Cultura

Em ‘Mário (& Rosina)’, Ana Karina Luna escancara as contradições contemporâneas entre homem e mulher

Lançado no final do ano passado, o livro da autora maceioense apresenta uma prosa poética do cotidiano repleta de jogos mentais

23 de Março de 2021, 15:37

Eduardo Afonso Vasconcelos

A belíssima capa do livro “Mário (& Rosina)”, feita pelas mãos da própria autora, a poeta maceioense Ana Karina Luna, já revela ao leitor um pouco do que lhe reservam as 135 páginas da novela lançada no fim do ano passado. O nome Mário, que significa homem viril em latim, está escrito com letras maiúsculas e contornos destacados, enquanto Rosina, remetendo ao diminutivo de rosa – por si só, simbólica –, aparece grafado em linhas arabescas e entreposto mediante parênteses. É dessa forma que Ana Karina prepara terreno para colocar em pauta os papéis desempenhados por homens e mulheres na contemporaneidade, usando como mote a narrativa de um amor real e erótico.

A arte do livro é de Ana Karina Luna, que também trabalha com pintura e design
'Mário (& Rosina)': a dor e a delícia de reconhecer o outro

O livro é um caso raro em que a mente masculina é desbravada e descrita por uma autora. O resultado poderia ser caricatural, mas reflete bem a atualidade: masculino e feminino se imbricam na representação de fluxos mentais intensos, resultando na profusão de imagens poéticas. “Mário (& Rosina)” não é uma prosa feminista, mas representa a busca da feminilidade (e da masculinidade) no ser humano. Tudo isso é lançado a uma sociedade em que a guerra entre os sexos se acirra e parece apontar para o triunfo do feminino. Na novela em causa, a mulher não triunfa, tampouco o homem. Ambos mergulham na dor e na delícia de conhecer e reconhecer um ao outro. Se atraem e se repelem. Se confundem em seus papéis. E, assim, desenham a complexidade da psique humana, comportando a carga emocional que implica viver a dureza deste mundo.

Não poderia deixar de ser mencionada a ousadia da autora de colocar Rosina em segundo plano narrativo – ao menos, aparentemente – nestes tempos de afirmação da figura da mulher. A personagem, na maioria das vezes, é inserida através de parênteses como a voz feminina que fala em Mário (ou de Mário). Talvez porque essa voz naturalmente acompanhe o sujeito pós-moderno, em função da consolidação da participação da mulher no mercado de trabalho capitalista. Aliás, a narrativa não dispensa a temática do trabalho e dos conflitos entre classes, a começar pela representação dos protagonistas. Folheando a novela, é possível flagrar, por exemplo, alguns diálogos entre Mário e Rosina sobre a força bruta inerente à figura do homem, característica que, atualmente, só adquire valor nalguns recantos das profissões humanas: mecânico, como o é Mário, ou reparador da rede elétrica, ou metalúrgico, ou minerador etc.

Para Elis Regina, o sistema é que inferioriza a mulher

Sobre essas questões que envolvem mulher, homem, trabalho e classe, a cantora Elis Regina, uma das personalidades mais relevantes que este país já produziu no mundo das artes, levantava discussões brilhantes durante a década de 1970. No fim desse período, por exemplo, Elis chegou a declarar, em entrevista, que o sistema em que vivemos é que prejudica tanto os seres masculinos quanto os femininos, colocando a mulher "num lugar de inferioridade" (moralmente falando) e "não o homem".

Do mesmo modo, Ana Karina Luna não parece guardar intenções de quebrar o masculino em sua narrativa. O que acontece é que o homem aparece no auge de sua fragilidade – por vezes, num lugar risível –, perdido numa sociedade aparentemente cada vez mais feminina. Sob essa perspectiva, a relação profunda (e lasciva) que Mário e Rosina estabelecem é o cenário ideal para penetrar as obscuridades do inconsciente, das contradições, dos instintos e dos sentidos humanos. Nesse cenário, homem e mulher são atores principais. Está fundada, portanto, uma prosa poética do cotidiano, que valoriza o anódino em suas sutilezas e fala de amor sem pudores. “Meu bem, o intelecto não entende de sentimento nem tampouco de apetites, então você quer que a sua cabecinha chame amor e paixão de quê? Só pode chamar de patetice irreal”, lança Rosina a Mário.