Especial

Morre Gesivan Rodrigues, o jornaleiro que era símbolo da resistência à ditadura militar

Vítima de infarto do miocárdio, comerciante morreu na madrugada deste sábado (26); seu corpo, que está sendo velado na avenida Siqueira Campos, na região central da capital, será seputado esta tarde no Cemitério de São José

26 de Dezembro de 2020, 15:48

Da Redação

O jornaleiro Gesivan Rodrigues, 71 anos, morreu na madrugada deste sábado, deixando um legado de informação, cultura e agitação política no centro de Maceió. Com uma banca de revista localizada na Praça Montepio dos Artistas desde os anos 1960, Rodrigues tornou seu comércio ponto de encontro de intelectuais, artistas e políticos – especialmente a juventude de esquerda, que, nos anos 1970 e 1980, comparecia regularmente à Banca Nacional para adquirir exemplares de jornais alternativos como Movimento e O Pasquim.

De acordo com depoimentos de amigos, Gesivan Rodrigues “já vinha adoentado” e morreu de infarto agudo do miocárdio. O corpo do jornaleiro está sendo velado na Central de Velório Previda à avenida Siqueira Campos, 691, na região central da capital. O sepultamento será às 16h, no cemitério de São José à avenida Siqueira Campos, 1.500, Trapiche da Barra.

A banca de Gesivan Rodrigues no centro: marco da cultura e da comunicação maceioenses

“Filho do estivador João Rodrigues de Gouveia, Gesivan começou ainda criança a trabalhar, vendendo angu pelas ruas do Vergel do Lago, bairro onde morava com os pais e mais dez irmãos”, conta o jornalista Edberto Ticianelli no site História de Alagoas. “Já trabalhando na banca, descobriu que ganhava mais alugando as revistas do que vendendo”, afirma o jornalista, corroborado pelo próprio Rodrigues. “Eu tinha muitos amigos em quem confiava e quase todos sofriam do mesmo problema de falta de dinheiro”, citando as revistas O CruzeiroCigarraQuerida Fatos & Fotos como as mais vendidas.

“Em novembro de 1970, quando a ditadura militar prendeu os jornalistas da redação de O Pasquim, houve uma onda de solidariedade em todo o país”, continua Ticianelli. “A banca do Gesivan naturalmente passou a ser o ponto de encontro dos leitores do semanário do Rio. Lá se formavam rodas de conversa em que se discutia a censura.”

Gesivan Rodrigues resistiu à ditadura militar e seus asseclas

O próprio Gesivan Rodrigues depôs na Comissão da Verdade, que investigou os crimes do regime militar, lembrando o período da censura no país, quando inclusive chegou a comparecer à sede da Polícia Federal no Mirante São Gonçalo no bairro do Farol. “Eles [os censores] chegavam, prendiam os jornais e levavam a gente para a Polícia Federal, ali em cima da Igreja Catedral. Tinha o Seu Porto, que era o censor. Ele perguntava de onde tinha vindo o material. Eu respondia que tinha vindo da distribuidora e que estava vendendo o que recebia da distribuidora. Ele conversava, mas liberava. Qualquer apreensão que tinha, ele vinha logo na banca.”

Houve repressão a bancas de revistas que vendia os tabloides de esquerda, mas, segundo Ticianelli, a Banca Nacional se manteve vendendo O Pasquim, Movimento e outros jornais – como denominava-se na época – combativos.

“Houve um movimento de quebra-quebra de banca muito forte por aqui”, lembrou em entrevista o combativo jornaleiro. “O Aldo Rebelo, hoje ministro, juntou-se com o pessoal do PCdoB e fez um movimento aqui, que reuniu muita gente. Era contra a ditadura, que estava incendiando as bancas. Eu recebi várias ameaças, mas o movimento em apoio a minha banca fez baixar a pressão. Mas tentaram incendiar. Eles também vinham e arrancavam os cartazes que eu colava, mas depois do ato não vieram mais aqui.”

Em artigo publicado neste sábado no site O82 Notícias, o historiador Geraldo de Majella assim o definiu: “Gesivan não é, e acredito nunca ter sido, filiado a qualquer partido político; também não esconde suas simpatias pelos movimentos de esquerda. Sua vida é uma demonstração de resistência ao autoritarismo e ao preconceito. É um ser livre na forma de pensar, apesar de viver enclausurado em cerca de doze metros quadrados que é o espaço da Banca Nacional, fonte de sua sobrevivência há quatro décadas.