Cultura

Aline Marta Maia quebra o jejum dos palcos e retorna ao cinema

Em 2020, a atriz, também publicitária e cantora, aparece em dois longas-metragens e um curta de sucesso; ainda vem mais por aí

26 de Outubro de 2020, 10:04

Claudio Manoel Duarte/ Colaborador

Aline Marta Maia está nas telas. Aliás, neste ano de 2020 vários filmes com participação da atriz foram selecionados para festivais e mostras, tanto no Brasil quanto em eventos internacionais. É o caso dos longas-metragens “Curral”, de Marcelo Brennand, e “Casa de Antiguidades”, de João Paulo Miranda Maria – este já exibido no Festival de Cannes, na França. Os dois filmes foram selecionados na categoria Novos Diretores da atual 44ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece em sessões on line, também com algumas sessões presenciais, na capital paulista. Em “Casa de Antiguidades”, Aline atuou ao lado desse ícone do cinema nacional que é Antônio Pitanga.

A peça "A Lição": teatro do absurdo com direção de Lael Correia

Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Alagoas (a Ufal), a atriz reserva outros talentos, como cozinhar e escrever textos publicitários e, claro, cantar. Ao lado da cantora, compositora e poeta Rosália Brandão (Maceió, 1958-2015), formou no final da década de 1980 a única banda de rock alagoana liderada por mulheres, a antológica Pensão Familiar.

Nesta entrevista, Aline Marta Maia comenta sobre sua trajetória de formação como atriz e sobre suas atuais experiências no cinema.

Sua formação como artista –  atriz, principalmente – se deu fora de sua formação acadêmica (Comunicação Social). Em que momento isso começou, e como você seguiu na direção da arte e especialmente no teatro?

O bem sucedido curta-metragem 'A Barca', de Nilton Resende

Aline Marta – Na realidade se deu totalmente por acaso, em um longínquo ano de 1976, aos 14 aninhos. Oficialmente fui com uma amiga para a missa, mas houve um desvio no meio do caminho e acabei em um teste para uma peça teatral. E nessa loucura toda, pois nunca havia nem pensado em entrar para a vida artística, peguei o papel principal. A peça era “A Bomba atômica”, de Pernambuco de Oliveira, e o grupo era o Teatro Novo, uma dissidência da ATA [a companhia Associação Teatral das Alagoas]. De uma hora para outra eu estava ensaiando no Teatro de Arena ao lado de figuras como Homero Cavalcante, José Márcio Passos e Ronaldo de Andrade, entre outros atores já conhecidos no meio, aqui da cidade.

Com diferentes formas de atuação, destacaria o Teatro Universitário Alagoano (o TUA), a companhia do diretor Lael Correa (Infinito Enquanto Truque) e o grupo Teatro Novo (ligado à ATA), cada um desses grupos com seus próprios caminhos estéticos. Quais os diferentes impactos desses diversos caminhos em sua formação de atriz?

Aline – O início, ou melhor, o bê-á-bá, o básico mesmo, eu aprendi no Teatro Novo. Como me portar sobre um palco, como andar, como falar, enfim, tudo. Toda a minha base vem daí. Depois de um grande lapso de tempo – pois iniciei ainda quando estudava no Marista, cheguei a fazer uma peça no colégio –, voltei a fazer teatro, já na faculdade, ainda com o Teatro Novo. Encenamos as peças “Estrela Radiosa”, de Ronaldo de Andrade, e “Comeram D. Pero Fernão de Sardinha”, de Sávio de Almeida. Foi nessa sequência que tive, podemos dizer assim, um refinamento desse fazer teatro, um certo amadurecimento do que antes era apenas o play, o brincar. De brincante me tornei aspirante a atriz. Já no TUA tive apenas uma experiência de teatro de rua que foi muito legal, porém, não era para mim. Naquela época o foco do grupo não era a arte propriamente e sim a luta social. Não era a minha praia. Levamos nove meses ensaiando metade de um texto [“Eles não usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri] que não conseguimos chegar à cena final. Desisti (risos). Já a experiência no Infinito Enquanto Truque foi puro desafio. Pela primeira vez fiz um personagem do gênero masculino. Experimentei o teatro do absurdo, convivi com a genialidade de Lael Correia que, além de eu ter um carinho especial pela pessoa, tenho admiração profunda por seu trabalho, seu modo de pensar arte.

Em 'Casa de Antiguidades', filme concorrendo à categoria Novos Diretores na Mostra de SP

E o cinema? Como surgiu em sua vida? Pode fazer uma cronologia e as experiências que cada filme trouxe?

Aline – Minha primeira experiência com cinema, como atriz, começou em 1987, com o filme “Tana’s Takes”, o primeiro média-metragem de Almir Guilhermino. Tive a honra de contracenar com as saudosas Regina Dourado [Bahia, 1953-2012] e Anilda Leão [Maceió, 1923-2012]. Ainda na época do filme de bitola e da moviola. Sou veinha, fio (risos). Passei muitos anos sem fazer cinema, afinal não eram muito comuns as produções locais. Tudo era muito complicado e caro. Com a chegada do digital, as coisas ficaram mais fáceis e melhorou ainda mais com os editais. Fiz participação especial, em 2007, no filme “Desalmada e atrevida” e, em 2017, participei do curta “A Prima”, ambos dirigidos por Pedro da Rocha. Porém, os diretores da nova geração não me chamavam para as suas produções. O que é compreensível, já que cinema é uma arte de caracteres e não de caracterização, como é o teatro. Enfim, em 2017, recebi o convite de René Guerra para trabalhar com ele em “Serial Kelly” (ainda não lançado) e esse filme foi fundamental para que, no ano passado, eu fosse convidada a trabalhar, primeiramente, no longa “Curral”, de Marcelo Brennand, e logo em seguida em “Casa de Antiguidades”, de João Paulo Miranda Maria. Ambos concorrendo atualmente na Categoria Novos Diretores da 44ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O ano de 2019 foi muito produtivo para mim. Também participei do curta “A Barca”, de Nilton Resende, que está percorrendo, com êxito, vários festivais. Foi muito bacana fazer parte desse projeto tão lindo. A grande experiência de trabalhar em “Casa de Antiguidades” me deu o gostinho de conviver, de igual para igual, com atores do calibre de Antônio Pitanga e Ana Flávia Cavalcante. Assim como também entender e aprender como é um grande set de filmagem, com pessoas do gabarito de Benjamín Echazarreta – que fez a direção de fotografia –, e de João Paulo Miranda Maria, um diretor muito talentoso. Foi um grande privilégio.

No set de 'Casa de Antiguidades', com Antônio Pitanga e João Paulo Miranda Maria

Quem são os atores e atrizes do cenário artístico alagoano que você destacaria?

Aline – Sem sombra de dúvidas, uma atriz que é um verdadeiro animal cênico é Ane Oliva com quem trabalhei em “Serial Kelly”, “Curral” e “A Barca”. Ela tem já vários filmes em seu currículo. Outra atriz que muito me impressionou foi Wander Melo. Ela está magistral em “A Barca”.

A música também está em sua vida, como artista.

Aline – Sim, ela fez parte de um ótimo momento de minha vida, mas eu sempre soube que a minha relação com ela seria passageira. A música na minha vida nunca foi o objetivo principal. Inclusive faz um tempão que não canto nem mesmo no banheiro (risos).

2020 foi um ano que vários filmes em que você atuou circulou em festivais, inclusive internacionais.

Aline – Pois é, bem que 2020 poderia ter sido um ano menos caótico. Adoraria ter conhecido Cannes, entre outros locais a que o filme “Casa de Antiguidades” foi indicado. Mas a pandemia não ajudou. Ao mesmo tempo, com a impossibilidade das sessões presenciais, as exibições online levaram o cinema para pessoas que não teriam a oportunidade de vê-los presencialmente. Acho que tudo tem um lado bom. Perdemos no glamour, mas ganhamos na inclusão de acessos aos filmes.

O que poderia acontecer em Alagoas para que a arte e os artistas encontrassem melhores condições de profissionalização?

Aline – Em primeiro lugar mudar esse presidente que aí está e que só desmantela a cultura e a arte desse país – afinal o problema vem de cima mesmo. Em segundo lugar, não sei, com a indicação de “Casa de Antiguidades”, poderíamos fomentar uma indústria cinematográfica em Alagoas, pensando em uma iniciativa que não seja estatal.

Qual a motivação da arte em sua vida?

Aline – A mais leviana possível. Eu gosto de brincar.