Rigoroso na prevenção ao coronavírus, médico Edson Ataíde diz sentir falta 'dos abraços gemidos'

Atuando no ambulatório de alto risco da Maternidade Santa Mônica em Maceió, ginecologista milagrense criou o Grupo Voluntários de Milagres, mas foi demitido pela prefeitura negacionista do município depois de 18 anos atuando na região Norte

04 de Agosto de 2020, 10:28

 

Sebage Jorge/ Editor

Atuando no ambulatório de alto risco da Maternidade Escola Santa Mônica, em Maceió, médico por 18 anos na região Norte, em São Miguel dos Milagres, cidade onde nasceu, Edson Ataíde – ginecologista e homem do povo e das artes e filosofia – formou há pouco mais de dois meses, com amigos e outros profissionais, o Grupo Voluntários de Milagres. Diante da luta contra a pandemia do novo coronavírus, é preciso estar atento e tomar todos os cuidado com a saúde – e é preciso toda solidariedade que pudermos prestar aos nossos amigos e irmãos de vida.

A drástica saída do doutor Edson do sistema de saúde de São Miguel dos Milagres, por determinação da gestão negacionista do município (trabalho de Ataíde abrangia, ainda, os municípios de Porto de Pedras e Passo do Camaragibe), foi lamentada pelos seguidores de Cassiano Verçosa no canal do radialista no YouTube: Lamentável ele ter saído, vai fazer muita falta. Cuidou de minha gestação muito bem, estou muito agradecida por tudo”, diz Nadja Conceição, enquanto Moacir Gusmão afirma: “Uma grande perda”, “profissional de grande valia para a população milagrense”. O médico filho de São dos Milagres, entretanto, não largou o trabalho voluntário e o grupo que ele criou com amigos e outros profissionais solidários continua forte e assíduo.

Mas vamos ao bate-papo que tivemos com o doutor Edson via WhatsApp.

Grupo criado para ajudar a população de Milagres

Você estava na linha de frente do combate ao coronavírus em São Miguel dos Milagres.

Edson Ataíde – Nunca reuni tanta energia para o trabalho quanto nesse período de pandemia. Me senti muito capaz de colaborar com meu conhecimento adquirido em outras epidemias (cólera, aids, dengue, zika, chicungunha). Essa experiência e o desejo de retribuir ao meu município e ao SUS todos os benefícios já recebidos me estimulou a lutar. Meu afastamento da linha de frente dos trabalhos em Milagres se deu por divergência de percepção da epidemia com a secretária de saúde e gestor municipal. A visão negacionista e a falta de capacidade técnica da secretária resultaram em constantes desentendimentos que culminaram no meu afastamento após 18 anos de trabalho na unidade saúde.

Entrega de alimentos é feita, também, em locais distantes da cidade

Mas antes do seu afastamento, ainda em São Miguel dos Milagres, você criou um grupo de ajuda à população mais carente e aos trabalhadores, entregando a eles cestas básicas, itens de limpeza, medicamentos.

Ataíde – Então, como estratégia ao enfrentamento da pandemia, adotamos medidas de segurança na unidade de saúde visando garantir o distanciamento, eficiência e biossegurança no atendimento. Criamos um grupo de whatsapp com agentes de saúde e demais colaboradores da unidade de saúde, visando a melhoria de nossa comunicação e capacitação técnica. E criamos o grupo virtual Voluntários dos Milagres, que reúne amigos de vários Estados do Brasil e até pessoas morando nos Estados Unidos. Nosso objetivo é arrecadação e distribuição de alimentos, máscaras e material de limpeza para ajudar a comunidade carente. Não realizamos entrega de medicamentos.

Ginecologista atende na Maternidade Santa Mônica, no PAM Salgadinho e em seu consultório

Que lições você tirou desse trabalho cara a cara com a covid-19?

Ataíde – O aprendizado é constante e dinâmico. O que há um mês era verdade, hoje é provecto, ultrapassado. Porém alguns ensinamentos permanecem: nossa fragilidade e incertezas diante do universo; a total desigualdade social, a negação à ciência e a falta de uma liderança equilibrada e consciente nos faz caminhar para os cem mil mortos, e sem dúvida a grande lição foi a real constatação de que precisamos mudar, e estarmos sempre preparados para as adversidades da vida.

'A visão negacionista da secretária culminou no meu afastamento'

O grupo de voluntários continua ativo e você continua nessa companha... Como vão os trabalhos? Quem faz parte desse grupo, como você juntou esse pessoal?

Ataíde – Sim. O grupo Voluntários dos Milagres continua ativo. Firmamos parceria com o Instituto Yandê (ong com foco na educação e meio ambiente). Essa medida nos fortaleceu e hoje iniciamos uma nova campanha, “Doe e plante”. Trocamos alimentos por mudas de plantas frutíferas. Consolidando nossas afinidades.

Aqui em Maceió você atua no Hospital da Mulher?

Ataíde – Hoje divido meus horários de trabalho entre a Maternidade Santa Mônica, PAM Salgadinho e consultório particular. Com horários reduzidos, porém, sem fugir ao desafio do enfrentamento.

Quantas horas de trabalho, como você está se cuidando?

Ataíde – Trabalho em torno de 20 horas semanais. Adoto medidas rígidas de biossegurança exigindo EPIs adequados nas instituições onde trabalho e até comprando do meu próprio bolso, quando necessário. Reduzi o número de pacientes atendidas. Tento manter uma aparente tranquilidade e postura firme na condução do atendimento, isso ajuda no raciocínio nesse ambiente tenso e me deixa mais equilibrado.

No tempo livre, o que você faz?

Ataíde – O tempo livre ocupo comigo mesmo. Fico horas sem fazer nada, vejo filmes séries, óperas. Faço comidinhas. E sobretudo pratico regularmente minha corrida na orla maravilhosa de nossa cidade.

'Pratico regularmente minha corrida na orla maravilhosa de nossa cidade'

Agora com a reabertura de bares, restaurantes, cabeleireiros e outros negócios (comércio etc.), qual a sua avaliação para esse momento?

Ataíde – Considero que precisamos retornar gradativamente às atividades, se reerguendo e se reinventando. Muito já aprendemos e hoje poderemos de forma consciente, planejada e segura ir retornando à nova realidade, ao “novo normal”. Porém, a expectativa de uma recrudescência dessa infecção me deixa alerta.

Você mora sozinho ou divide sua vida com alguém?

Ataíde – Moro sozinho. Isso por um lado é vantajoso, pois na volta do trabalho não temos aquele peculiar receio de poder infectar quem mora conosco. Por outro lado, aguça a solidão.

Durante a pandemia, com o distanciamento social (e pessoal), do que mais você sente falta?

Ataíde – Sinto muito a falta de viajar, do encontro social relaxado com os amigos e sobretudo dos abraços. Ah, os abraços gemidos, o aperto de mão caloroso e o sorriso frouxo fazem muita falta – me devora.