Cultura

Músico e designer gráfico Mário Alencar fecha a Crooked Tree Records e anuncia novos projetos

Inclusive o selo Jambre, 'só de amigos'; artista diz que ficou 'paranoico' no início da quarentena e que o trabalho de desenhista e ilustrador ocupa todo seu tempo; ''a Crooked era muito trampo, ficou cansativo'

18 de Setembro de 2020, 09:12

Sebage Jorge/ Editor

O músico, designer gráfico, artista visual e produtor musical Mário Alencar diz que no começo da quarentena sua vida ficou “paranoica”. “Desde o início eu fiquei bem traumatizado, tive crises de ansiedade terríveis e um sentimento de angústia o tempo todo.” Talvez isso tenha motivado mudanças abruptas, como o encerramento das atividades do selo Crooked Tree Records. Quem diria que depois de quatro anos ralando de todo jeito em nome da arte e do amor à música, lançando continuamente seus múltiplos projetos e de amigos de norte a sul do país, o cantor e guitarrista da feérica banda Killing Surfers, o cara do complexo instrumental Sketchquiet e do dançante Movimento Tokyo (este com participação minha e do guitarrista Leonardo Santiago), fosse parar... Bem, não parou. Em julho fechou as portas da Crooked com o lançamento de um álbum coletivo incrível, que é um tributo ao cantor e compositor Daniel Johnston (EUA, 1961-2019), “My Life is starting over” – um disco recheado de amigos e de sentimentos de amor e grandeza dedicados ao adorável músico norte-americano, morto por um ataque cardíaco em setembro do ano passado. Mas aqui está o Mário de volta, cheio dos projetos novamente.

Em casa na quarentena: 'Fiquei bem traumatizado, tive crises de ansiedade terríveis'

Esses mesmos amigos que fizeram com ele o tributo ao Johnston, galera do Rio de Janeiro – Carlos Otávio Viana (Depressa Moço!), Leonardo Oliveira e Val Waxman (Humbra) –, foi quem chegou junto e, vejam só, surge um novo selo (“mas este é um negócio só de amigos”), o Jambre. – Não parou, né. E a Killing Surfers, que também saiu de cena (“está em stand by”), deu lugar a Lombraless, mais um projeto (sem lombra, hehe) que já tem perfil no Instagram anunciando primeiro single para novembro.

Sketchquiet no Antropofágico Miscigenado

Mário Alencar participou do movimento Antropofágico Miscigenado, que este escriba, junto com o guitarrista, cantor e compositor Edi Ribeiro, começou no terraço do Teatro Deodoro, alternando apresentações, também, no terraço do restaurante Zeppelin, ambos os locais no centro da cidade, em 2017. Naquele ano Mário ilustrou a capa e publicou meu primeiro álbum, uma coletânea, “Beatnik”, com faixas gravadas em São Paulo e em Maceió entre 2001 e 2006 – e ainda ilustrou meu livro de poesia (beatnik) “Álbum de Família”, premiado pela editora Graciliano. No ano seguinte, fez uma série de desenhos para o livro “Quando o 7 ficou louco”, um Drácula infanto-juvenil escrito pelo próprio Bram Stoker e lançado no Brasil pela editora gaúcha Piu.

O desenho do cara pode ser sombrio, melancólico, doce e até bizarro, com gente abrindo um buraco no coração ou segurando a própria cabeça no colo – mas é sempre um desenho caprichoso, firme e elegante: fino traço.

Muitos dos trabalhos de ilustração de Alencar podem ser apreciados em seu perfil no Instagram e no site aqui. No bandcamp da Crooked Tree Records e em todas as grandes plataformas de streaming, você encontra as diversas faces musicais do menino. Pesquise e bon voyage.

Mas, por enquanto, acompanhe a entrevista.

Tributo a Johnston: epílogo do selo

Você encerrou as atividades com o selo Crooked Tree Records, que já tinha quatro anos, mas quase imediatamente criou o Jambre, outro selo musical. Como foi isso?

Mário Alencar – Eu estava meio cansado de manter a Crooked, sabe como é, né, mais de 60 discos lançados e uma pá de gente se envolveu. Foi bom porque fiz muitos amigos, mas depois disso comecei a ficar mais ocupado com outras coisas sem ter muito foco para o selo, de estar lançando e ouvindo o pessoal que enviava e-mails. Então pensei que não iria mais dar conta disso sozinho. É trampo você ter de upar o disco, correr atrás de um bom texto para o lançamento, marcar a data, lembrar disso e tudo mais. Tem de se envolver mesmo e eu fazia bastante isso desde o início. Mas ficou cansativo. Priorizei outros trabalhos e acabei esquecendo mesmo do selo – e então resolvi finalizar as atividades. E a Jambre veio para manter os amigos que ficaram. Não estou nem querendo levar mais nada disso a sério – é apenas um hobby, algo que a gente bote a cabeça para fora da janela para respirar depois de um dia de luta. Porque música é um meio de escape e isso está tudo bem fazer junto com as pessoas que você mais gosta e admira.

Com a banda Killing Surfers no campus da Ufal

Você parece aquele artista irrequieto, realizando mil projetos ao mesmo tempo – agora deixando para trás coisas que não lhe satisfazem mais para recomeçar com novas ideias. É isso mesmo?

É mais ou menos isso, hahaha. A Crooked já havia feito bastante coisa, pelo menos ao meu ver. Então, sei lá, era hora mesmo de iniciarmos um novo ciclo.

Então, diga-nos, como vão as coisas? Muita agitação na pandemia?

Não muita, haha, mas é claro, quando há tempo estou sempre gravando algumas coisas. Talvez saia ano que vem um projeto novo, mas por enquanto estou aqui, no dia a dia tentando não esperar demais o que pode vir.

Sebage, Normando Galdino e Alencar em uma das Crooked Sessions, no bar Pub Fiction
'Durmo tarde, virado nos meus trabalhos de design'

O Jambre acaba de lançar o EP “Quarantine broken Ballads (For an infected dying Country)”, inaugurando as atividades do selo. É um trabalho muito interessante do Lonely Me, projeto solo do músico fluminense Val Waxman (da banda Humbra). E você, está trabalhando em algum projeto novo?

Então, como havia falado, estou sim. E envolve essa galera toda aí também, haha. Está ficando legal, o resultado já está bem definido para mim e para todos. Também tem algumas coisas novas que estou produzindo para o novo disco do macintop [assim mesmo, em minúscula], dessa vez com vozes. Mas tudo sairá ano que vem mesmo – 2021, quem sabe, seja o ano dos artistas se erguerem e terem seus novos tempos de produtividade.

'O Que disse o Pai no Leito de Morte', para o livro 'Álbum de Família'

Falando em “infected dying country”, como está sua vida nessa terra devastada pela covid-19 e por essa política de morte que estamos vivendo?

Paranoica, haha. Desde o início eu fiquei bem traumatizado, tive crises de ansiedade terríveis e um sentimento de angústia o tempo todo. Só saio o necessário, mas não vou mentir que às vezes chega a bater uma loucura para ver amigos, e é isso que estou fazendo, o máximo, quando posso.

Em relação à pandemia, você mudou muito os seus hábitos? Está morando sozinho? Como está o seu dia-a-dia?

Mudou sim, no início foi bem difícil, mas agora virou como nós chamamos de novo normal, hahaha, durmo tarde, virado nos meus trabalhos de design.

Obra toda ilustrada por Mário Alencar

Você tem um trabalho de artista visual bastante intenso. As ilustrações que você fez para o meu livro “Álbum de Família” são muito boas. O que mais você ilustrou?

Ilustrei apenas dois livros: o ‘’Álbum de Família’’ e o infanto-juvenil ‘’Quando o Sete ficou louco’’. Foi um trabalho bastante interessante, até porque o autor do livro é o próprio Bram Stoker, de ‘’Drácula’’, e isso me dá um orgulho de saber que consegui esse feito.

Vem novidade por aí? Você participou de uma coletiva na galeria Gama.

Essa coletiva foi legal. Foram mais de 30 artistas expondo na galeria e durou muito tempo lá, coisa de três meses – não me lembro muito bem, mas foi por aí. Deu um feedback bacana e eu pude também ajudar quando a exposição finalizou, doando minhas artes para arrecadarem alimentos para artistas que estavam passando dificuldade nessa pandemia. Me senti bem com isso.

Onirismo e sentimentalismo permeiam as ilustrações de Mário Alencar
Dramático: a cabeça no colo, o gato preto...

O que você queria que acontecesse ainda em 2020? Ou é melhor que não aconteça mais nada nesse ano terrível?

É melhor que não aconteça mais nada, hahaha.

E lives, estão rolando?

Rolaram algumas. Eu fiz uma live como Mario the Alencar [outro projeto] antes mesmo da Crooked acabar. Fizemos uma “Crooked Session na Quarentena”, que foi bastante agradável de fazer. Foram duas partes e deu certo – quem sabe eu faça outra, assim que eu estiver com tempo livre, hehe.