Cultura

Anjo afinado

Na quinta-feira (24) morria em Maceió, em decorrência da covid-19, aos 62 anos, o instrumentista e compositor Zailton Sarmento; homem do choro, em outubro lançou seu único álbum, “Goiaba com Aveia”, que reuniu chorinhos compostos pelo artista e que marcou os 50 anos de uma carreira luminosa comemorados em outubro em show no Teatro Deodoro; a morte de Zailton, músico genuíno e independente, artista por excelência e sem comprometimento, digamos, com o establishment, deixa uma lacuna em nossa escassa música instrumental (apesar de grandes nomes na História, desde Hekel Tavares até os contemporâneos Félix Baigon e Siqueira Lima); o trompetista Siqueira Lima, que dirigiu o show comemorativo no ano passado, destacou na ocasião o “compositor de identidade própria” – e é esse o legado de Zailton Sarmento, honestidade consigo próprio e pleno amor à arte; Gal Monteiro, jornalista e cantora, a convite do site, traça um perfil mais do que adequado, sincero e poético, do músico

28 de Setembro de 2020, 15:38

Gal Monteiro/ É cantora, compositora e jornalista

Zailton foi tocar em outros palcos! Ouvimos o alarde. Como assim? É, se encantou entre os serafins tocadores de cordas e foi com eles. Nós, os deste palco, perdemos um grande artista e um grande companheiro de jornada e nos sentimos meio incompletos, meio desafinados.

Ainda bem que deu tempo de realizar um de seus lindos sonhos: gravar um CD, o álbum de choros "Goiaba com Aveia". Foi por um triz. Mas agora temos seu som registrado para sempre, apesar de que já estava tudo no coração e na cabeça da gente. Porque quem ouviu uma vez, jamais esqueceu.

Porém, queremos tanto nos vangloriar de ter estado na vida dessa pessoa única, que precisávamos de uma prova da sua existência, da sua passagem luminosa pelo planeta azul, para mostrar às gerações vindouras.

Show 'Goiaba com Aveia', outubro de 2019, Teatro Deodoro; vídeo do canal Alagoas Musical

Nós, o Coretfal, bebemos de seu talento até onde pudemos. Mas faltou muito, ainda, porque era infinito. E, junto com ele, recebemos os aplausos que são régua, compasso e oxigênio para o artista. Ele deixou, em nossas partituras, memórias de talento e generosidade. Ares de homem-menino. Homem dos sete instrumentos. Menino de rir afinado com os anjos.

O choro 'Cantinho de Seu Moacir' é uma homenagem a Seu Moacir Canhoto, que tocava violão de sete cordas no Bar do Galego, legendário reduto boêmio e de chorões na capital; ouça aqui

Nos encontros do Marista – impossível não lembrar –, ele, generosamente, sugeria. – Gal, canta aquela da Mercedes Sosa. Juntava-me à linda voz da Lavínia, e era só a deixa para que a cantoria varasse a tarde, às vezes, a noite. Nos misturávamos, democraticamente, sabendo ou não cantar porque o que importava era o momento, o grande encontro.

E era assim desde o colégio, desde a adolescência: um talento feito diamante, que já nasceu brilhando e a vida lapidou. Um gênio de mãos ágeis, ouvido absoluto e coração gigante que se abraçou com a música, de quem nunca mais se apartou.

O instrumentista começou a tocar e ensinar com sete anos

Foi embora devagarinho, como era do seu jeito. Penso que para não assustar demais os companheirinhos de vida e música. Suave, resiliente, sem querer ir, mas indo de mansinho, fazendo de conta que não, só pra gente lembrar que ele nunca irá, de jeito nenhum!

Lutz chegou na vida dele como um tsunami de luz. E fundiu seus sonhos, sua energia, seu amor ao dele, incondicionalmente, a ponto de salvá-lo muitas vezes; de impedir que nos deixasse ainda mais precocemente. Receba meu abraço muito apertado, guerreira de luz. Que missão bem cumprida, essa sua!

Vai, Zailton, não queremos embaçar seu novo caminho de luz com nossas lágrimas. Estamos cantando para você. Siga o som e brilhe mais do que a mais brilhosa das estrelas. Guarde nosso carinho, dê o tom para que os anjos toquem afinado. Agora você é um deles. Com carinho e muita música.