Especial

Vítima da covid-19, Sandro Oliveira deixa um legado de diagramador artista

O jornalista que atuava na redação do noticiário Gazeta de Alagoas morreu na madrugada de quinta-feira (25); colegas, além de sua companheira Ana Carolina Leão, prestam homenagens

31 de Março de 2021, 16:48

Eduardo Afonso Vasconcelos

Na madrugada de quinta-feira (25), dia em que o país ultrapassou a marca de 300 mil mortos pela pandemia, o jornalista Sandro Oliveira entrou para as estatísticas de vítimas da covid-19 e do descaso do governo federal com a saúde do povo brasileiro. Craque da diagramação – área em que seus colegas o consideram artista –, Oliveira estava, desde a segunda-feira (22), internado no Hospital da Mulher, na capital. O jornalista morreu aos 42 anos, deixando um legado de companheirismo e de mestre do design jornalístico.

Namorada de Sandro há mais de dois anos, Ana Carolina Leão conversou com o Alagoas Boreal, explicando como acredita que o vírus tenha se instalado na residência do casal. Apesar de ambos precisarem ir ao trabalho diariamente, utilizando o transporte público de Maceió – tão abarrotado quanto nossos hospitais –, os pais de Carolina, que não saíam às ruas, foram os primeiros da casa a manifestar sintomas. Foi quando ela e Sandro passaram a dar suporte direto ao tratamento dos dois idosos (que foram posteriormente internados), apresentando eles próprios sintomas em poucos dias. 

Ana Carolina Leão: 'Sandro marcou nossas vidas. Eu o amarei para sempre'

Carolina relatou que ela e Sandro buscaram tratamento numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no bairro do Jacintinho, seguindo isolados em casa sob atestado médico. Porém, enquanto ela demonstrava melhora, o quadro dele se agravava diariamente, até que precisou internar-se no Hospital Geral do Estado (HGE), onde descobriu uma infecção nos pulmões. Em menos de três dias, Oliveira foi transferido para o Hospital da Mulher. Ali foi intubado e passou por hemodiálise, tendo sinais de melhora, porém, nada disso o salvou.

A pandemia trouxe vários problemas à família. Carolina perdeu o emprego no ano passado. Sandro, sem poder viajar ao interior, sofria com a distância do filho, de seu primeiro casamento, um garoto de 12 anos que mora em Arapiraca, a 128 km de Maceió. Somando-se a essas mudanças indesejáveis, estavam os acontecimentos políticos nacionais e internacionais, que, segundo Carolina, deixavam seu namorado, por vezes, “transtornado”. “Ele tinha um coração imenso e sentia muito pela injustiça causada aos trabalhadores atualmente”, declarou. 

A pandemia impossibilitou as viagens para ver o filho

“Sandro foi um pai atencioso e amoroso. Deu atenção ao meu filho, que tem a mesma idade do seu. Ele marcou nossas vidas de uma forma que não consigo mensurar a dor de não o termos mais aqui com a gente. Eu o amarei para sempre.”

Como jornalista, junto com outros profissionais da área, Sandro Oliveira encarava um moroso processo judicial, reivindicando o pagamento de dívidas trabalhistas por parte da Organização Arnon de Mello, proprietária de nove veículos de comunicação no estado – dentre eles, a Gazeta de Alagoas, empresa onde Oliveira foi funcionário por 12 anos e da qual permanece credor.

Também esteve nesse grupo de credores da Gazeta o músico Wado, que é formado em Comunicação e, em diversas ocasiões, atuou como diagramador ao lado de Sandro Oliveira, por sua vez responsável pelo caderno de cultura. Ao contrário de Oliveira, entretanto, Wado conseguiu parecer judicial favorável, tendo recebido seus vencimentos. O músico relatou ao site que cerca de 40 profissionais continuam brigando na Justiça. 

“As dívidas estão na faixa de cem ou 200 mil reais por funcionário”, afirmou o músico e jornalista. “Pensar que o Sandro partiu sem que esse dinheiro lhe fosse pago é indignante.” Wado contou que conheceu Sandro na faculdade, tendo trabalhado com ele na Gazeta “por muitos anos”. “Ele desenhava muito. Era um cara extremamente inteligente e simpático, muito querido por todos os colegas de trabalho. É uma perda terrível.”

'Ele desenhava muito', diz Wado sobre o colega diagramador

Também fez parte do quadro de funcionários da Gazeta o atual editor de arte da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, Fernando Rizzotto. Com Oliveira, Rizzotto estabeleceu uma relação de amizade, ainda que vinculada em grande medida ao ambiente de trabalho. “Ele tinha um ponto de vista sobre as coisas distante do senso comum. Era inteligente e sensível – combinação cada vez mais rara de se ver –, mas, sobretudo, era sempre generoso e gentil com os amigos”, relembrou.

Em referência aos diálogos que os dois colegas costumavam travar, Rizzotto afirmou que o assunto preferido de Sandro era o filho. “Eu também sou pai e me dá um nó na garganta sempre que me recordo desses momentos com ele. Para além dos prêmios que conquistou como o profissional competente que foi, acho que o seu maior legado é esse amor pelo filho. Esse menino não tem como dar errado com o pai que teve.”

O editor-chefe da Gazeta de Alagoas, Claudemir Araújo, foi mais um ex-parceiro de trabalho que fez questão de destacar as qualidades profissionais de Sandro, como “grande profissional” e “companheiro de trabalho exemplar”. “Ele conhecia a fundo a arte da diagramação, esbanjando talento e criatividade, e encarava o trabalho com seriedade e responsabilidade”, afirmou. Para Araújo, a morte de Sandro deixa “uma grande lacuna no jornalismo de Alagoas”.