Maria Emília Clark desafia a 'clausura' para seguir pesquisando e fazendo balé

Dançarina e coreógrafa, que atuou profissionalmente com a companhia paulista Stagium, há 20 anos mantém escola e grupo de dança em Maceió; em entrevista, diz que busca realizar ações 'que reestruturem o universo cultural alagoano, brasileiro e universal'

10 de Novembro de 2020, 08:22

Sebage Jorge/ Editor

Maria Emília Clark é uma estrela da dança nesta nossa capital ao mesmo tempo cosmopolita e provinciana. O insipiente às vezes arrojado show business desta cidade – que era um povoado de engenho de açúcar, com nome em tupi, Maçayó –, uma vez a chamou de Maceyork. Por muito pouco tempo na década de 1980, essa Maceyork foi um agitado clube noturno (club, discoteca, boate) no bairro histórico e central do Jaraguá. Por essas e outras diversidades identitárias (literária, indianista, hedonista, musical), sem dúvida Maceió comporta vivências e tendências progressistas – e até revolucionárias. Mas já fomos chamados, também, de ninho de cobras – pelo poeta e escritor maceioense Lêdo Ivo (1924-2012), em seu romance justamente chamado “Ninho de Cobras” (Rio de Janeiro, ed. José Olympio, 1973), bem, sobre esse aspecto da capital, não precisamos nos estender. Bastante sentir a pressão – e a solidão.

'Maria Emilia Clark: Dança e Socialização', vídeo da Diteal lançado há três meses

Maria Emília Clark é essa bailarina progressista, atenta aos sinais, pesquisadora, de um carisma enorme. E arraigada a Maceió, às velhas e novas Alagoas. Deu muitos saltos por aí, rodou sobre sapatilhas Brasil e mundo afora – distante do ninho alagoano, sob a batuta do casal Marika Gidali e Décio Otero, papas da dança brasileira contemporânea que comandam em São Paulo a companhia Ballet Stagium. Morando na capital paulista, Clark firmou afinal seu background profissional numa das maiores companhias do país.

Bailarina dá aulas on line e participa de lives
'Clausura', Clark legenda selfie em seu apartamento

De volta a Maceyork. Há 20 anos mantém a escola e companhia de dança Ballet Maria Emília Clark. Uma artista guerreira empenhada em transformar esse momento crucial em novas e importantes coreografias. Transformando o próprio negócio – o ensino da dança – para se adequar às necessidades do momento e sobreviver. E vencer e retornar com mais força ainda.

Acompanhe a entrevista.

Como foi nos primeiros momentos enfrentar o novo coronavírus – ou melhor, como isso afetou sua vida profissional e pessoal?

Maria Emília Clark – Precisamos escrever a  história atual, iniciando com um  capítulo em que a não presença veio afetar as relações pedagógicas, criativas e coreográficas, determinando um vácuo entre o artista e sua obra, entre os alunos e o programa acadêmico de formação do bailarino clássico e projetos coreográficos diversos, base de meus estudos e formação. Neste momento, quando a sociedade adoeceu, não tenho como ficar bem, mas preciso retirar a bondade que existe em todos, no sentido de caminhar junto, com ações que reestruturem o universo cultural alagoano, brasileiro e universal. Desde o dia 19 de março, adotamos a atitude universalizada do isolamento social. A escola, a companhia e o trabalho voluntário com as 50 crianças da rede pública de ensino do Estado [projeto em parceria com a Diretoria de Teatros de Alagoas, Diteal), foram suspensas. Todas as atividades presenciais e consequentemente a paralisação financeira veio como consequência. Passei inicialmente a lecionar, abertamente, via cinco lives diárias – estruturei grupos de aulas por nível técnico. Fiquei por quase três meses assim. Percebi então que precisava reunir mais a nossa clientela e fechei as aulas em plataforma digital, a Zoom. Isso durou um mês. Todavia, por conta do tempo pré-determinado de 45 minutos, acabei optando por outra plataforma, a Google Meet, que possui um tempo mais abrangente gratuito. Pessoalmente e profissionalmente, passei também a conectar a minha energia criativa e prática em ações de cunho memorialista, como separação de fotos, históricos e registros, pesquisas sobre futuras obras coreográficas, como “Cérebro”, em torno da ELA, a Esclerose Lateral Amiotrófica – projeto este que iniciarei brevemente via ações não presenciais, provavelmente no Google Meet. Um desafio a ser concretizado.

Aluna do projeto voluntário em parceira com a Diteal em aula on line

Você mantém a quarentena? Procura se informar sobre o vírus, como está administrando isso?

Clark – Fui me adentrando em projetos, convocações e práticas a mim solicitadas, como também alguns projetos de culminância, com apoio aos artistas alagoanos. Primeiro projeto foi o vídeo doc em parceria com a Diteal, uma delicada celebração de um espaço grandioso como o Teatro Deodoro, com todos os cuidados, com a música de Ennio Morricone – um convite à vida de tantos artistas, alunos, comunidade da rede pública de ensino que adentra o teatro e gera vida. Dessa forma cumprimos a importância da cultura em seu principal objetivo que é auxiliar com a educação e a formação de plateia. Foi uma celebração emocionante, diante do momento de fragilidade histórica que vivemos. Também fui selecionada pela Secult [Secretaria de Estado da Cultura], entre 30 projetos de apoio ao artista alagoano: meu “Projeto Live" sobre a “A Construção de um Trabalho coreográfico profissional". Num terceiro momento, fui convidada a participar do desfile on line “Renda-se”, idealizado pela produtora cultural Mirna Porto Maia.

Desfilando para o evento de moda on line 'Renda-se', realizado em agosto
Com o balé Stagium Maria Emília Clark atuou em palcos internacionais

E a escola de balé – alguma alternativa virtual ou está completamente fechada? Como isso repercute em sua vida pessoal – por exemplo, seu orçamento?

Clark – O mais importante de tudo, neste período de isolamento e desde sempre é que todos os dias preciso aprender e apreender alguma informação técnica do balé, da História, das artes e da humanidade como um todo. Sou uma inquieta curiosa, sempre. Mas está tudo parado.

'Nigrum' (1999): trabalho voluntário, com os produtores Gustavo Leite e Mirna Porto
'O Acendedor de Ilusões' (2016), sobre o cineasta Joaquim Alves

Fiz o programa do governo por três meses e voltei a assumir tudo já há quatro meses. Agora preciso me reorganizar. Até o momento, pensei em todos. Agora, pensando em mim, resolvi fazer uma ampla demissão para poder voltar presencialmente, depois do Carnaval. Essa atitude veio após sondagem ampla com os pais e alunos e a conclusão foi que 85% dos alunos somente retornarão em 2021. E com 15%, não consigo administrar o negócio. As aulas, os links, são enviados a todos os alunos, pagantes ou não. Cumpro o meu papel de entendimento e solidariedade. Segurei tudo via reserva pessoal – daí a importância de você possuir um capital de reserva para não entrar em ações financeiras complicadas. Mas retornar, agora, só em 2021. Para o público das escolas de balé, o mês de dezembro a fevereiro é inferior ao montante dos meses de março a novembro. Administrar significa: analisar e agir no momento adequado.

'Chalita', sobre o artista visual Pierre Chalita (Maceió, 1930-2010): coreografia de 2007

Em 2018, por conta da estreia do balé “A Divina Causa” você dizia: “Cada um de nós deve construir e insistir em seguir com os ideais de unificação, de unir o quintal ao jardim, de também ter o poder de se indignar quando for preciso, de incorporar o que de bom foi concebido e pontificado”. A pergunta é: o quanto você está indignada agora?

Clark – Fiquei incomodada inicialmente. Quando os nossos recuaram, fiquei constrangida em cobrar ou questionar, pois sempre tive o entendimento da causa. O que acontece é que tenho muitos alunos na faixa de três a sete anos. Isso é muito bom para uma escola, pois permanecerão alguns ciclos, mas esta faixa não se adaptou às aulas não presenciais de balé clássico, com toda criatividade – e olhe que eu sou muito criativa. Fico indignada com a maldade humana, com as queimadas no Pantanal, com as desigualdades sociais, com a morte dos nossos indígenas, com o racismo e outras negações. Eu como bailarina profissional, que atuou na companhia Ballet Stagium, com universalização das minhas ideias e práticas, e também como assistente social formada pela Ufal, através da dança dou a minha contribuição maternal e espiritual também ao nosso Estado. Sou de fazer e não de reclamar. Sou por inteira em um lugar que pode avançar em suas políticas públicas culturais, retirando parte da burocracia existente nos editais.

Dias melhores virão: 'Precisamos acreditar que tudo isso irá passar'

Há previsão de uma segunda onda da covid-19. O governo não se preocupa em controlar a pandemia e isso, ao que parece, continuará indefinidamente. Por outro lado, os artistas precisam descobrir outras formas de se expressar. Quais as suas alternativas?

Clark – Eu ainda estou reservada, cautelosa, não tenho ainda segurança para as atividades cotidianas. Uma criança de três ou quatro anos não ficará de máscara em uma ou duas horas de aula – colocando aí o translado etc. Estou, no momento, escrevendo, andando ainda em volta das mesas, sempre com um compositor clássico ou contemporâneo me acompanhando – aproveito, antes ou depois, e já dou uma estudada em sua biografia (risos). Faço isso diariamente, caminhar em volta das mesas, passando também por momentos de oração e fé. As alternativas são: interiorização e o que chamo de criação desafio, fazendo coreografia não presencial via Google Meet. Aproveitei esse período, também, para pintar e organizar a escola, que é um espaço cultural. Aguardando a vacina chegar... Teremos de seguir ainda por algum tempo com as máscaras, as de proteção, e não com as máscaras humanas da negação. Existe sim a possibilidade de uma segunda onda, a Europa vem vivenciando altos e baixos pandêmicos. Precisamos acreditar que tudo isso irá passar. A forma que tenho de contribuir é ser plena no meu dia-a-dia: quando me cuido, eu estou cuidando do outro.

'Haja o que houver, vamos agregar'

Você fez 40 anos de carreira no ano passado. Quais foram os melhores momentos?

Clark – Ah, são muitos. Bienal de Lyon na França, em 1997, com o balé Stagium; o Festival de Havana, sempre quis conhecer esse país [Cuba] e tirar as minhas próprias conclusões – aconteceu em 1998, também com o Stagium. E com o Stagium ainda, o Festival Ibero Americano de Cádis, na Espanha. Dançar para os adolescentes da Febem [Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor, hoje Fundação Casa, sediada na capital paulista] e de escolas públicas. O espetáculo “Nigrum”, minha criação e última produção de Gustavo Leite [Maceió, 1963-2020], no Teatro Deodoro, foi incrível. Teve a performance no Papódromo [construído no bairro do Vergel do Lago, em 1991, para a visita do papa João Paulo 2º.] e mais: ver e estar com Alicia Alonso [Havana-Cuba, 1920-2019], ela em cena, quase totalmente cega, guiada pelos refletores, dançando com o seu neto... Em 2020, teve a celebração dos 20 anos de nossa escola, com o espetáculo sobre a vida do doutor Milton Hênio.

Suas coreografias são sempre fruto de um intenso e diversificado trabalho de pesquisa... O que tinha em mente quando se iniciou a pandemia e o que tem agora?

Clark – Estou em fase de pesquisa para o trabalho que indica ser “Cerebral”, pesquisa sobre o cérebro e sobre essa forma de clausura que é a ELA. O médico Hemerson Casado [portador da ELA] mandou-me, no final de 2019, uma solicitação, e então comecei a pesquisar. Stephen Hawkins [físico, Reino Unido, 1942-2018] teve a doença, Carlinhos Leite [percussionista da banda Raízes] também teve. Estou em processo de pesquisa. Gosto dos compositores Michael Nyman, John Adams, John Cage, Philip Glass, Heitor Villa-Lobos, Bach, Rachmaninov. E os compositores alagoanos, como Basílio Sé, Junior Almeida, Mácleim, e a cantora Irina Costa, que foi lançada em nosso balé com a música “Haja o que houver”. Vamos agregar, Sebage, com muito carinho e gratidão?

'1912: Orações e Vozes' (2012), sobre o Quebra de Xangô

Você trabalhou com o balé Stagium, uma grande companhia de São Paulo, dançando nos maiores centros culturais do país e do exterior. Mas voltou à capital alagoana... O que há de bom em Maceió?

Clark – Maceió me encanta com a sua história. Existem pensadores, escritores e criadores incríveis do passado e do presente que descubro a cada dia. Tenho um prazer imenso em descobrir a vida de pessoas, como aquelas que representamos na companhia: Ladislau Neto, Lêdo Ivo, Delson Uchoa, Djavan, Bráulio Leite, Arriete Vilela, Pierre Chalita, Dona Marinita, Selma Britto, Joaquim Alves... E lá se vão 44 trabalhos voltados a nossa memória: o mar, a poética, a  música, o folclore... As reservas ambientais. Maceió é a cidade que eu consigo produzir, é a cidade que me traz gratidão. Precisamos cuidar dos nossos rios, riachos, o Salgadinho. Cuidar das nossas lagoas, ah, fiz o espetáculo “Evergreen”, sobre a destruição dos nossos manguezais e sobre invasões territoriais inadequadas. Precisamos olhar a natureza como olhamos para os nossos pais. E vamos continuar estudando e aprendendo, pois o sentido maior da vida está em pontuar, apontar, seja através de escritos coreográficos seja textualmente, de um jeito ou de outro estamos atuando. Só fica o que estiver escrito. Então, nesse momento, Maceió é onde consigo pôr em prática a vida, a profissão e a minha reserva espiritual de sempre.