Especial

Em Alagoas e em todo o país, a educação grita por socorro

O perigo da volta às aulas em plena pandemia soma-se a uma série de ataques do governo federal à educação no país; para falar sobre os efeitos disso, conversamos com professoras das redes de ensino pública e privada do estado

15 de Março de 2021, 10:00

Eduardo Afonso Vasconcelos

Em todo o Brasil, o setor educacional vem agonizando com a política imposta pelo poder público diante da pandemia da covid-19. Há exatamente um ano, a modalidade de ensino a distância acentuou os contornos da pobreza nas escolas, alargou o nível de exploração e perseguição aos professores e eximiu as instituições de responsabilidades sobre a comunidade escolar. Hoje, a volta às aulas presenciais nas esferas pública e privada é uma realidade que ameaça dizimar milhares de estudantes e educadores, ficando evidente que, para o atual governo, algo sobrepõe todos os deveres relacionados à educação: a manutenção de lucros tanto das empresas do ramo, muitas ligadas ao capital internacional, como dos demais grandes empresários, que vislumbram a ampla retomada da movimentação econômica.

No entanto, o cenário pandêmico parece apenas ter proporcionado as condições ideais para o estopim da política de destruição educacional no Brasil. A partir do golpe de 2016, no governo ilegítimo de Michel Temer, foi impulsionada uma campanha nacional de desmoralização da educação pública e de seus profissionais (e até da pedagogia como ciência), cujo principal motor foi o programa “Escola sem Partido”, que propunha censurar e perseguir educadores. Estava montado o ambiente perfeito para a aprovação do congelamento de gastos públicos com educação e de uma reforma que precarizou o ensino médio. E essa política prosseguiu, pois apenas encontrou continuidade com o presidente genocida Jair Bolsonaro – que, hoje, se esforça para coibir quaisquer investidas de reação popular em defesa do ensino brasileiro. Há um mês, o pastor Milton Ribeiro, atual ministro da Educação, enviou um ofício aos dirigentes de universidades e institutos federais para instituir punições a alunos e professores que organizem atos “político-partidários” contrários ao governo federal.

Em Alagoas, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc), durante a pandemia, acirrou as já cruéis pressões exercidas sobre os funcionários de escolas públicas. Entre abril e maio do ano passado, contrariando os decretos de isolamento social, a secretaria convocou arbitrariamente funcionários de unidades escolares para o retorno ao trabalho presencial. Já em agosto, com a modalidade a distância instituída, uma fala da então secretária Laura Alves, proferida em reunião com servidores públicos, ganhou repercussão, pois ameaçava demitir professores contratados caso não houvesse alto nível de comparecimento de alunos às aulas remotas. Hoje, a Seduc está sob comando do economista Fábio Guedes. 

Milton Ribeiro, ministro da Educação: ameaçando alunos e professores

O Alagoas Boreal conversou com três profissionais do ensino, que não aceitaram se identificar em razão do risco evidente de perseguição. A primeira delas é professora há quase 30 anos e leciona em uma escola da rede estadual no bairro da Jatiúca. A servidora pública se queixa de uma série de entraves trazidos pelo trabalho remoto. “Antes de tudo, nem todos os profissionais dominavam as tecnologias exigidas para este momento. Alguns nem tinham internet de qualidade. Foi muito complicado”, explica. 

Logo se apresentaram, também, as dificuldades dos estudantes, pois “grande parte deles não tinha acesso à internet”. “Eles não possuíam um pacote de dados suficiente para os encontros on-line”, lamenta a educadora. Segundo ela, era comum a ausência de estudantes que dividiam um único aparelho de celular com seus familiares, o que implicava numa inconveniente alternância de horários. “Então, tivemos de adotar um plano B. Seguindo o direcionamento da Gere [Gerência Regional de Educação], passamos a produzir material impresso [que deveria ser buscado na escola] para aqueles que não conseguiam acompanhar as aulas.” 

Essas resoluções imediatas do governo estadual, porém, estão longe de garantir uma educação de fato justa e igualitária. Como reconhece a professora, “as desigualdades entre os alunos das redes pública e privada ficaram muito maiores nesse período”. Assim, à medida que o ensino a distância mostra-se ineficaz, mais o corpo docente é cobrado a suprir as lacunas deixadas pelo poder público. 

Sobre isso, a professora destaca o acúmulo de funções e exigências. “Todos estamos exaustos, porque, além da nossa carga horária, há um número infindável de reuniões'', reclama, acrescentando que “o WhatsApp passou a ser objeto essencial de trabalho, sem hora estabelecida”. 

Ela diz que “a pressão sempre fez parte do processo, mas ficou excessiva”. “As cobranças foram tantas que alguns professores não aguentaram. Todo esse contexto nos adoeceu, e cheguei a presenciar colegas com quadro de depressão.”

Sobre o posicionamento do Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Alagoas (Sinteal), presidido por Maria Consuelo Correia, a professora, que é sindicalizada, lamenta. “O sindicato não se mobilizou em nenhum momento para combater a sobrecarga de trabalho.”

Engana-se quem imagina que a situação dos trabalhadores é distinta na rede privada de ensino, onde a precariedade também impera, como nos conta outra professora, atuante na área há 25 anos. Para ela, que trabalha na maior escola particular do estado, o Sindicato dos Professores de Alagoas (Sinpro) tem assumido postura de não enfrentamento aos desmandos dos patrões. “Segundo eles, os empregadores ameaçam constantemente uma demissão em massa, o que acaba sempre paralisando o sindicato. Essa é a segunda gestão do presidente atual [Eduardo Vasconcelos], que tem demonstrado total subserviência aos interesses patronais.”

Os abusos desses empregadores estiveram inicialmente relacionados à introdução do trabalho remoto. “O cenário era naturalmente preocupante, mas ainda existia a necessidade de atrair os alunos ao novo modelo de aulas e deixar os pais satisfeitos com o serviço oferecido pela empresa”, esclarece a docente. “Além disso, a instituição comprou muitos pacotes de tecnologia e exigia seu domínio e utilização num curto período de tempo, o que gerou uma quantidade enorme de tarefas.”

A inserção dessas tecnologias foi repentina e lançou a presença dominante de jogos eletrônicos no cotidiano letivo, colocando estranhamente em segundo plano a prática de leitura. “O colégio vive a utopia de que a gamificação das aulas será o boom da educação, sem se preocupar com a saúde emocional de alunos e funcionários.” 

A professora ainda declara que essas novas ferramentas geraram custos adicionais de energia e pacote de internet, além de que, em grande medida, serviram para intensificar cobranças – inclusive, fora do horário de trabalho. “O assédio vem em forma de mensagens motivacionais, em que fica claro o discurso de que quem não se adaptar às mudanças sairá do quadro de funcionários.” 

No mesmo sentido, quaisquer reivindicações dos empregados são tolhidas pela coordenação e a direção. Torna-se, portanto, comum ver “professores passando relatórios falsos de aulas magníficas por medo de perseguição”, descreve. Isso escancara que as instituições particulares, de um modo geral, não estão preocupadas com o nível qualitativo do ensino, mas apenas com seu faturamento.

Ainda assim, a questão mais problemática do ensino privado atualmente é o retorno presencial às aulas, um perigo frontal à vida da comunidade escolar e de toda a sociedade. Mesmo em formato híbrido (virtual e físico), que promove revezamento de estudantes durante a semana, o colégio onde leciona a docente entrevistada já obteve, em apenas duas semanas, o saldo de quatro professores infectados pela covid-19 e turmas suspensas por conta da identificação de casos suspeitos. "Enquanto corremos riscos, os coordenadores e diretores da escola não circulam nos corredores, mantendo-se fechados em suas respectivas salas”, revela a profissional. Segundo ela, as únicas orientações que os empregadores fornecem acerca da pandemia servem para amenizar a repercussão sobre contágio e prevenção e para calar as queixas relacionadas à exposição ao vírus.

Mesmo que a volta presencial às salas de aula tenha atingido apenas o ensino básico, área na qual a pauta sobre o retorno foi e é posta constantemente em debate público, os cursos superiores pelo país também sofrem algumas deficiências. É o caso da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), onde uma acadêmica que conversou conosco leciona há mais de duas décadas. Servidora de um campus no agreste alagoano, ela foi bombardeada por demandas inéditas antes mesmo da retomada virtual às aulas, correspondendo a um movimento que ela considera ter funcionado para “justificar” o salário recebido durante o momento de paralisação. 

Além das dificuldades gerais como desenvolver habilidades no mundo digital em tempo recorde, contornar os gastos adicionais de energia, adaptar o planejamento de disciplinas e realizar longas pesquisas de materiais disponíveis em formato on-line, a professora fala como sua vida pessoal foi duramente afetada. “O dia de trabalho inicia às sete da manhã e termina depois das dez da noite, chegando a atrapalhar as necessidades da vida cotidiana, como alimentação, sono, descanso e lazer", desabafa. Sobre os efeitos emocionais disso, diz que há “uma sensação permanente de exaustão e ansiedade". “E isso, algumas vezes, acaba sendo agravado com o adoecimento de algum familiar ou amigo.”