Cultura

Teatrólogo mineiro radicado no Rio, Lauro Gomes parte para o andar de cima

E deixa um legado de inovação e interatividade no teatro alagoano; internado para tratamento de um câncer, o artista morreu na sexta-feira (12), em decorrência de parada cardíaca

19 de Março de 2021, 16:13

Sebage Jorge/ Edtor

O ator, diretor, dramaturgo, produtor musical e radialista mineiro, Lauro Gomes morreu na semana passada, sexta-feira (12). Gomes, um grande aliado dos artistas e das artes cênicas alagoanas, morava cidade do Rio de Janeiro e havia se internado em hospital da capital fluminense para o tratamento de um câncer no cérebro. Sua morte foi consequência de uma parada cardíaca.

“Lauro Gomes deixa um importante legado por toda sua contribuição ao teatro alagoano”, destaca o informativo da Diretoria de Teatros do Estado de Alagoas (a Diteal) enviado à Redação. “Era uma pessoa muito querida pelos profissionais das artes. Quem o conhecia se encantava. Esteve aqui em Alagoas por cinco décadas seguidas, sempre interagindo e colaborando com as atrizes, atores, diretores, produtores... Era um entusiasta do fazer teatral. Uma grande perda para nós”, homenageia a diretora presidente da Diteal, Sheila Maluf.

O gerente artístico e cultural da casa, Alexandre Holanda, diz que o Teatro Deodoro e o Teatro de Arena Sérgio Cardoso “foram palcos de grande importância na relação de Lauro Gomes com o teatro alagoano”. “Sem dúvidas, ele veio cumprir um importante papel, numa trajetória que contou com montagens históricas.”

Sim, tais encenações antológicas dirigidas por Lauro Gomes em terras caetés deram novo perfil ao teatro alagoano. Envolvido com as montagens da legendária Associação Teatral das Alagoas (a ATA), essa companhia que abrigou e abriga alguns monstros sagrados do nosso teatro – entre eles, a diva Linda Mascarenhas e esses outros baluartes da cena caeté que são os atores, diretores e dramaturgos Homero Cavalcante, Ronaldo de Andrade e José Márcio Passos –, Lauro Gomes ajudou a sedimentar um moderno teatro alagoano, tornando-o, por assim dizer, palpável, não mesmo profissional (até porque, nessa época, no início dos anos 1970, tratava-se de uma orgulhosa cena amadora), mas de uma eficiência e rigor cênico que não deixavam arestas, pontas soltas e muito menos indicavam propensão ao fracasso.

Lauro Gomes trouxe interatividade às montagens da ATA

As peças que Lauro Gomes veio dirigir em Maceió, nos anos de chumbo, tornaram-se grandes sucessos, a começar por “Hipólito”, o clássico de Eurípedes em montagem de 1971. No press-release da Diteal, assinado pela jornalista Hannah Copertino, José Márcio Passos lembra o início dessa longeva relação artística (e fraternal) de Lauro Gomes com a Associação Teatral das Alagoas. “Tivemos um ator em Alagoas, que era mais declamador, Lauro Barros”, conta Passos. “Barros frequentava a casa de Linda Mascarenhas, que era uma oficina de teatro. A Linda desejava muito montar a tragédia grega ‘Fedra’, de Racine. O Lauro Barros disse a Linda que tinha um amigo, e que ia lhe dar o endereço e telefone – era o Lauro Gomes. Linda foi ao Rio, telefonou para Lauro e se encontraram.  Lauro sugeriu que Linda fizesse ‘Hipólito’, de Eurípedes, de onde Racine tirou o texto. Linda montou ‘Fedra’, interpretada por sua sobrinha, Sônia Melo. E percebeu que Lauro tinha muita competência com o fazer teatral e então o convidou para vir a Maceió. Ele trouxe o grande regente Aylton Escobar e foram para a casa de Linda. Até hoje, Escobar diz que 'Hipólito' de Maceió foi a melhor composição dele, de trilha sonora, para a ATA. Inclusive, tenho um amigo músico, que participou e diz que foi a maior oficina de direção musical que teve. A montagem de ‘Hipólito’ foi um grande espetáculo. Tinham músicos da Polícia Militar, harpa, piano, improviso, uma coisa extraordinária. É quando começa a colaboração de Lauro, como diretor, no sentido de modernização e inovação no teatro de Maceió. Trazer um sopro novo, de mudança, dando a continuidade que o próprio teatro se encarrega de fazer, evoluindo. O Lauro fez o que Verdi executou com a ópera. Não existia estereofônico e o Verdi espalhava instrumentos e músicos pelo teatro para sentir a música indo e voltando. Aylton Escobar e Lauro tiveram a ideia de espalhar o coro do ‘Hipólito’ pelo Teatro Deodoro. Lauro também mostrou a possibilidade dos artistas entrarem em cena por outros espaços – existia a interatividade entre os artistas e a plateia, que colaborava com falas. Isso é uma marca do Lauro Gomes como diretor.”

Aliado do nosso teatro, o mineiro Lauro Gomes deixou sua marca no rádio e teatro cariocas

E então veio “Hoje é Dia de Rock”, texto emblemático de Zé Vicente, cuja montagem dirigida por Gomes tornou o teatro alagoano uma espécie de objeto do desejo, com os artistas da ATA elevados ao status de estrelas pop. E assim foi com as montagens seguintes, como a irrepreensível “O Bravo Soldado Soldado Svejk”, de Nicolau Hasek, em 1976, com um José Márcio Passos histrião fazendo a plateia do Teatro de Arena rolar de rir numa formidável catarse . “Pano de Boca”, o formidável texto de Fauzi Arap, jogava uma luz sobre uma recorrente dicotomia entre a fantasia e a realidade enfrentada pelos artistas. Era como se os atores – Ronaldo de Andrade, Maria Beatriz Brandão Sá –, todos muito jovens, experimentassem a desilusão da arte. Em plena ditadura militar, a angústia encenada no palco parecia contagiar os próprios atores e, por extensão, um público tenso e em estado de êxtase.

“A presença de Lauro Gomes é importantíssima no teatro alagoano com Linda Mascarenhas. Linda tinha uma linha de teatro à sua época, mas, ao mesmo tempo, à frente de seu tempo, possibilitava a inovação. Lauro era uma pessoa amada, guardamos, junto à saudade, os ensinamentos”, reverencia Homero Cavalcante, em entrevista à comunicação do Teatro Deodoro, corroborado por Ronaldo de Andrade. “É o nome que ecoou de forma perene na história do teatro de Alagoas e de maneira emocionante, porém efêmera nas histórias de vida da geração de atores, atrizes e técnicos da arte do teatro em Maceió, dos anos 1970 até hoje. O importante papel de diretor de teatro, que Lauro Gomes exerceu na nossa ATA foi desempenhado com a altivez dos que dominam e sabem praticar as teorias. Ele trouxe para a nossa companhia toda experiência adquirida no grupo Orla de Teatro da Guanabara, que fundou, dirigiu e conquistou reconhecimento durante os anos 1960. Ele implantou na ATA a prática do seu método, o Teatro de Participação, que atribuiu ao grupo de Linda Mascarenhas uma maneira especial de lidar com processo de criação coletivo.”

Em 1983, estreando na dramaturgia, Homero Cavalcante escreveu “Fazendo Chuva”, montagem protagonizada por Linda Mascarenhas (Maceió, 1895-1991), sua última performance no palco, sendo depois substituída por Maria Beatriz Brandão Sá. Sem os grandes arroubos dos espetáculos dos anos 1970, aqui vimos uma sensível homenagem à pioneira Linda, com os atores da ATA e o próprio Lauro Gomes fazendo uma ode a essa nossa grande dama do teatro.  

A colaboração de Lauro Gomes ao teatro alagoano seguiu até 2018, quando deu assistência a David Faria na direção de outra montagem da ATA, o espetáculo infantil “A Princesinha mimada e o Dragão malvado”. Daria muito mais, a despeito dos 84 anos que faria agora em 23 de março. Descanse em paz, Lauro, apesar de os deuses do teatro estarem, com certeza, em festa com a sua chegada ao Olimpo. A gente aqui agradece. Evoé.