Em podcast, Miguel Nicolelis traz pensamentos, inconformidade e resistência diante da pandemia não controlada

Em sua coluna de áudio 'Diário do Front', neurocientista prevê devastação épica, 'bíblica mesmo', provocada pela covid-19, caso o governo continue ignorando a gravidade da pandemia

27 de Abril de 2021, 16:04

Da Redação

Miguel Nicolelis estreou no jornal El País Brasil, no início de abril, o podcast “Diário do Front”. O neurocientista paulista – de acordo com a revista Scientific American, um dos 20 maiores cientistas em sua área desde o começo da década passada – já mantinha uma coluna quinzenal sobre a maior crise sanitária que o Brasil já enfrentou, agora disponibilizada em áudio. No episódio piloto, Nicolelis é categórico ao chamar o presidente Bolsonaro de "inominável", afirmando que o país está prestes a chegar a um ponto de não retorno na pandemia de covid-19. Ele projeta marcas de mais de quatro mil mortes diárias em breve e um total de 500 mil vítimas em julho. 

Segundo o El País, o neurocientista e professor catedrático da universidade Duke (EUA) “está especialmente preocupado com a possibilidade de um colapso funerário no país, caso o chamado a um lockdown nacional, com bloqueios de circulação não essencial em aeroportos e estradas, não seja atendido”. “Se o colapso funerário se instalar neste país”, alerta o também médico nascido na cidade de São Paulo, “começaremos a ver corpos sendo abandonados pelas ruas, em espaços abertos.”

Nicolelis: 'A maior tragédia sanitária de toda a nossa história'

Nicolelis diz que, com o recrudescimento da pandemia no início de 2021, sentiu que, “ao invés de continuar apenas escrevendo uma coluna quinzenal para o El País Brasil", devia buscar uma forma de comunicação “muito mais ampla". “Considerando que esta segunda onda da pandemia cristalizou a demonstração inequívoca de que nós brasileiros enfrentamos, neste momento, a maior tragédia humanitária de toda a nossa história, eu cheguei à conclusão de que, além dos eventos, dados, estimativas e predições, o que eu precisava deixar documentado para o registro histórico desta verdadeira tragédia brasileira era o amplo espectro de impressões, sentimentos e emoções que diariamente cruzam a minha mente, depois de 14 meses de confinamento na cidade que eu mais amo no mundo.”

O neurocientista conta ainda que foi “numa madrugada insone” que surgiu a ideia de criar um diário, no formato de um podcast semanal, que pudesse transmitir “toda a gama de pensamentos, todo choque, inconformidade e, por que não, resiliência e resistência que a pandemia fez brotar” dentro de si. “Nascia assim o ‘Diário do Front’. Seguindo as mais imemoriais tradições da nossa espécie de produzir relatos na primeira pessoa dos campos de batalha e hecatombes que tristemente permeiam constantemente a nossa história, este diário semanal tem por missão transmitir, através do nosso mais completo instrumento de comunicação, a voz humana, uma visão pessoal, quase íntima, do cotidiano trágico e surreal que faz o Brasil de 2021 ser o epicentro mundial da pandemia de covid-19.”