Especial

Desligado da Fmac, Vinicius Palmeira entra na política para 'ampliar atuação cultural'

Economista e produtor cultural trabalha sua pré-candidatura a vereador pelo PDT; à frente da Fundação Municipal de Ação Cultural por sete anos, diz que seu grande legado foi uma política cultural realizada 'em parceria' com os artistas

19 de Agosto de 2020, 11:10

 

Sebage Jorge/ Editor

Vinicius Palmeira ocupou a cadeira de presidente da Fundação Municipal de Ação Cultural (a Fmac) por sete anos. Durante sua gestão pudemos observar diversos avanços nos processos culturais fomentados pelo município. Especialmente o cinema, que com o aporte dos editais e o empenho e união de seus criadores deu um grande salto nesses dez anos na capital e em outras cidades de Alagoas. Os editais criados por uma equipe qualificada e pré-disposta ao diálogo, receptiva a opiniões vindas de fora do núcleo governamental, dão a régua para medir diversas outras ações conduzidas pelo economista e produtor cultural enquanto gerenciou a Fmac.

Este ano, propondo-se a uma candidatura a vereador, pelo PDT (Partido Democrático Trabalhista), pediu exoneração e atualmente realiza esse trabalho de pré-campanha, participando de lives para debater não somente os assuntos da cultura, mas outros que envolvem a cadeia do entretenimento e do espaço urbano.

'O grande legado é a parceria com a comunidade cultural'/Foto/ Pei Fon

No corre-corre em que se transformaram as lives – para Palmeira e uma pá de artistas e comunicadores –, conseguimos fazê-lo desacelerar um pouco para trazer até nós essa reflexão sobre seus anos à frente da Fmac e sobre a cultura alagoana em si – e o que virá daqui para frente.

Acompanhe a entrevista.

Quanto tempo você ficou à frente da Fmac? Antes passou pela Secretaria de Estado da Cultura. Uma trajetória consistente de gestor cultural. O que você acha que foi a coisa mais importante que você fez nesse período?

Vinicius Palmeira – Estive a frente da Fundação Municipal de Ação Cultural por sete anos e quatro meses. Destacaria um leque de ações, programas e projetos importantes. Desde a reestruturação da Fmac, renovação de seu conselho político-cultural – que passou a contemplar todos os segmentos culturais – a ações pela implantação de uma política de editais, indo até a realização de grandes eventos públicos de massa, como São João, carnavais, “Maceió Verão”, “Natal dos Folguedos”, “Réveillon nos Bairros”. Tudo numa ressignificação das cadeias produtivas da comunidade cultural de Maceió.

Do que posso lembrar, a festa dos 200 anos de Maceió, em 2015, foi o único grande evento cultural realizado na capital, em praça pública, que realmente privilegiou o artista alagoano, colocando-o no palco principal. Ainda na sua gestão, eu não diria isso dos festivais de verão, capitaneados por estrelas da música nacional.

Palmeira – Realmente o espetáculo “Maceió Meu Xodó”, que contou com a participação de centenas de artistas e técnicos, foi um marco em termos de magnitude de produção cultural. 785 artistas de Maceió pisaram no palco para a comemoração dos 200 anos da cidade. É preciso acrescentar que a política de editais foi construída para os artistas alagoanos e toda logica de execução de nossos eventos foi desenhada para contemplar o artista alagoano em todos os seus segmentos. No “Maceió Verão”, citado na sua pergunta, para cada atração de fora tínhamos a participação de dois artistas alagoanos. Nas apresentações, o artista local convidava o artista de fora. O conceito era: este é um palco alagoano que tem um convidado de fora. O tratamento de produção era o mesmo para todos, desde camarim até a parte técnica. Em eventos públicos, um artista de fora sempre foi antecedido por um artista local. O primeiro evento que fizemos foi voltado para a cultura popular. Criamos o “Giro de Folguedos”, voltado para os artistas da cultura popular.

No Festival de Verão em 2016,/ Foto/ Pei Fon/ Prefeitura de Maceió

Mantivemos pautas voltadas para a comunidade afro brasileira e os artistas negros. São três grandes compromissos, anuais, com as comunidades de terreiros e seus artistas: “Xangô rezado alto”, “Vamos subir a Serra”, que é um evento da Semana da Consciência Negra, e “Festa das Águas”. Com as grandes associações e ligas de quadrilha junina, bumba-meu-boi e coco de roda, desenvolvemos e demos continuidade a outros grandes eventos: o “Forró Folia” (concurso de quadrilhas juninas), o “Festival de Bumba Meu Boi de Maceió” e o “Festival de Coco de Roda”. Nada disso seria possível se a gente não tivesse uma relação direta com os artistas. Recentemente promovemos, em parceria com o Clube do Jazz de Maceió, o “Jazz Panorama ao Vivo”, no decorrer do ano de 2019. Além de todas essas ações, toda a programação da cidade é recheada da participação de artistas em efemérides, receptivos locais, congressos, feiras gastronômicas. Nesses sete anos e meio, sempre estivemos de portas abertas para todos os artistas e a política de fomento às artes foi bastante significativa. Fora a promoção dos artistas, a Rede de Pontos de Cultura nas escolas de Maceió é outra ação de grande importância e que trouxe e irá trazer enorme impacto na rede de ensino do município. No próximo ano, as Redes de Pontos de Cultura, Ginga Capoeira e Folguedos na Rede Escolar, estarão presentes, simultaneamente em 96 escolas municipais, durante o período de um ano renovável.

A sua gestão na Fmac trouxe os editais de cultura – isso foi, provavelmente, o seu grande legado.

Palmeira – O grande legado deixado é a política cultural em parceria com a própria comunidade cultural de Maceió. Representada no Conselho Municipal de Política Cultural em seus 17 segmentos, numa estância paritária, cuja presidência é alternada entre a sociedade civil organizada e membro do governo municipal.

Depois de sete anos na Fmac, Palmeira é pré-candidato a vereador

E agora, candidatando-se a vereador, quais os seus planos?

Palmeira – Entendo que a representação da cidade precisa ser ampliada no âmbito da cultura, educação e turismo. A pauta da cultura ainda é subestimada. A ausência de um representante no parlamento municipal corrobora com a estagnação do setor e limita seu desenvolvimento. A cultura precisa de marcos regulatórios e legislativos que contribuam com o avanço nas suas relações de trabalho e na intersetorialidade com a educação, o turismo e com próprio patrimônio cultural material e imaterial da cidade.

Saindo da Fmac, você virou o rei das lives, rs...

Palmeira – Obrigado pelo “rei”. Tenho instrumentalizado a internet neste período considerado de pré-campanha. As lives fazem parte da ancoragem do tema da semana. Nos últimos meses, além de cultura, venho discutindo vários temas: educação, turismo, gestão urbana, protagonismo da juventude. Sempre com caráter contributivo quer seja no debate, na informação e mesmo na prestação de serviços à comunidade cultural de Maceió. A exemplo disso, operei ativamente no cenário nacional na discussão e na implementação da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc. Na véspera da votação dessa importante lei para a comunidade cultural brasileira, que aporta R$ 3 bilhões em recursos, fizemos uma live com a redatora da lei, a deputada federal Jandira Feghali e atuamos, inclusive, na articulação política junto à comunidade cultural, que vitoriosamente contou com o apoio integral dos noves deputados federais e dos três senadores de Alagoas. Esta é uma live da qual muito me orgulho. Outra live memorável foi com o cineasta alagoano Cacá Diegues, comemorando o Dia Nacional do Cinema e os 80 anos de vida do nosso mais famoso nome do cinema brasileiro. Ainda citaria uma live de registro histórico realizada com o escultor Léo Santana, apresentando as esculturas de sua criação para seis importantes vultos históricos de Alagoas. As lives têm sido uma grande ferramenta neste momento de pandemia para importantes conteúdos, desde campanha beneficente para artistas alagoanos, como “Arte que te quero viva”, do grupo Joana Gajuru, a articulações políticas e temas voltados ao interesse da cidade.

Elaine Kundera no 'Maceió meu Xodó': só aí nosso artista virou estrela/ Foto/ Sebage Jorge

Bem, falando em lives, isso nos leva à pandemia do novo coronavírus e ao isolamento social. O que acha da reabertura de bares e restaurantes, quando, de fato, não estamos imunes a possíveis contaminações quando saímos de casa?

Palmeira – Acho que tem de ter a retomada sim. Ela não é irresponsável desde que o protocolo seja cumprido. As instituições e governos não são suicidas, ao menos no que diz respeito ao Estado de Alagoas e sua capital, Maceió. Estamos no momento de declínio da pandemia e a necessidade de retomada é crescente, o que nos impele a uma reabertura cuidadosa. Se há sinais e números que apontam o declínio pandêmico, precisamos retomar a vida econômica. Entretanto, é preciso levar em conta uma série de novas atitudes, que devem ser seguidas à risca, tais como: o distanciamento, o uso de máscara, a não aglomeração e todas as medidas de segurança contra o coronavírus. Neste momento, as pessoas não podem voltar ao seu cotidiano anterior. A saída é priorizar o trabalho, com os cuidados necessários para se proteger e proteger a todos. Sou a favor da abertura e retorno gradual de todo o entretenimento.

Com José Lessa, Genaro e o prefeito Rui Palmeira no São João 2015/ Foto/ Karol Lessa

Como você se cuida? Está casado? Como é o seu dia a dia?

Palmeira – Pessoalmente eu priorizo o trabalho e saídas para atividades físicas. Ao entretenimento retornarei com mais cuidado. Solteiro na pandemia teria sido terrível. Casado e vivendo no mesmo ninho ajuda a suportar a tragédia que vivemos e nossos mais de cem mil mortos. Como moro em casa, tenho inúmeras ocupações que vão desde as tarefas domésticas, a jardinagem ao cotidiano de trabalho de um pré-candidato e os debates de seus temas semanais.

O Brasil, falando de saúde, de economia, de educação, de cultura, com a ascensão da extrema direita ao poder, vai de mal a pior. Qual a saída?

Palmeira – A saída é um grande diálogo nacional para o enfretamento à ascensão de políticas e atitudes de natureza fascista. É necessária uma coalisão das forças, que não aceitam governos totalitários, sobretudo, no que diz respeito ao desprezo e à estagnação das políticas sociais, das pautas da cultura, do crescimento econômico sustentável e do olhar para todos, que deve incluir as suas minorias.

Em casa: 'Solteiro na pandemia teria sido terrível'

Falando de apoio e incentivo dos órgãos de cultura municipal e estatal, nesse momento o que a cultura alagoana mais precisa?

Palmeira – Se falarmos neste momento, a cultura alagoana estará recebendo R$ 59 milhões oriundos da Lei Aldir Blanc, distribuídos entre a Secretaria de Cultura de Alagoas, com cerca de R$ 33 milhões, a Fmac, com R$ 7,2 milhões, e os municípios alagoanos, com cerca de R$ 18,8 milhões. É um momento em que a comunidade cultural precisa arregaçar as mangas e atuar na elaboração de projetos, valendo-se de sua criatividade para execução de ações culturais em tempos de pandemia. Nos últimos anos, o movimento cultural vem se aquecendo através da criação de novos fóruns e instituições. A formalização dessas instituições culturais cresceu exponencialmente, estando fortalecida e cada vez mais articulada na busca de seus objetivos.

Por que a cultura alagoana, um movimento de cultura alagoana, a exemplo da Bahia ou de Pernambuco, não estoura nunca?

Palmeira – Particularmente entendo que a cultura acontece permanentemente em qualquer território. Esse chamado “estouro” provavelmente se refere à programação de impacto na mídia. Tenho minhas dúvidas se o chamado “estouro cultural” é produto da espontaneidade de uma série de movimentos artísticos, em um determinado território, ou se é apenas um arranjo de mídia. O que me parece mais provável, pela observação do chamado “estouro cultural”, é que numa determinada realidade os agentes formuladores de políticas se pactuam a partir da maturidade já conquistada pelo entrosamento de redes, da cadeia produtiva e, juntos, promovem o que pode ser chamado de “estouro cultural”. Em termos de talento e criatividade, não tenho dúvida das possibilidades da nossa cultura caeté. Essa semana, por exemplo, o audiovisual estourou no Festival de Gramado com a seleção do filme “Trincheira”, de Paulo Silver. Há suas semanas, Serginho Jucá, representante da nossa gastronomia, estourou nacionalmente no [reality show da TV Globo] “Mestre do Sabor”. Só para citar alguns, mas poderíamos enumerar vários estouros alagoanos Brasil afora. Talvez ainda não tenhamos chegado a tal maturidade entre os setores produtivos, a comunidade cultural, o turismo, a comunicação e os principais gestores públicos para promoção de Alagoas na construção desse fim.