Cultura

E Rohmanelli criou o transpop: música, performance e discurso

Cantor e compositor nascido no sul da Itália (mas crescido no Norte, na região da capital Milão), morando em Florianópolis (SC) há 20 anos, diz que arte é ferramenta contra o preconceito

26 de Agosto de 2020, 13:18

 

Cláudio Manoel Duarte/ Colaborador

 

Rohmanelli nasceu em Salerno, uma comuna italiana ao sul daquele país europeu, na região de Campânia, cuja capital é Nápoles. “Mas morei a vida toda em Bérgamo [na região da Lombardia, no Norte, capital Milão)”, ele explica, pelo WhatsApp. Vive em Florianópolis (SC) há mais de 20 anos. É professor universitário. E um artista dedicado à música pop com forte influência do synth e tecnopop – o que quer dizer que o som que ele faz tem sim teclado, sintetizadores e muito vocal.

 

Sua presença no palco, intensa, com performance matadora, reforça a narrativa de suas letras sobre amor, sexo e identidade de gênero. Rohmanelli e seu transpop recuperam algo do punk com purpurina, beats eletrônicos e acidez poética. O site de música e entretenimento Tenho mais Discos que Amigos afirma que a arte de Rohmanelli veio “para criticar, com palavras fortes e claras, padrões sexuais, amorosos, políticos e religiosos”. “E para isso”, escreve o jornalista Tony Alex, “usa imagens de estética forte ligadas ao mundo LGBT, o BDSM, as tatuagens, as danças, o pole dance e mais."

 

Em setembro, Rohamanelli vem com novos projetos de single e álbum

Confira os clipes de Rohmanelli no canal YouTube do artista – além dos inúmeros remixes de DJs brasileiros e internacionais que você pode ouvir nas plataformas digitais. Aqui, também, você encontra todos os links para vídeos e áudios. No momento, o músico ítalo-catarinense se prepara para lançar dois projetos: “Não me ligue mais” (para 4 de setembro) e o álbum “[Brazil'ejru]” que sai dia 29, também em setembro.

 

Acompanhe a entrevista.

 

O que vem a ser o transpop?

 

Rohmanelli O termo transpop surgiu de uma dificuldade minha ao definir meu gênero musical, quando perguntado por jornalistas. Minha música e arte mistura muita coisa: pop, rock, punk, synthpop, funk, lírica etc. mas sem deixar de ter uma forma direta e simples de dizer as coisas, refrões imediatos, assim como no pop mais tradicional, então um pop além do pop, um transpop... Não tem a ver diretamente com questões de gênero ou das trans como muitos erroneamente pensam, é uma questão artística mesmo, conceitual, até por cantar e compor em vários idiomas.

 

'A música é uma ferramenta de mudança muito poderosa', diz Rohmanelli

A música é uma ferramenta contra o preconceito?

 

Rohmanelli Totalmente. A arte é uma ferramenta contra todo preconceito, pois nos revela multiplicidades, possibilidades de interpretação da realidade e cada artista filtra a realidade, através  da sua música, de forma diferente – isso é muito enriquecedor, mas uma ameaça também para quem nos quer todos idênticos, controlados, previsível. A música é uma ferramenta de mudança muito poderosa.

 

Você tem feitos várias parcerias na produção de videoclipes. Alguns gravados em Florianópolis, e outros produzidos fora do país.

 

Rohmanelli Sim tenho já uns dez videoclipes profissionais produzidos. Sete com o diretor catarinense Antonio Rossa; um na Bahia com Pico Garcez; dois com a produtora catarinenses Vinil Filmes, inclusive o de “Macho discreto”, o que mais teve repercussão até hoje... E um na Bélgica com direção do Van der Goes. O mais recente, com o Bruno Ropelato, é "Não me ligue mais", que sai 4 de setembro. Foram parcerias incríveis, todas. Eu sempre os procurei já com uma ideia e depois fomos desenrolando juntos tudo. Admiro eles todos e foi um grande privilégio.

 

'Me parece limitado pensar e criar arte sozinho'

Igualmente vejo parcerias de remixes de suas músicas, com DJs e produtores.

 

Rohmanelli Sim, verdade. Eu prezo muito parcerias. Me parece limitado pensar e criar arte sozinho, me fascina e me desafia entrar em contato com o universo criativo de outro artista e ver o que pode surgir. Com os remixes é sempre assim também, da estima recíproca nasce a ideia de fazer algo juntos – eu dou total liberdade ao produtor ou DJ, mando meus stems e deixo que faça o que ele achar melhor. Acho que um remix é uma evolução da música original e tem que ter a cara do produtor, não a minha... Sempre fiquei muito surpreso e feliz com todos os remixes, teve versão tecnobrega, funk, bahia bass, techno, orquestral, dub de músicas minhas. Acho isso sensacional, enriquecedor.

 

Pode detalhar sobre os projetos “Não me ligue mais” e o álbum “[Brazil'ejru]”?

 

Rohmanelli Com muito prazer, estou muito animado com esses lançamentos. O primeiro que sai dia 4, "Não me ligue mais", é uma música que compus no dia que faleceu o Belchior. O questionamento por parte de alguns da escolha de solidão dele me irritou, solidarizo com ele muito. Então este hino meio pop meio sertanejo ou de raiz é um manifesto de desejo de afastamento de toda essa carga de solicitação virtual, fake news, agressão nas redes, barulho inútil. Também pode ser vista como a tentativa de se afastar de um amor abusivo, enfim, cada um pode encontrar algo. O clipe foi tudo feito na quarentena, ficou realmente muito refinado e lindo, direção e edição do talentoso Bruno Ropelato. Participam dois artistas catarinenses muito especiais, Renata Swoboda e Wagner Éffe. A produção musical, assim como de todo álbum que sai dia 29 é do Binho Manenti. “[Brazil'ejru]”, escrito assim como fazemos nas transcrições fonéticas, è meu primeiro álbum inteiramente em português – na verdade este é o primeiro volume, o segundo vai sair ano que vem. Foi escrito nesses três anos, é um reflexo de tudo que vivenciei nesses 20 anos de Brasil e uma minha homenagem ao Brasil que amo – o das ruas, das contradições, das batucadas, mas também da mistura de tudo, da Bahia onde morei dez anos, do Carnaval, dos excessos, da paixão. Mas do sul também, das tradições todas, musicais e culturais que constituem este país único que amo de paixão e que gostaria que tivesse governantes melhores que realmente cuidassem de todo brasileiro e não somente de uma parte. Musicalmente é uma mistura de tudo, Ocidente e regionalismo, eletrônica fria e orgânico. É a primeira vez que um som me representa totalmente, tenho muito orgulho deste álbum e espero que todos curtam e escutem.

 

Seu corpo é um campo de batalha em sua arte musical? Percebo sempre em seus vídeos e shows que as performances perpassam por uma moda mais punk/bdsm/queer, assim como as coreografias com uma certa identidade camp. Tem sentido?

 

Rohmanelli Eu sou uma pessoa muito física, visceral, carnal, não sou nada contemplativo, ou muito pouco, hehehe, então o corpo para mim é o principal meio de conhecimento e testagem da realidade e das pessoas. Por ter também muita paixão pela dança que pratico até hoje e é minha grande paixão, tenho certa tendência em me conectar através do gesto, da pele, do corpo. Também pra quem teve ele questionado, abusado ou observado o tempo inteiro desde criança, não tem como não se tornar um manifesto, uma forma de resistência, uma armadura. Eu amo meu corpo, curto testar ele, até com prazeres extremos do BSDM [conjunto de práticas consensuais, sexuais, envolvendo geralmente dominação e submissão], ou com esportes e treinos e danças mais acrobáticas. Só me sinto realmente feliz quando meu corpo funciona. Isso se percebe muito bem na minha live. Minha performance é totalmente corporal e eu curto encontrar o corpo do público, me jogar nele, curtir ele – eu acabaria todo show com uma orgia coletiva.