Cultura

Fernando Nunes traz de volta a alegria do 'esquenta mulher' de Luiz Gonzaga em pegada de rock e jazz

Single 'Carapeba' é o primeiro trabalho que o contrabaixista lança pelo selo mineiro Backing Stars; artista fala de música e das rupturas e aprendizados provocados pela covid-19

07 de Agosto de 2020, 11:47

 

Sebage Jorge/ Editor

 

Ligue o som bem alto porque você já pode ouvir a versão de Fernando Nunes para o frevo clássico recifense, gravado por Luiz Gonzaga em 1976, o “Carapeba”, assinado pelo grande compositor dos carnavais pernambucanos Luiz Bandeira e seu notório parceiro Julinho. O frevo e o baião estão lá no single “Carapeba” (Backing Stars, 2020), mas a performance de Nunes, gravada em Maceió, no Teatro Deodoro ano passado, traz essa vitalidade do artista, rock’n’roll e jazzada, sendo, contudo, ainda, uma homenagem a Maceió (“ê, lá vai esquenta mulher do meu gostoso Maceió”, que Nunes canta apenas “ê Maceió”, já que se trata de uma faixa instrumental).

 

No tempo que “Carapeba”, a faixa de Luiz Gonzaga também conhecida como “Esquenta Mulher”, animava quadrilhas, bailes de carnaval e memoráveis encontros de amigos, Fernando batia com força suas cordas de contrabaixo tocando Who, Beatles e Stones na banda Odisseia, que formou na capital alagoana com o irmão mais velho, o guitarrista Dinho Nunes. “Carapeba”, lançamento nesta sexta-feira (7) pelo selo mineiro Backing Stars, é um caleidoscópio. São muitas informações aí, além do aviso prévio de que o álbum instrumental vai sim acontecer – na verdade, Nunes se preparava para gravar quando eclodiu a tragédia da covid-19 no Brasil.

 

No Teatro de Arena em 2019: convidado do 'Jazz Panorama ao Vivo'/ Foto/ Ailton Cruz

Fernando Nunes largou o Odisseia e se mudou de Maceió ainda nos anos 1980 e em Salvador (BA) tocou com Luiz Caldas e Margareth Menezes. Axé puro. Nos anos 1990, mudou-se para o Rio de Janeiro e lá, naturalmente, com sua conhecida disposição e indiscutível talento, entrou para o time de músicos profissionais que acompanhavam desde Ivan Lins a... Cássia Eller. E sobre Cássia e Nunes não precisamos falar mais nada: comunhão, o sol brilhando para uma banda e uma cantora. Atualmente, “firme e forte” na banda de Zeca Baleiro, morando em São Paulo com a mulher Carla Cristine, que é médica, com quem é casado há três anos, o artista enfrenta o novo coronavírus se resguardando em casa, cozinhando, arrumando a casa (!), realizando lives semanais e participando de outras tantas.

 

Quando recebeu o convite da produtora, cantora e compositora Rossana Decesso para integrar o elenco da Backing Stars, com os planos para o álbum adiados, lembrou-se da gravação de “Carapeba” em Maceió, que – diz Nunes – tinha ficado “ótima”. O single é como uma joia rara que vai embalar outras noitadas e outros encontros boêmios (ou não) Brasil afora. Esse foi o gancho para falarmos com Fernando Nunes sobre música e pandemia.

 

Nos planos de Fernando Nunes, a gravação de um álbum instrumental

Acompanhe a entrevista.

 

Boa notícia você integrando o elenco do selo Backing Stars – você vinha trabalhando com

Rossana Decelso já há algum tempo, né, produziu álbum dela...

 

Fernando Nunes – Foi com muita alegria que aceitei o convite pra fazer parte do elenco da Backing Stars, selo idealizado pela Rossana Decelso, amiga de muitos anos aqui em São Paulo, ótima produtora e cantora também. Arranjei duas músicas para o seu disco mais recente – que também fiz a coprodução.

 

Gravação da turnê de janeiro no Deodoro/ Canal Alagoas Musical

É uma gravação feita aqui em Maceió, no Teatro Deodoro, ano passado. Como foi esse projeto?

 

Nunes – A ideia do single veio justamente por causa desse período que estamos vivendo de pandemia. Fiz uma turnê de dez shows no começo do ano, pelo Nordeste. Tinha plano de entrar em estúdio logo após essa turnê e gravar meu primeiro álbum solo. Como os planos foram adiados, aproveitei a ótima gravação feita no Teatro Deodoro, nono show da turnê, e resolvi transformá-la em single. Essa ideia casou perfeitamente com o convite da Rossana para ingressar na Backing Stars.

 

Os dois músicos que lhe acompanham nessa faixa, Toni Augusto e Igor Galindo, são artistas com quem você trabalha frequentemente, fazendo uma ponte São Paulo-Salvador-Maceió...

 

Nunes – Comecei o laboratório desse meu show solo aí em Maceió, e Toni Augusto, que sempre foi um dos meus mestres na música, me ajudou nos primórdios dessa ideia. Sua presença em meu trabalho é mais do que uma participação, é um privilégio. E o Igor Galindo foi um achado, um presente que recebi nas minhas viagens pelo Brasil e pela minha história com a Bahia. Chegou na hora certa para amadurecer a ideia que eu tinha para o meu som.

 

Na culinária, Nunes diz que vai 'no feeling'

E quanto à pandemia, como isso tudo lhe pegou? Como você está?

 

Nunes – Pois é, eu tinha começado o ano super acelerado, já fazendo esses shows pelo Nordeste e achei que, na sequência, todos os projetos que eu estava começando iam deslanchar naturalmente em 2020. Aí veio essa pandemia pra desacelerar a gente e ensinar que temos de ter muita paciência e nos reinventar.

 

Se cuidando direitinho, respeitando as regras, máscara, saindo pouco?

 

Nunes – Claro, minha mulher, Carla Cristine, é médica e convivo com a luta diária dela para ajudar seus pacientes nesse período tão crítico. Acho que devemos valorizar mais o que os profissionais da medicina nos dizem – são eles que estão na linha de frente e têm uma noção mais exata do que estamos passando.

 

Tudo pronto para cozinhar: 'Estou melhorando'

Como é sua rotina? Aprendeu a cozinhar ou você já era bom de cozinha?

 

Nunes – Estou casado há quase três anos e minha rotina é ficar em casa no meu estúdio. Cozinho, arrumo a casa, o que for preciso... Na culinária estou melhorando, acho parecido com música: vou no feeling (risos).

 

Então você limpa a casa...

 

Nunes – Me esforço bastante e parabenizo quem vive na função doméstica. Varrer a casa me ajuda a suar e ainda ouço uma música para deixar a tarefa mais agradável. Aguar as plantas é muito bom também, me conecta um pouco com a Natureza.

 

Semanalmente você realiza uma live entrevistando músicos e também participando de outras lives de amigos. Para você, como estão as coisas todas, a música, o trabalho, os projetos?

 

Nunes – Faço uma live semanal todas as segundas às 18h com o Sururu Music, coletivo de música alagoana que está avançando com a colaboração da classe artística alagoana. No inicio, envolvemos os alagoanos que moram em São Paulo e no ano passado, com a participação de Fernando Melo e Paulo Poeta, começamos a fazer a ponte com os alagoanos que estão em Alagoas, que é o meu ideal. Tenho recebido muitos convites para fazer lives contando a minha trajetória, também continuo gravando e produzindo on-line. É o novo normal que veio pra ficar.

 

Com Toni Augusto e Félix Baigon no Teatro Deodoro/ Foto/ Ailton Cruz

Para encerrar, fala mais de “Carapeba”, a inspiração de gravar essa música, seu projeto de compositor.

 

Nunes – Quando resolvi montar um show meu, pensei em tocar, além das minhas composições, músicas que contassem a história da minha vida. “Carapeba” é uma lembrança afetiva da minha infância, gravada por Luiz Gonzaga. Fala das bandas de pífano de Alagoas, popularmente chamada de Esquenta Muié. Escolhida pra ser meu primeiro single, eu a vejo como um talismã que vai trazer boa sorte nessa minha nova fase musical.