Cultura

Roger Silva ganha concurso de fotografia sobre a covid-19 nas periferias do Brasil

A série de autorretratos 'Banzo', produzida em Maceió, ocupou o primeiro lugar da microbolsa El País e Artisan; as fotos falam sobre as dores e angústias da população negra em tempos de isolamento social

25 de Agosto de 2020, 16:43

 

Wilson Smith/ Colaborador

 

Historiador, professor de História e fotógrafo por amor e prazer de registrar fragmentos da vida cotidiana, Roger Silva, 40 anos, começou a aflorar. Seu encanto pela fotografia surgiu ainda na infância, quando aos 12 anos visitou uma loja de revelação no centro de Maceió acompanhado de seu pai, que trabalhava como padeiro na cidade. A fotografia de Roger Silva carrega consigo um olhar para as minorias, as imagens que ele produz são reflexos do seu interior e das suas vivências.

 

Natural do município pernambucano de Barreiros (distante 109 km de Recife) e radicado em Maceió desde os 15 anos, o fotógrafo – que mora na parte alta da cidade, no bairro do Eustáquio Gomes – foi destaque na edição brasileira do prestigiado jornal espanhol El País, no domingo (23). Silva é o vencedor da microbolsa de fotojornalismo “A Covid-19 nas Periferias do Brasil”, oferecida pelo veículo em parceria com a editora de livros de fotografia Artisan Raw Books e apoiado pelo grupo fluminense de jornalistas comunitários Favela em Pauta.

 

'É um manifesto imagético sobre nossas dores e lutas por sobrevivência', diz Roger Silva
'Banzo significa afetado por tristeza: palavra usada pelos africanos escravizados no Brasil'

O concurso era destinado a fotógrafos independentes com ensaios que retratassem a vida cotidiana da periferia durante a pandemia do novo coronavírus. O trabalho premiado foi a série de autorretratos "Banzo", que se sobrepôs aos 135 inscritos de todo país. A obra tem como narrativa as dores e angústias da população negra periférica em tempos de isolamento social. A conquista é um marco que dá ênfase ao talento e dedicação de Roger Silva, que começou a trabalhar aos dez anos, ainda no interior de Pernambuco, para ajudar a família. Em 2002, com a morte do pai, assumiu a função de provedor dos irmãos, juntamente com sua mãe.

 

O fotógrafo pernambucano/alagoano Roger Silva/ Foto/ Pedro Leão

A fotografia ganhou ainda mais significado e profundidade dos sentidos quando Silva ingressou em 2013 no curso de História na Universidade Federal de Alagoas (a Ufal). Paralelo às aulas em escolas privadas e trabalhos como adesivador, o artista produz seus projetos fotográficos e são com eles que se realiza. O cenário pandêmico rendeu três séries: “Casulo”, “Metamorfose” e “Banzo”, sendo o último responsável pelo prêmio. "’Banzo’ é um manifesto imagético sobre nossas dores e lutas por sobrevivência", pontua o fotógrafo. O nome do trabalho, banzo, significa “afetado por tristeza; que revela abatimento”. “É uma expressão usada pelos africanos escravizados no Brasil, que diziam estar banzos quando tinham tristeza ou saudades da sua terra”, explica o autor.

 

Segundo ele, as máscaras usadas no ensaio são alegorias dos medos, angustias e dores da população negra que vive nas áreas mais carentes durante a pandemia. “Estamos isolados na quarentena, mas isso também é uma questão histórica. Somos banzos desde muito tempo. A pandemia só aprofundou isso”, reforça. Roger Silva tem como traço da sua fotografia o preto e branco, mas suas imagens vão além da ausência de cores, cada clique reflete sobre a realidade que ultrapassa a forma.

Veja a matéria do El País sobre o artista, publicada no domingo. O portfólio de Roger Silva, seus projetos e ações estão disponíveis no perfil @rogersilvafotos do Instagram. Na rede social também estão os contatos para agendamentos de ensaios e compras das fotografias.