywood ou o perverso ambiente dos políticos de carreira.

No Facebook, diz estar 'reaprendendo a mamar'

Falando em política, sobre a infâmia que vivemos hoje sob o comando do genocida Bolsonaro, diz que, pessoalmente, “foi mais fácil combater um inimigo invisível do que combater a maldade humana, representada por um diabo verde-amarelo”.

“Espero eloquentemente que a covid-19, que trouxe tantas tristezas aos povos, tenha, por outro lado, nos trazido a possibilidade de se pensar num novo mundo. Um mundo que já sonhei em minha última exposição, ou seja, a paz, o humanismo, a convivência sagrada entre povos, gêneros, religiões, sob o signo da igualdade social e de uma economia mais equilibrada para todos.”

Concorda que isolar-se em casa por conta da ameaça do coronavírus “é um tédio”, mas destaca “o medo” como principal desventura desses dias de distanciamento social. “Claro, tive medo de morrer, pois ainda pretendo produzir mais. Minha produção é muito incipiente para o que este mundo generoso tem me oferecido.”

O lado bom “é a esperança em saber dos amigos”. “Tenho saudades imensas dos abraços e beijos.”