Especial

Para El País, Cinemateca Brasileira é 'símbolo da falta de política cultural do governo Bolsonaro'

Jornal publica reportagem nessa quarta-feira (29), com depoimento do ex-bolsonarista Carlos Vereza denunciando o abandono desse importante acervo da memória do audiovisual no Brasil

30 de Julho de 2020, 09:56

 

Da Redação

Em reportagem do site do jornal El País, publicada nessa quarta-feira (29), o Brasil testemunha o esfacelamento – pelo desgoverno federal – de mais um equipamento de extrema importância para o cinema brasileiro: a Cinemateca Brasileira. “O arquivo completo de Glauber Rocha, maior expoente do Cinema Novo. As películas do cinejornal futebolístico “Canal 100”, feitas entre 1958 e 1986. As gravações de Marechal Rondon sobre as Forças Expedicionárias Brasileiras. O original de “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, que fez sucesso em Cannes e é considerado o primeiro filme brasileiro com reconhecimento internacional”, relaciona a matéria assinada pela repórter Joana Vieira. “Esses são alguns dos tesouros guardados no maior acervo de imagens em movimento da América do Sul, a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e que estão em risco de desaparecer por falta de financiamento do governo federal.”

De acordo com a jornalista, a Associação Roquette Pinto, responsável pela cinemateca desde 2018, não recebe do governo “qualquer verba” e acusa o governo do infame Jair Bolsonaro de uma dívida de 14 milhões de reais. “No último capítulo dessa novela que se arrasta há meses, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou, em 15 de julho, uma ação civil contra a União, considerando que Executivo é responsável pelo ‘estrangulamento financeiro e abandono administrativo’ do local. O resultado de tal ação deve sair até o final desta semana.”

Reconhecida como a quinta maior cinemateca em restauro do mundo, a Cinemateca Brasileira foi criada na década de 1940. Abriga 250 mil rolos de filme, sendo 44 mil títulos de curta, média e longa-metragens, além de programas de TV e registros de jogos de futebol. “O custo de manutenção é de 1,2 milhão por mês. Há quatro meses, os 150 funcionários não recebem salários e entraram em greve, incluindo a brigada de incêndio, fazendo pairar sobre o local o fantasma da tragédia do Museu Nacional, que pegou fogo em 2 de setembro de 2018”, alerta a reportagem, informando que os rolos de películas em nitrato de celulose, de filmes produzidos até os anos 1950, são altamente inflamáveis. “Essa substância tem a propriedade de entrar em combustão espontânea, ou seja, a capacidade de incendiar-se apenas com calor. Por isso, algumas paredes da instituição têm até dois metros de espessura e algumas salas contam com um sistema de refrigeração específico”, afirma o El País, apontando os quatro incêndios já sofridos pela cinemateca. “O incêndio mais recente, em fevereiro de 2016, destruiu definitivamente 270 títulos e outras 461 obras que tinham cópia de segurança. Em fevereiro deste ano, uma enchente no depósito da instituição danificou 113 mil cópias de DVDs.”

Vereza, que apoiou o genocida Bolsonaro, denuncia desmonte da cinemateca/ Foto/ Arquivo

Bolsonarista de primeira hora, o ator Carlos Vereza fez uma denúncia nas redes sociais. “Não existe uma consciência política ou social do que podemos perder, da importância cultural da documentação de uma época. As épocas não são documentadas através do PIB, através da política econômica, mas sim com a arte e a cultura.”

Segundo Vereza, que rompeu com Bolsonaro em abril deste ano, depois da demissão de Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, que encerrou o contrato da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp) para a realização da TV Escola (cujo orçamento de 400 milhões de reais ao longo de cinco anos subsidia a cinemateca), foi quem começou o “desmonte” da instituição. O ator apresentava o programa “Plano Sequência” no canal público e diz que foi chamado para uma reunião. “Weintraub deixou claro que ele queria levar meu programa para a EBC [a estatal Empresa Brasil de Comunicação] e esquecer a TV Escola. Eu disse que de jeito nenhum. Mas ele acabou com a TV Escola e, em consequência, está acabando com a cinemateca também.”

Com o fim do canal público educativo – observa o El País –, “a situação virou um imbróglio jurídico, já que o acordo original com a cinemateca vai até março de 2021 e a Roquette Pinto continuou a manter a instituição com recursos próprios". A dívida da União é de mais de R$ 14 milhões e em 2019 o governo pagou apenas R$ 7 milhões dos R$ 13 milhões previstos. “É uma prova de que não existe política cultural neste governo", afirma Vereza. “Pelo contrário, existe um projeto frio e consciente de acabar com o pensamento, a cultura e a arte no país.”