TV Boreal

'Cavalo' e suas plumas

Longa-metragem de Rafhael Barbosa e Werner Salles está sendo exibido on line na quarta edição do Festival Ecrã de Experimentações Audiovisuais; a partir desta quinta-feira (20) até o dia 30

20 de Agosto de 2020, 19:22

 

Lúcio Verçoza/ Colaborador

Um filme é feito de viço, de versos e imagens. Imagens chamamento. E “Cavalo” é um todo artístico que chama para o sonho. Um sonho que tem como matéria-prima a poética do real, mais fantástica do que a imaginação. É no chão do mercado da produção, na textura da lama do sururu, nas vozes do canto para os orixás e nas batidas do hip hop que “Cavalo” encontra suas plumas. Não é um cão sem plumas na beira do Capibaribe, ou uma raposa assustada e perdida em frente ao Palácio dos Martírios. São pessoas que cantam, são jovens que dançam e se banham na Lagoa Mundaú. É gente que herda a teimosia resistente da cultura negra, ainda que muitas vezes não saibam que são herdeiros dela.

'Cavalo' não é um cão sem plumas na beira do Capibaribe
É um filme com plumas; sua paisagem é um coice; sua estética é uma lâmina

“Cavalo” tem a poesia como método, a dança como argumento e a fotografia como um sentimento. É um filme da poética e da potência. A margem é o centro de “Cavalo”. A cultura é o seu coração. Uma cultura que tem pernas e bocas. Suas rotas não são turísticas, mas são ainda mais belas. Seus mirantes não são miragens, e mesmo assim são os mais lindos. Apesar dos chicotes e da carroça, tem plumas. É um filme com plumas. Sua paisagem é um coice. Sua estética é uma lâmina. Sua chuva é uma limpeza que banha além do corpo. Corpo que engole tantos caroços. Não só o corpo engole caroço. “Cavalo” mira a polpa que é escondida pelo caroço. O Cavalo galopa para não ser galopado.

Nas casas de umbanda, o Cavalo está ali, incorporando forças ancestrais da natureza

Nos terreiros de candomblé, nas casas de umbanda, o Cavalo está ali, incorporando forças ancestrais da natureza, compartilhando o seu corpo e energia vital com pretos velhos, caboclos, erês, ciganos, pombas giras e exus. A palavra como um acalanto, a dança como uma cura, o corpo como um portal para várias almas, como um portal para sentir a si mesmo. No reflexo das águas, ao som dos atabaques do ogan ou na batida de um hip hop que canta Palmares e o sonho real de liberdade, o Cavalo está lá (e também está no braço e no tronco que abraça, no corpo que abraça a alma, está na maneira de ser).

Os realizadores Werner Salles e Rafhael Barbosa

Dirigido por Rafhael Barbosa e Werner Salles, o longa-metragem “Cavalo” é um filme chamamento e encantamento. Enquanto a tela projeta, o Cavalo galopa pela cidade. Dança no asfalto noturno da Rua das Árvores, flutua com plumas no reflexo das águas da lagoa, sobe a Serra da Barriga e se engravida de memória, desce na estação do VLT (que vem do Rio Mundaú Largo) e segue por novos caminhos. Escrevendo, criando, refazendo e caminhando ao luar – entre um baculejo e outro, entre um tempo e outro, o Cavalo está lá, o Cavalo está aqui e em nós.

Você pode assistir ao longa-metragem “Cavalo”, gratuitamente, no site do 4º. Festival Ecrã de Experimentações Audiovisuais, a partir desta quinta-feira (20) até o dia 30 deste mês.

Para mais informações, acesse o site do filme e o perfil @cavalo_filme no Instagram.