Cultura

'Cinco Ponto Cinco' é rock miscigenado e antifascista

O poeta, cantor e compositor Eduardo Proffa, junto com a banda Os Zélementos, lança álbum vigoroso que é híbrido de rock, reggae, samba e pop

28 de Dezembro de 2020, 10:32

Ricardo Guima/ Colaborador

O título “Cinco Ponto Cinco” não traduz o espírito dessa valente obra, concentrada num híbrido explosivo de rock, reggae, samba e pop com pitadas de blues, jazz e regionalismo que esse grupo alagoano tem a proeza de perpetrar na história do rock local. Gravado ao vivo em janeiro deste ano no bar e restaurante Zeppelin, o CD foi lançado recentemente, em parceria com o selo alternativo Alagoas Musical.

É notória a evolução de Eduardo Proffa como vocalista desse projeto diferenciado e longe da zona de conforto ao qual era habituado, o pop-rock  dos anos 1980. Em alguns momentos chegando a emular o grande Eduardo Araújo em sua fase soul.

'É notória a evolução de Eduardo Proffa como vocalista desse projeto diferenciado'

O enorme salto qualitativo torna-se inegável quando se ouve Os Zélementos (Arnaud Borges, violão e vocais), Gama Júnior (flauta, percussão e vocais), Alexandre Rodas (guitarra), Ykson Nascimento (contrabaixo) e Leo Costa (bateria), temperando uma música altamente vigorosa cheinha de uma autêntica alagoanidade nos temas e na rica dinâmica instrumental, que bombardeiam um sistema capitalista há muito falido, mas que a autofágica Sociedade Brasileira S/A insiste em manter vivo.

Ouça aqui o álbum gravado ao vivo no espaço Zeppelin

"O Mundo é nosso” é o lema dominante. E dentro de sua imensidão cabem todos, assim como cabem os mais diversos estilos na arrepiante química entre esses competentes músicos. A flauta de Gama e o violão de Borges criam a leveza e o contraponto perfeitos entre os belos dedilhados de Rodas, o potente baixo de Nascimento e a bateria avassaladora de Costa.

5.5 nada mais é do que a idade festejada este ano do seu frontman Eduardo Proffa, mas “Cinco Ponto Cinco”, o álbum, nos soa mesmo como um grito poético-musical que expurga as injustiças e mazelas sociais do mundo. Tudo flui sem cuspes nem raivas explícitas, mas como denúncia consciente de quem vive num país extremamente desigual, genocida, surreal e acima de tudo, desumanizado! Com o sério agravante de que esse cenário parece ser infinito.

Aliás, Proffa, humildemente, costuma afirmar que “brinca de ser artista”, mas a julgar por esse “Cinco Ponto Cinco”, não parece nenhum pouco estar de brincadeira.