Cultura

Maria Amelia Vieira faz arte na quarentena e prepara novo projeto para o barco educativo Museu no Balanço das Águas

Artista criou a série de objetos de cerâmica 'Isolamento', que será o foco do evento 'Vila Gastrô', em seu sítio no bairro de Fernão Velho, misturando arte, natureza e cozinha; embarcação atracada em Pão de Açúcar passa por manutenção

28 de Outubro de 2020, 10:28

Sebage Jorge/ Editor

Maria Amélia Vieira é uma navegante, uma caçadora de tesouros populares e artista contemporânea sensível, genuína e magistral. Nos anos 1980, liderou um movimento de renovação das artes, o Vivarte, que continua vivo em suas andanças pelo Sertão, em posicionamentos estéticos com que somos brindados diariamente nas redes sociais e, sobretudo, em sua obra viva – seja como criadora atualmente realizando delicados trabalhos em cerâmica, seja como colecionadora garimpado pérolas concebidas fora do eixo da cultura e dos ditames de centros culturais como a nossa própria limitada capital e de outras mecas cultas e ilustradas alhures.

É uma força da Natureza. E a ela a artista sempre recorre, buscando o barro, o mato, o ar puro das cidades do interior e as águas do Rio São Francisco. A navegante que, junto com o marido, também artista, o grande Dalton Costa, embrenha-se na Caatinga, exercitando sua habilidade de mestra para levar a crianças, jovens e adultos curiosos e talentosos uma arte e um conhecimento forjados num movimento contínuo de expressão sobre a pedra fundamental do Vivarte lançada na década de 1980; entre as paredes e salas coloridas e convidativas da galeria e museu de arte popular e contemporânea Karandash, funcionando no centro de Maceió desde o ano 2000, e, finalmente, sobre as navegações que, a partir de 2008, o Museu no Balanço das Águas – que é uma mistura de galeria e barco-escola flutuante – realiza pelas cidades ribeirinhas do Baixo São Francisco.

Galeria e Museu Karandash no centro de Maceió: arte contemporânea e popular desde 2008

“A Galeria Karandash está parcialmente fechada ao público, atendendo com agendamento um a um ou grupo familiar de até seis pessoas. Mantendo o distanciamento e as medidas de prevenção e proteção, tais como higienização do espaço, uso de álcool em gel e máscaras”, a artista explica o modo como ela e Dalton estão lidando com o distanciamento social e a necessidade de tocar os negócios de arte. “O horário continua o mesmo, das 8h às 12h e das 14h às 17h”, avisa, informando que, ao mesmo tempo, tenta retomar serviços presenciais, especialmente o trabalho de criação, produção e controle de estoque. “Estamos discutindo novas maneiras de se apresentar ao novo mundo.”

Acompanhe a entrevista.

Performática: 'A vida se veste de Arte'

Em uma frase, como ficou a vida depois do novo coronavírus?

Maria Amélia Vieira – Depois do Caos e do Mal, a vida se veste de arte e aos trancos e barrancos sai da toca.

E como está a rotina do casal na quarentena?

Maria Amélia – A nossa rotina na quarentena é de experimentos e muitos mergulhos. Ficamos em contato com os nossos medos, revoltas, raivas, tristezas. Conversas intermináveis sobre os nossos sonhos, desejo incontrolável de mudar o mundo, encarando o espelho, vestindo pijamas, dormindo e comendo sem hora certa, produzindo arte, criando sem parar, descobrindo novos assuntos, abrindo baús, morrendo e nascendo todos os dias. Eu muito mais envolvida com sentimentos contraditórios do que o Dalton. Em 24 horas de muitos dias eu me via chorando, rindo, brincando. Assustada, revoltada, enfim, essa pandemia mexeu comigo. Voltei a comandar o fogão e mergulhei em receitas de família e criei outras incríveis. Descobri um talento para desidratar frutas e descobrimos que o nosso casamento é muito bommmmm.

Desenho de quarentena para a série de objetos de cerâmica 'Isolamento'
Pássaro é imagem recorrente na obra de Maria Amélia Vieira

Você escreve e publica diariamente no Facebook... Criou uma espécie de diário da quarentena, não é?

Maria Amélia – O "Diário do Isolamento" surgiu nos últimos dias de março. Ainda impactados com o fechamento das nossas atividades, trancados no nosso apartamento, tínhamos medo até de pegar o elevador mesmo munidos de máscaras. Ficamos no primeiro momento paralisados de medo. Sabemos que fazemos parte do grupo de risco por inúmeras razões. Escrever, falar do isolamento, tentar mostrar o nosso cotidiano para as pessoas que nos seguem nas mídias sociais, continuar postando o nosso trabalho e as nossas intenções nos dava a impressão de que estávamos vivos e produtivos. Lembro que uma noite eu acordei, entrei no meu escritório, um misto de ateliê minúsculo e biblioteca, e no meu caderno de capa vermelha desenvolvi toda uma série de cerâmica. Eu desenhava sem parar. Em 48 horas pude contar uma coleção de cinco imagens com versões e formas diferentes. O Caracol, o Pássaro, a Estrela, os Corais, a Travessia. Nascia assim a série “Isolamento”. Acredito que devo ter postado 60 ou mais textos com ilustrações, desenhos, fotos "provisórias" no Instagram @galeriakarandash e no meu perfil Maria Amelia Vieira no Facebook.

Além de ceramista imaginativa, artista pilota fogões; em dezembro tem festa gastronômica
Habitando medos e a própria arte

Também se permitiu a uma revisitação dos artistas que compõem o acervo da galeria, aliás, vocês tiraram um bocado de coisa do fundo do baú...

Maria Amélia – As nossas idas solitárias no nosso local de trabalho, a Karandash, nos permitiram abrir baús e descobrir preciosidades que estavam guardadas há muito tempo. Como por exemplo, uma série de esculturas em grandes formatos do artista Zé Bezerra, do Vale do Catimbau, Pernambuco; um conjunto de pássaros do artista João Batista, de Lagoa da Canoa; duas caixas com esculturas de cabeças de Dona Irinéia, guardadas por dez anos; as primeiras peças de Fernando Rodrigues [Pão de Açúcar, 1928-2009]; a primeira cadeira do artesão Valmir Lessa; esculturas do ceramista Tota e muito mais.

Amores: o marido e a filha Joana

Quais são os destaques da galeria atualmente?

Maria Amélia – Estamos nos redescobrindo como artistas. A Karandash está amorosamente abraçando a nossa produção de artistas. Dando mais visibilidade ao nosso trabalho autoral. Temos algumas novidades na arte popular. Cícero, um artista peculiar, interessantíssimo, que descobrimos e estamos dando curadoria ao seu trabalho; os pequenos aprendizes do Sertão; Jailton, outro artista incrível, e uma coleção surpreendente do mestre Eraldo, da Ilha do Ferro [Pão de Açúcar]. Estamos, também, adquirindo novas peças de artistas antigos que já tínhamos no acervo, entre eles, André da Marinheira, Geraldo e Zulmira Dantas.

Quanto ao trabalho autoral, desenvolveu algum novo projeto, uma nova exposição? Pessoalmente, artisticamente, como andam suas mãos, seu coração e mente, seus pinceis, suas tintas, suas cores, seu barro e o seu espírito?

Dalton Costa trabalhando no ateliê no porão da galeria Karandash

Maria Amélia – O meu novo projeto é publicar o “Diário do Isolamento”, com ilustrações que fiz durante a pandemia, e a série de cerâmica. Há, ainda, uma espécie de livro/ catálogo com lançamento e exposição previstos para o ano que vem. Em dezembro próximo, a Karandash promove um evento fechado para 60 pessoas, com o título “Villa Gastrô”. Uma experiência de arte, natureza e gastronomia, tendo a minha cerâmica como foco. Será no sítio Villa da Figueira, em Fernão Velho. O projeto foi concebido pela produtora de eventos Just Start.

Estamos chegando às eleições municipais. Nesse momento de um Brasil devastado pela mentira/ignorância, pela prepotência/tirania, como você se sente e qual a sua verdade na hora do voto para prefeito e vereadores de Maceió em novembro?

O apartamento do casal é pura arte (à esquerda quadro de Dalton)
Na Karandash, seguindo as regras de higiene e distanciamento

Maria Amélia – Ah, essa política horrorosa que temos no nosso país. Votar com consciência.  Esse sempre foi o meu lema. Pesquisar os candidatos e quem está por trás dos candidatos. Tentar admitir que as verdadeiras intenções são veladas. Reconhecer que somos responsáveis por todos os resultados devastadores que o falso político fabrica. Aprender a votar.

E o Natal, o que você espera do Papai Noel?

Maria Amélia – Do Papai Noel eu espero trégua, uma pausa, um hiato, e depois... Que ele traga apenas um vento de paz, harmonia, energia e solidariedade para mim e para todos os habitantes do planeta.

Como ficou o Museu no Balanço das Águas nesses tempos de pandemia?

Maria Amélia – O barco Museu no Balanço das Águas está atracado no cais da cidade de Pão de Açúcar. Até meados de 2021 não deveremos fazer nenhuma ação no Rio São Francisco – seja como local de oficinas e exposições ou deslocando-se pelos municípios ribeirinhos. Estamos aproveitando para fazer a manutenção e alguns reparos necessários para preservar a sua integridade. Iniciaremos um projeto virtual com a contrapartida do Prêmio Darcy Ribeiro, promovido pelo Ibram [Instituto Brasileiro de Museus] – o Museu Coleção Karandash foi contemplado com o primeiro lugar. Esse projeto, que já está em andamento, será concluído dentro desses 90 dias.