Cultura

Escrito em 1981, o romance 'Os Olhos da Escuridão' impressiona pela narrativa sobre um vírus letal

Em entrevista para a editora brasileira Citadel, o autor Dean Koontz diz que não é 'clarividente' e que a história de seu romance é 'apenas pesquisa'

21 de Julho de 2020, 09:26

 

Gabriela Cuerba/ Editora Citadel

Em uma entrevista exclusiva com o escritor norte-americano e best-seller Dean Koontz, autor de "Os Olhos da Escuridão" (The Eyes of Darkness, ed. Citadel, 272 págs.), Koontz revela sobre os aspectos que envolvem a narrativa do livro que vêm chamando a atenção de milhares de pessoas. Desde o início da atual pandemia da covid-19, a sociedade se debruça em teorias sobre a origem da expansão desse novo vírus para conseguir respostas. O livro pode ser adquirido, por R$ 44,90, nas plataformas Amazon, Saraiva e Livraria Cultura.

E, em meio a tantas informações, até mesmo algumas fake news, o livro “Os olhos da Escuridão” ganhou uma enorme atenção da mídia internacional por apresentar uma suposta “previsão” da doença e fez sucesso entre os leitores de boa ficção. Em esclarecimento, o autor afirma que “nenhuma clarividência foi necessária, mas apenas pesquisa”.

'Não previ 2020', afirma Dean Koontz/ Foto/ Harvard Business Review

Confira entrevista exclusiva.

Como surgiu essa ideia de um vírus se espalhar por Wuhan, China, e como foi o processo de pesquisa desse romance?

Dean Koontz O vírus em “Os Olhos da Escuridão” é o que Hitchcock chamou de um MacGuffin, o objeto que dá início a uma história, mas não é exatamente sobre o que a trama trata. Apesar da desinformação grotesca nas redes sociais, a obra não é sobre pandemias, e eu não previ 2020 como o ano em que aconteceria isso. Essa é uma história sobre um aparente sumiço de uma criança e a crescente convicção de uma mãe em luto de que ele não morreu, de que as autoridades mentiram para ela. Quando certas mensagens paranormais a levam a acreditar que o garoto está sendo mantido em algum lugar contra a vontade dele, ela se propõe a encontrá-lo – e se torna um alvo do governo. No livro, o vírus é uma arma biológica que foi acidentalmente liberada de maneira limitada, e para a qual uma vacina está sendo pesquisada por cientistas a serviço do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Quando eu estava procurando uma origem plausível para esse tipo de arma, minhas pesquisas me levaram aos laboratórios de biologia bélica na China. Naquela época, um deles ficava próximo a Wuhan. Sem dúvida ainda é. Por isso, coloquei a origem em Wuhan. Nenhuma clarividência foi necessária. Apenas pesquisa.

Assista ao booktrailer de 'Os Olhos da Escuridão'

Muitas pessoas têm acreditado que seu romance é uma história verdadeira. Como você analisa esse cenário “pós-verdade”?

Koontz Eu só posso falar sobre a vida nos Estados Unidos, onde a mídia se tornou tão sensacionalista quanto antes, quando eram apenas tabloides como o National Inquirer. Ao longo das duas últimas décadas, parece que cada vez menos o que você vê nas notícias acaba sendo verdade, seja isso movido por questões como lucro (mais cliques) ou ideologia romântica. Nesse ambiente, as pessoas se apegam a outras fontes de "informação" porque não confiam mais na mídia que acreditam ter falhado com elas. Isso não é culpa do romancista.

Você esperava esse sucesso? Como escritor, o que você mudaria no seu romance depois de quase 40 anos?

Koontz Eu colocaria “Os Olhos da Escuridão” entre os meus romances menos interessantes. Uma história divertida e cheia de suspense, mas nada além disso. Ele foi publicado pela primeira vez sob um pseudônimo quando eu ainda era jovem e lutava para construir uma carreira. Antes de toda essa loucura na internet, o livro vendeu cerca de quatro milhões de cópias em todo o mundo e foi traduzido para 30 idiomas, portanto foi um sucesso. A nova vida que a pandemia do mundo real trouxe é interessante, mas na minha idade, ela não vai mudar a minha vida! Eu nunca mais mudaria nada de um romance antigo. O que eu escrevi desse livro em diante é muito mais ambicioso e complexo, vale mais a pena. O caminho que meu trabalho seguiu nos últimos 40 anos é mais emocionante para mim do que o que naquela época.